Dom Quixote
"A diferença entre o impossível e o possível reside na determinação de um homem." Tommy Lasorda
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
Tudo é político
No coração do Porto, invicta e milenar cidade, encontra-se um dos maiores testemunhos de Portugal à cultura: a Livraria Lello. Dentro dessa livraria, verdadeiro monumento arquitetónico, uma pessoa não pode ficar sem nada comprar - mesmo que não seja para ler ou como lembrança da visita, pelo menos para fazer valer os 3 euros pagos à entrada do sítio.
Ora claro está que eu comprei um livro na minha passagem pela Lello. Entre um livro de História - de Kissinger, personalidade controversa que eu muito desejo ler - ou um romance - José Luís Peixoto, muito provavelmente -, decidi ir à secção de filosofia e pegar num livrinho de 160 páginas de um dos mais reputados intelectuais deste nosso pequeno país. Eu não conhecia Eduardo Lourenço, e tinha enorme curiosidade em ler uma das suas obras. O título convenceu-me: A Esquerda na encruzilhada ou fora da História? - Ensaios políticos. Pensei para mim, então o homem é de esquerda? O filósofo parecia-me um caso diretamente saído da elite intelectual do salazarismo, e, afinal, é de esquerda! Bem, chegaram-me duas noites para acabar de ler a pequena obra, de tão cativante ser a escrita e tão profundo o pensamento.
Decidi partilhar uma parte desse texto que, para mim, vale como perfeita e sumária descrição do que é ser de esquerda, da crise que a esquerda hoje enfrenta, e do capitalismo devorador em que atualmente vivemos. Aquilo que, para muitos, será decerto um choque, é para mim cada vez mais, não uma fonte de orgulho, mas um sentido de dever: sou de esquerda porque sinto que o devo ser. Discussões ideológicas, debates políticos, deixarei para depois - apesar de que, como diziam os estudantes no Maio de 68, "tudo é político". Agora cito Eduardo Lourenço, infinitamente mais sábio e mil vezes mais experiente do que eu.
A esquerda, demasiado presa ao seu passado numa ortodoxia petrificada e pouco atraente, entrou em crise - provam-no os resultados eleitorais na Europa, o falhanço de muitas políticas económicas esquerdistas e o vazio ideológico que hoje caracteriza a esquerda (sobretudo a chamada New Left, teorizada por Giddens, praticada por Blair, que hoje parece ter desaparecido). Do lado da direita aconteceu um fenómeno semelhante - o desaparecimento da democracia-cristã e de um certo nacionalismo moderado -, mas em menor escala.
Aconselho, nem que seja por mero interesse académico, a leitura deste pequeno livro. A ignorância é um defeito; mas falar sem conhecer, fingindo que se conhece, é das coisas mais feias que existem. Conhecer a esquerda é o primeiro ponto essencial para a criticar.
Ora claro está que eu comprei um livro na minha passagem pela Lello. Entre um livro de História - de Kissinger, personalidade controversa que eu muito desejo ler - ou um romance - José Luís Peixoto, muito provavelmente -, decidi ir à secção de filosofia e pegar num livrinho de 160 páginas de um dos mais reputados intelectuais deste nosso pequeno país. Eu não conhecia Eduardo Lourenço, e tinha enorme curiosidade em ler uma das suas obras. O título convenceu-me: A Esquerda na encruzilhada ou fora da História? - Ensaios políticos. Pensei para mim, então o homem é de esquerda? O filósofo parecia-me um caso diretamente saído da elite intelectual do salazarismo, e, afinal, é de esquerda! Bem, chegaram-me duas noites para acabar de ler a pequena obra, de tão cativante ser a escrita e tão profundo o pensamento.
Decidi partilhar uma parte desse texto que, para mim, vale como perfeita e sumária descrição do que é ser de esquerda, da crise que a esquerda hoje enfrenta, e do capitalismo devorador em que atualmente vivemos. Aquilo que, para muitos, será decerto um choque, é para mim cada vez mais, não uma fonte de orgulho, mas um sentido de dever: sou de esquerda porque sinto que o devo ser. Discussões ideológicas, debates políticos, deixarei para depois - apesar de que, como diziam os estudantes no Maio de 68, "tudo é político". Agora cito Eduardo Lourenço, infinitamente mais sábio e mil vezes mais experiente do que eu.
