
Estava uma noite agradável. Fim-de-semana, a cidade repleta de movimento, festas, bares, concertos, cinemas, tudo aquilo que torna as cidades em algo especial. Eric decidira sair à rua. Adorava música, adorava festas, adorava a noite na cidade. Designer gráfico por conta própria, dirigia, juntamente com um amigo, a agência We Are Ted, fundada em 2007. Gostava de festas. O seu ar de quarentão hipster, de óculos modernaços, barba sempre por fazer, não revelava a profundidade psicológica, emocional de um ser humano extraordinário. Um ar tímido, de quem na verdade não era reservado, mas brincalhão, risonho, carinhoso. Naquele dia decidiu sair à rua, sem a câmara fotográfica que sempre o acompanhava no trabalho, só um bilhete para um concerto de rock pesado.
O barulho, juntamente com as luzes e o ambiente bem-disposto da cidade, são muitas vezes o antídoto ideal - ou, pelo menos, o preferido - para uma semana exaustiva de trabalho. Tudo o que há de mau no "sistema" - o trabalho, a sujidade da cidade, o trânsito, a mesquinhez e superficialidade das pessoas - parece desaparecer momentaneamente. Até para quem vá sozinho; não é preciso levar amigos, porque a própria cidade nos acompanha.
Note-se que a vida lhe corria bem, não estava deprimido nem nada disso. Gostava do que fazia. Ainda por cima trabalhava por conta própria - sem necessidade de prestar contas a ninguém - e tinha apetência natural para a coisa. A fotografia sempre fizera parte dele, desde que era pequeno.
No trabalho estava feliz. E em casa também: casara com a mulher da sua vida - ou a primeira delas, visto que passara a partilhar esse título com a filha. Antes da música e da fotografia, vinham aquelas duas mulheres, as suas grandes paixões, as razões de viver. Ele e a mulher eram um casal de adolescentes, perdidamente apaixonados, apesar de os dois já estarem nos seus quarenta anos. Um amor que crescera ao longo do tempo, que ganhara raízes profundas na vida que partilhavam os dois e que plantara uma semente com o nascimento da primeira filha. Um ano antes, a pequenina tinha entrado para a escola. Tinha 4 anos (4 anos e meio, como ela dizia). E o pai sempre fizera de tudo com ela. Fotografava-a repetidas vezes, como que a querer guardar todos os momentos, todos os instantes daquele início de vida do seu anjo. Em casa tinha tudo aquilo que sonhara, e tudo aquilo que precisava.
Mas, de quando em quando, ir à rua sabia-lhe bem. Ainda mais quando para ver uma das bandas preferidas - o barulho, as luzes, o ambiente bem-disposto, isso tudo. Naquele momento estava com felicidade acrescida, e aproveitara agora para estar sozinho antes de uma nova jornada marcante na sua vida, que estava prestes a acontecer. Na verdade, Eric preparava-se para ter uma nova criança. Outra princesa. E a ansiedade era tanta que já não pensava noutra coisa. Nem lhe vinham à cabeça as noites que teria de permanecer acordado, ou os choros, as fraldas - se bem que era inevitável que tivesse de pensar nisso. Mas agora estava simples e puramente feliz. Encantado com a vida, encantado com a sua família, com o seu trabalho, com a expetativa de ter mais uma filha, com a cidade que o recebia e o acompanhava naquela noite de sexta-feira.
Na sua vida, Eric já percorrera muitas partes do mundo. Córsega, Veneza, Nova Iorque, Dubai... Tudo documentado, todos os tesouros captados pela lente da sua máquina. Mas não havia igual a Paris. Paris era a sua outra paixão. Não apenas a beleza, já de si inigualável, dos edifícios e das avenidas; mas, mais do que isso, o movimento, a diversidade das pessoas, a profundidade intelectual de cada uma delas. Quando pensava na sua cidade, imaginava aquela noite de sexta-feira. Imaginava os cafés da Boulevard Voltaire, memórias de uma outra época, a Belle Époque. Imaginava Monmartre, de como Gide, Aron, Camus e Malraux tinham por ali passado, e Sartre e Beauvoir a caminharem de mãos dadas por aqueles recantos escondidos da cidade que é da luz, mas é, antes disso, dos pensadores e dos poetas.