Para ter futuro - não como mera expressão na ordem político-económica - o Socialismo terá como obrigação primeira reinventar um novo discurso cultural, revisitar seriamente o seu imaginário que ainda o protege aparentemente do fascínio do discurso pseudoliberal. Não é tarefa de eleitos, mas de todos que sabem - sem ser de ciência certa - que há na ideia e no projeto socialista uma exigência, uma verdade que nem a mais gritante eficácia do ultracapitalismo planetário consegue ocultar. Debaixo das «pedras da calçada, a praia», diziam os estudantes de 68. Debaixo da fachada rutilante de uma sociedade que exclui e remete para o nada social uma fração inumerável da comunidade humana não descobrimos praia nenhuma, só o espetáculo de uma sociedade dividida entre a euforia dos conquistadores new look e as suas vítimas, mesmo os que recebem desse universo rutilante algumas migalhas de sonho que lhes permitem imaginar que estão ainda dentro do ninho iluminado. Para os que acham meramente ética esta constatação, não tenho resposta a dar. O Socialismo ou é ética social em ato ou não é nada. Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção - e das consequências práticas que dela relevam - ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores.
Eduardo Lourenço, "Socialismo: que futuro?",
in A Esquerda na encruzilhada ou fora da História?, p. 18, 2009, Gradiva.
A esquerda, demasiado presa ao seu passado numa ortodoxia petrificada e pouco atraente, entrou em crise - provam-no os resultados eleitorais na Europa, o falhanço de muitas políticas económicas esquerdistas e o vazio ideológico que hoje caracteriza a esquerda (sobretudo a chamada New Left, teorizada por Giddens, praticada por Blair, que hoje parece ter desaparecido). Do lado da direita aconteceu um fenómeno semelhante - o desaparecimento da democracia-cristã e de um certo nacionalismo moderado -, mas em menor escala.
Aconselho, nem que seja por mero interesse académico, a leitura deste pequeno livro. A ignorância é um defeito; mas falar sem conhecer, fingindo que se conhece, é das coisas mais feias que existem. Conhecer a esquerda é o primeiro ponto essencial para a criticar.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
A preço de saldo
Artigo publicado pelo Visão de Mercado a 2 de Janeiro de 2015
Muito se tem falado e comentado sobre os monstruosos negócios conseguidos por Benfica, Porto e Sporting. Especulações sobre as valências e os prejuízos de cada um deles, mas sobretudo a comparação entre eles, numa obsessão patética para ver qual é o melhor negócio, e a partir daí proferir a sentença de qual o maior clube em Portugal.
Vamos a números. 400 milhões para o Benfica, 457,5 para o Porto e 446 (ou 515, fazendo a vontade a BdC) para o Sporting. A diferença está na empresa compradora (Nos no caso de Benfica e Sporting, Meo/Altice no caso do Porto), no número de épocas (3 com possibilidade de renegociação para 10 no Benfica, e 10 no Sporting e Porto) e nos direitos concessionados (para os três, direitos televisivos e transmissão e distribuição dos canais dos clubes; no Sporting e no Porto, acresce o patrocínio das camisolas e a publicidade estática). Mais informação pode ser analisada no quadro feito pelo Público e abaixo apresentado.

O propósito deste texto não é decidir qual o negócio mais lucrativo (como adepto de um dos clubes, acabarei sempre por me inclinar para o mais verdinho dos três contratos). Nem tão pouco o de analisar, ponto a ponto, cada um dos negócios, que deixam muito por explicar, propiciando as especulações pouco objetivas, muitas vezes ficciosas, que por aí se fazem ouvir. O propósito deste texto é outro: o de analisar a questão que, na minha opinião, é aqui o foco basilar de todos os problemas. Os contratos foram festejados efusivamente por todos os adeptos dos três grandes clubes - e não é difícil, dado o volume de milhões de euros em cima da mesa, perceber porquê. Mas resta saber: que efeitos, positivos ou negativos, é que este acontecimento tem para o desporto-rei? 1304 milhões não são pouca coisa; tanto dinheiro em jogo dava para criar milhares e milhares de empregos; percebe-se, enfim, a dimensão e a amplitude de consequências que esse valor pode ter. Primeira ideia a reter: a monstruosidade do valor dos negócios.
Diga-se de passagem que a Nos celebrou, pouco depois, contratos com a Académica, o Belenenses, o Nacional, o Marítimo, o Arouca, o Braga e o Setúbal. Os valores não foram revelados; mas basta ver o treinador do Nacional a lamentar a situação e a criticar os negócios realizados para se perceber que a diferença real entre estes contratos tardios e aqueles que os antecederam é, provavelmente, astronómica. Portanto, segunda ideia a reter: a desigualdade entre os três grandes e os restantes clubes (ou a sobrevivência dos grandes à custa do enfraquecimento dos restantes).
Há que perceber a dimensão do nosso país para a discussão que se segue. Comparando com o que vai lá fora, na Inglaterra ficaram conhecidos os negócios celebrados no início de 2015, cujo total ascendeu a 7000 milhões de euros (por três temporadas); na Alemanha, por quatro anos, os contratos valiam 2500 milhões de euros (o dobro do valor recebido pelos três grandes portugueses); em Espanha, Real Madrid e Barcelona recebem 140 milhões por época; e em Itália, o valor médio dos grandes clubes anda à volta dos 80 milhões anuais. De todos, o modelo inglês foi o mais elogiado - não pelos valores em si, que levantaram uma onda de críticas e queixas à UEFA (por irem contra o fair-play financeiro), mas pela igualdade de princípio subjacente aos acordos. O Mais Futebol fez o exercício: em 2014, o Liverpool recebeu 130 milhões, o Cardiff, despromovido, recebeu 80 milhões (apenas 1,6 vezes menos do que os reds). Equilíbrio. Terceira ideia a reter: os modelos mais funcionais são os que não esmagam os pequenos para enaltecimento dos grandes, coisa própria de um ultraliberalismo sem visão nenhuma.
Num país com 10 milhões de habitantes e 14 milhões de benfiquistas (pequena provocação), os valores conseguidos pelos três grandes são, há que admitir, muito benéficos. Mas a situação em que ficam os clubes pequenos é miserável. A imagem que isso dá do nosso campeonato é péssima: os pequenos são os "pobrezinhos", e estes negócios são a consagração da impossibilidade prática de haver um campeão que não seja Porto, Benfica ou Sporting. É a redução do futebol nacional a três cores. Tudo se resume a ver qual dos três vai conseguir o primeiro lugar em cada ano. Os outros, bem podem lutar por um lugar na Europa, agarrando-se às migalhas que a Liga não lhes fornece, mas no fundo, no fundo, são estrangeiros num campeonato que não é para eles, mas para os grandes. Quarta ideia a reter: a miséria dos pequenos.
O modelo que era seguido, antes de 2015, pela nossa Liga era o da centralização dos direitos de TV. A Liga de Clubes, agora dirigida por Pedro Proença, assumir-se-ia como 'pivot' na gestão destes negócios. Os grandes precipitaram o falhanço do plano de Proença, e puseram em destaque a inoperância da Liga, reduzida a um mero papel de espectador nas jogadas que se adivinhavam. Questionado sobre o assunto, Bruno de Carvalho disse que o Presidente da Liga "errou e muito", e acrescentou:
O ponto essencial é este: escondida por detrás dos números redondos e do proveito lucrativo a curto prazo para os três maiores clubes em Portugal, está a triste realidade que é a pobreza do nosso futebol, o caos que é a nossa Liga e a evidente desigualdade que impera neste momento no nosso país.

Que fazer, então? Ao abrigo da autonomia privada e do respeito pela liberdade de cada um, nenhuma entidade, seja o Governo, seja a Liga, sejam os tribunais, pode agora desfazer o mal já feito. Estes negócios são formalmente válidos e vinculam, quer as partes que contrataram, quer os terceiros que têm simplesmente de respeitar os acordos. Agora também não há volta a dar no plano de centralização, porque só sete clubes, creio, é que ainda não celebraram nenhum negócio. Portanto, para ser simples, as coisas estão complicadas.