O Bataclan era o lugar escolhido para aquela noite. A razão era simples: a banda de Jesse Hugues e Josh Homme, conhecida como Eagles of Death Metal, vinha dos Estados Unidos para tocar naquele teatro em frente a umas mil e quantas pessoas. O rock da pesada tinha fãs em Paris, fãs do tipo mais diverso possível. Eric era um deles. A esposa não gostava, dizia que era só barulho, e ficara em casa. Eric deitara a filha antes de sair, fazia-o sempre, e despedira-se com um beijo da bela esposa. Sempre a rir-se, perguntou se ela não queria ir, em tom irónico. Ela respondeu "cala-te", também a rir-se. As grávidas não vão a concertos de rock pesado. Então, bom concerto, beijinhos, amo-te, até já. E lá foi ele.

A noite não acabou como esperava. Não acabou em casa, junto à mulher e à filha. O concerto foi giro, sim, mas foi interrompido abrutamente. Aquilo que era uma noite de diversão - uma noite à moda de Eric e à moda de Paris - terminou como uma noite de tristeza e de morte. Às 9:40 da noite, o concerto já ia encaminhado, a atmosfera era boa, uns quantos homens desgraçados decidiram disparar contra todos os que estavam lá presentes.
Eric foi uma das 130 pessoas que morreram naquela noite. E converteu-se, assim, no símbolo de uma humanidade sacrificada em prol da demência e do extremismo. 130 não são uma estatística. 130 são a humanidade reunida em sofrimento, reunida em tristeza, reunida em fraternidade mais do que pânico ou medo.
E com o sacrifício de Eric vimos outra coisa. Nestes momentos, em que a morte e o terror imperam, a união dos homens prevalece sobre a desunião, a esperança sobre o desespero, a razão sobre o instinto. Ironia das ironias ter acontecido em França, a casa dos maiores intelectuais do Ocidente, pátria de Voltaire e da tolerância, de revoluções e de Maios de 68, da cultura, de Eric e da arte.
O que a Europa tem verdadeiramente de especial, com a França na dianteira, é ter criado uma matriz cultural que se sobrepôs à natureza simplesmente animal do homem. A "República" que os franceses tantas vezes exaltam não foi só a divisão de poderes de Montesquieu ou as figuras imponentes de De Gaulle e de Miterrand. A República foi, antes de ser isso, a instilação no coração dos homens de uma virtude assente em duas coisas: por um lado, na moderação, na auto-limitação, na perceção de que, enquanto pessoas, fazemos parte de algo maior, de uma comunidade, de uma Ideia, de um espírito global que nos torna a todos irmãos e irmãs, frères e soeurs numa humanidade fraterna (e, a partir daí, a tão essencial ideia de tolerância, de respeito, de amor ao próximo); por outro lado, na luta por um mundo melhor, que tanto se viu no Maio de 68 e que sempre se vê na forma como a França intervém no palco das relações internacionais, na defesa veemente dos direitos humanos, na cultura política e na participação dos franceses, a nível local, nacional e internacional. A França, nesse sentido, somos todos nós; e muito lhe devemos, não só em matérias de segurança ou de desenvolvimento, mas por ter ajudado a criar esta ideia de pessoa que é mais forte do que a natureza animal, do que o instinto de sobrevivência, do que a apetência pela violência e do que a lei do mais forte. Uma ideia que alguns tentam destruir, mas nem com mil Bataclans conseguirão destruir.
Eric não voltou a casa. Foi levado para o hospital, mas já tinha deixado este mundo. A mulher recebeu um telefonema. E as filhas, a de quatro anos e a que iria nascer uns dias depois, passaram a órfãs. Houve lágrimas, houve gritos naquela casa; e o próprio Eric gritara, e muito, de medo, de susto, de dor. Mas, agora, estava em paz, ele e outros 129. Ele, que decerto estará a olhar por nós, não deve ser esquecido, tal como Elsa, ou a sua mãe Patrícia, ou Fabrice, ou Gregory, e todas as outras vítimas. Na hora da maior tristeza, do maior medo pelo que possa vir a suceder, devemos celebrar o património de uma Europa que é nossa, e que aqueles 130 heróis encarnaram nas suas últimas horas de vida. Devemos preservá-lo, e devemos lutar por ele. Na luta por um mundo melhor, pela República, pelas pessoas que conhecemos, pelo Bem contra o mal.
Esquecer é trair. Relembrar é honrar os defuntos com a nossa preocupação e a nossa memória. É garantir que os criminosos não saem impunes. Garantir que esta Europa, este Ocidente, esta República não morrem. Garantir que lembramos Descartes, Voltaire, Rosseau, Tocqueville e Sartre, Monet, Cézanne, Reinoir e Degas, Proust, Flaubert e Vitor Hugo, Pascal, Laplace e Curie. Garantir que permanecemos fiéis a nós mesmos, e à humanidade que ajudámos a construir.
Lembrar e relembrar. Guardar memórias. E lutar por elas.