O que deve ser feito, no espaço reduzido de atuação, passa por uma reforma aprofundada do modo de funcionamento da Liga de Clubes. Em primeiro lugar, o Presidente não pode continuar a ser eleito pelos clubes, modelo que, ficou provado, não funciona - a eleição de Proença, por exemplo, resultou no aparecimento de dois blocos de sinal contrário, um com FC Porto e Sporting, o outro com o Benfica, o que dificulta desde logo a tomada de decisões. Como organização com interesse público que é, o Presidente deveria ser escolhido por uma comissão independente - um conselho de administração, com algumas personalidades escolhidas pelos clubes e outras cooptadas pelos seus pares, é uma boa ideia. Em segundo lugar, a Liga deve, de uma vez por todas, autonomizar-se, reforçar-se, para deixar de ser um simples lacaio dos clubes - nomeadamente dos três grandes. Os direitos televisivos são apenas uma das áreas de intervenção onde o papel da Liga é hoje quase nulo, quando teoricamente seria essa a organização reguladora, assegurando a transparência financeira e o equilíbrio fundamental entre os grandes e os pequenos. Em terceiro lugar, parece-me cada vez mais óbvia a necessidade de regulação mais apertada dos grandes clubes, hoje em dia completamente intocáveis pelo Estado. Regulação que não se limite a exigir declarações à CMVM, mas que promova a igualdade e não a disparidade, o espetáculo e não o negócio, o conjunto e não as partes separadas, a instituição Liga e não os blocos de compadrios, enfim, o futebol como desporto e não como fonte de rendimento. Numa palavra, equilíbrio. À inglesa.
Os três negócios marcam uma importante mudança no futebol nacional, quase à altura do surgimento das sociedades anónimas desportivas, no final dos anos 90. Mas, ao contrário daquela, cujos efeitos positivos e negativos se anulam, esta nova mudança só irá trazer efeitos nefastos. É tempo de equilibrar o futebol. Não se podem ceder todos os valores basilares em prol da busca incessante do lucro. Uma tão grande desigualdade, além de eticamente reprovável, é também negativa, a longo prazo, para o espetáculo, emocionante e imprevisível, que é, ou que devia ser, o futebol.

Fontes:
http://www.ligaportugal.pt/menu-principal/a-liga/a-liga-hoje/
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/sporting_e_benfica_apontam_o_dedo_a_pedro_proenca_pele_morte_da_centralizacao_de_direitos_de_tv.html
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/os_contratos_dos_clubes_com_as_operadoras_estao_assinados_e_agora.html
http://www.maisfutebol.iol.pt/direitos-tv/internacional/o-bolo-da-premier-bate-recordes-e-assusta-a-concorrencia
Muito se tem falado e comentado sobre os monstruosos negócios conseguidos por Benfica, Porto e Sporting. Especulações sobre as valências e os prejuízos de cada um deles, mas sobretudo a comparação entre eles, numa obsessão patética para ver qual é o melhor negócio, e a partir daí proferir a sentença de qual o maior clube em Portugal.
Vamos a números. 400 milhões para o Benfica, 457,5 para o Porto e 446 (ou 515, fazendo a vontade a BdC) para o Sporting. A diferença está na empresa compradora (Nos no caso de Benfica e Sporting, Meo/Altice no caso do Porto), no número de épocas (3 com possibilidade de renegociação para 10 no Benfica, e 10 no Sporting e Porto) e nos direitos concessionados (para os três, direitos televisivos e transmissão e distribuição dos canais dos clubes; no Sporting e no Porto, acresce o patrocínio das camisolas e a publicidade estática). Mais informação pode ser analisada no quadro feito pelo Público e abaixo apresentado.

O propósito deste texto não é decidir qual o negócio mais lucrativo (como adepto de um dos clubes, acabarei sempre por me inclinar para o mais verdinho dos três contratos). Nem tão pouco o de analisar, ponto a ponto, cada um dos negócios, que deixam muito por explicar, propiciando as especulações pouco objetivas, muitas vezes ficciosas, que por aí se fazem ouvir. O propósito deste texto é outro: o de analisar a questão que, na minha opinião, é aqui o foco basilar de todos os problemas. Os contratos foram festejados efusivamente por todos os adeptos dos três grandes clubes - e não é difícil, dado o volume de milhões de euros em cima da mesa, perceber porquê. Mas resta saber: que efeitos, positivos ou negativos, é que este acontecimento tem para o desporto-rei? 1304 milhões não são pouca coisa; tanto dinheiro em jogo dava para criar milhares e milhares de empregos; percebe-se, enfim, a dimensão e a amplitude de consequências que esse valor pode ter. Primeira ideia a reter: a monstruosidade do valor dos negócios.
Diga-se de passagem que a Nos celebrou, pouco depois, contratos com a Académica, o Belenenses, o Nacional, o Marítimo, o Arouca, o Braga e o Setúbal. Os valores não foram revelados; mas basta ver o treinador do Nacional a lamentar a situação e a criticar os negócios realizados para se perceber que a diferença real entre estes contratos tardios e aqueles que os antecederam é, provavelmente, astronómica. Portanto, segunda ideia a reter: a desigualdade entre os três grandes e os restantes clubes (ou a sobrevivência dos grandes à custa do enfraquecimento dos restantes).
Há que perceber a dimensão do nosso país para a discussão que se segue. Comparando com o que vai lá fora, na Inglaterra ficaram conhecidos os negócios celebrados no início de 2015, cujo total ascendeu a 7000 milhões de euros (por três temporadas); na Alemanha, por quatro anos, os contratos valiam 2500 milhões de euros (o dobro do valor recebido pelos três grandes portugueses); em Espanha, Real Madrid e Barcelona recebem 140 milhões por época; e em Itália, o valor médio dos grandes clubes anda à volta dos 80 milhões anuais. De todos, o modelo inglês foi o mais elogiado - não pelos valores em si, que levantaram uma onda de críticas e queixas à UEFA (por irem contra o fair-play financeiro), mas pela igualdade de princípio subjacente aos acordos. O Mais Futebol fez o exercício: em 2014, o Liverpool recebeu 130 milhões, o Cardiff, despromovido, recebeu 80 milhões (apenas 1,6 vezes menos do que os reds). Equilíbrio. Terceira ideia a reter: os modelos mais funcionais são os que não esmagam os pequenos para enaltecimento dos grandes, coisa própria de um ultraliberalismo sem visão nenhuma.
Num país com 10 milhões de habitantes e 14 milhões de benfiquistas (pequena provocação), os valores conseguidos pelos três grandes são, há que admitir, muito benéficos. Mas a situação em que ficam os clubes pequenos é miserável. A imagem que isso dá do nosso campeonato é péssima: os pequenos são os "pobrezinhos", e estes negócios são a consagração da impossibilidade prática de haver um campeão que não seja Porto, Benfica ou Sporting. É a redução do futebol nacional a três cores. Tudo se resume a ver qual dos três vai conseguir o primeiro lugar em cada ano. Os outros, bem podem lutar por um lugar na Europa, agarrando-se às migalhas que a Liga não lhes fornece, mas no fundo, no fundo, são estrangeiros num campeonato que não é para eles, mas para os grandes. Quarta ideia a reter: a miséria dos pequenos.
O modelo que era seguido, antes de 2015, pela nossa Liga era o da centralização dos direitos de TV. A Liga de Clubes, agora dirigida por Pedro Proença, assumir-se-ia como 'pivot' na gestão destes negócios. Os grandes precipitaram o falhanço do plano de Proença, e puseram em destaque a inoperância da Liga, reduzida a um mero papel de espectador nas jogadas que se adivinhavam. Questionado sobre o assunto, Bruno de Carvalho disse que o Presidente da Liga "errou e muito", e acrescentou:
O Sporting era a favor da centralização, ponto. Mas a partir do momento em que um dos clubes [Benfica], que faz parte da presidência da Liga e que assina um 'business plan' em que estava escrita a centralização, depois avança para o outro lado e fura o acordo... o Sporting tinha de ir para o mercado.Luís Filipe Vieira, por seu lado, disse que Proença devia era demitir-se. Neste jogo de culpas e contraculpas, de puxar o tapete a um e elogiar o outro, percebeu-se que havia tudo menos uma visão estratégica e um sentido de negócio na Liga e na relação entre os nossos clubes. Proença errou, ponto final. Mas os clubes também não ajudaram. Quinta ideia: a incompetência de Proença, a nulidade que é a Liga e o egoísmo comprometedor das entidades desportivas nacionais.
O ponto essencial é este: escondida por detrás dos números redondos e do proveito lucrativo a curto prazo para os três maiores clubes em Portugal, está a triste realidade que é a pobreza do nosso futebol, o caos que é a nossa Liga e a evidente desigualdade que impera neste momento no nosso país.

Que fazer, então? Ao abrigo da autonomia privada e do respeito pela liberdade de cada um, nenhuma entidade, seja o Governo, seja a Liga, sejam os tribunais, pode agora desfazer o mal já feito. Estes negócios são formalmente válidos e vinculam, quer as partes que contrataram, quer os terceiros que têm simplesmente de respeitar os acordos. Agora também não há volta a dar no plano de centralização, porque só sete clubes, creio, é que ainda não celebraram nenhum negócio. Portanto, para ser simples, as coisas estão complicadas.
O que deve ser feito, no espaço reduzido de atuação, passa por uma reforma aprofundada do modo de funcionamento da Liga de Clubes. Em primeiro lugar, o Presidente não pode continuar a ser eleito pelos clubes, modelo que, ficou provado, não funciona - a eleição de Proença, por exemplo, resultou no aparecimento de dois blocos de sinal contrário, um com FC Porto e Sporting, o outro com o Benfica, o que dificulta desde logo a tomada de decisões. Como organização com interesse público que é, o Presidente deveria ser escolhido por uma comissão independente - um conselho de administração, com algumas personalidades escolhidas pelos clubes e outras cooptadas pelos seus pares, é uma boa ideia. Em segundo lugar, a Liga deve, de uma vez por todas, autonomizar-se, reforçar-se, para deixar de ser um simples lacaio dos clubes - nomeadamente dos três grandes. Os direitos televisivos são apenas uma das áreas de intervenção onde o papel da Liga é hoje quase nulo, quando teoricamente seria essa a organização reguladora, assegurando a transparência financeira e o equilíbrio fundamental entre os grandes e os pequenos. Em terceiro lugar, parece-me cada vez mais óbvia a necessidade de regulação mais apertada dos grandes clubes, hoje em dia completamente intocáveis pelo Estado. Regulação que não se limite a exigir declarações à CMVM, mas que promova a igualdade e não a disparidade, o espetáculo e não o negócio, o conjunto e não as partes separadas, a instituição Liga e não os blocos de compadrios, enfim, o futebol como desporto e não como fonte de rendimento. Numa palavra, equilíbrio. À inglesa.
Os três negócios marcam uma importante mudança no futebol nacional, quase à altura do surgimento das sociedades anónimas desportivas, no final dos anos 90. Mas, ao contrário daquela, cujos efeitos positivos e negativos se anulam, esta nova mudança só irá trazer efeitos nefastos. É tempo de equilibrar o futebol. Não se podem ceder todos os valores basilares em prol da busca incessante do lucro. Uma tão grande desigualdade, além de eticamente reprovável, é também negativa, a longo prazo, para o espetáculo, emocionante e imprevisível, que é, ou que devia ser, o futebol.

Fontes:
http://www.ligaportugal.pt/menu-principal/a-liga/a-liga-hoje/
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/sporting_e_benfica_apontam_o_dedo_a_pedro_proenca_pele_morte_da_centralizacao_de_direitos_de_tv.html
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/os_contratos_dos_clubes_com_as_operadoras_estao_assinados_e_agora.html
http://www.maisfutebol.iol.pt/direitos-tv/internacional/o-bolo-da-premier-bate-recordes-e-assusta-a-concorrencia
良いお年を (ou Feliz Ano Novo)
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.
A paz sem vencedor e sem vencidos.
Sophia de Mello Breyner Andersen
Sempre tive um certo fascínio pelo Natal - em grande parte devido à tendência festeira da minha numerosa família. Esse encantamento nunca se estendeu ao dia 31 de Dezembro - para mim, um dia igual a todos os outros. Em Portugal, gostamos de festejar efusivamente tudo; mas a falta de raízes históricas na celebração do Ano Novo diminui a importância deste evento. Para mim, basta passar com amigos, agradecer pela boa vida que levamos, recordar as pessoas importantes na minha vida, e brindar à amizade e a tempos melhores.
Noutros países não é assim - e, se repararmos bem, são aqueles países cuja história foge ao cristianismo e, por conseguinte, ao Natal. Pus-me a ver, na Wikipedia, como se celebra o novo ano em partes remotas do mundo, e desde logo fiquei preso a uma: a Ōmisoka, festa do ano novo no Japão. Em terras de budismo, a coisa tem uma carga simbólica tal que é impossível não captar o nosso interesse.
No Japão não há passas nem champanhe. Nas cidades, os hábitos não divergem muito dos que aqui se vivem. Mas no campo é totalmente diferente - e muito se deve à ainda forte (e muito positiva) influência exercida pelo budismo. Num mundo em que os templos parecem já só existir nos filmes, ali as pessoas visitam o santuário, rezam a milhares de divindades do credo de Buda, e em vez das passas, encontram no silêncio milagroso dos deuses a cura para as agonias e sofrimentos do dia-a-dia.
À meia-noite, são muitos os que ainda estão no templo. Os monges preparam uma bebida feita a partir do arroz, o amazake, cujo processo de feitura é realmente muito interessante (contém bolor - koji - que, misturado com o arroz, transforma os hidrocarbonetos em enzimas que dão um trato mais doce a uma substância que de doce não tem nada). Preparam chávenas, e todos juntos bebem, numa comunhão invulgar, entre os austeros monges e os fiéis seus seguidores.
Faz parte da véspera do ano novo manter a casa limpa, de modo a receber de forma digna Toshigomi, o deus do novo ano. Partem para o templo, e todos os mosteiros sinalizam a passagem do ano com 108 badaladas: uma por cada bonno, que são no fundo todas as emoções destrutivas que escurecem a mente do homem. Ou seja, sem haver fogo de artifício, os japoneses celebram a festa lembrando, com humildade e simplicidade, o pior que acontece na nossa vida, os episódios em que nos mostramos egoístas para com os outros, ou ignorantes por preguiça, ou simplesmente indiferentes no que ao mundo toca.
O budismo tem destas coisas - a mim deu-me ensinamentos valiosos, há coisa de uns três anos, ainda que nunca tenha meditado à boa moda budista, com yoga e tudo isso. E é curioso, a título de paradoxo: o Japão, que cria e tem tudo aquilo que o homem possa sonhar, permanece ligado ao budismo que, no seu núcleo, tem a humildade de reconhecer o sofrimento como parte integral e essencial à vida humana. Nós, que temos pouco e nos arrogamos de senhores do mundo, deixamos muitas vezes que o egoísmo tome conta de nós, sob a forma de uma alegria ébria e consumista que nada de bom traz. Falta humildade, e falta sofrimento - sofrimento na forma de não ser indiferente, de prestar atenção ao outro, de preocupação pelos problemas que subsistem no mundo e à nossa volta.
O ano novo não tem, como disse, muita relevância para alguém que, como eu, não presta grande importância à simbologia dos dias, antes seguindo Alberto Caeiro e olhando para o tempo como o inevitável e contínuo percurso que é - e não como as fatias que nós artificialmente criamos, dando nome a tudo, regendo-nos pelas horas e pelos minutos e pelos segundos e microssegundos numa infantil e tempestuosa correria pela vida cujos benefícios de solidez e segurança muitas vezes não chegam para os prejuízos de cansaço e confusão. "E porque só existe a realidade, o tempo é a ausência de tempo". O novo ano é mais um dia, e vale a pena não nos esquecermos disso.
Recentemente, contudo, tem vindo a aumentar a minha atenção por este marco, e por uma razão simples: converteu-se, com Paulo VI, no Dia Mundial da Paz. E aí ganhou uma conotação simbólica muito mais importante. Adquiriu até, na minha opinião, uma certa semelhança com a Ōmisoka nipónica. Todos os anos, os supremos líderes do catolicismo publicam uma mensagem, dirigida à busca da paz.
Hoje fui à missa - e vale a pena ir, pelo menos neste dia, seja-se crente ou não, apenas para lembrar os mais desfavorecidos, as vítimas de um Assad, Baghdadi, Maduro, Putin ou outro qualquer. O Papa, este ano, deu-nos uma missão que lembra as 108 badaladas no Japão. A mensagem (que pode ser lida aqui) tem um conteúdo genérico tão bonito quanto complexo: "Vence a indiferença e conquista a paz". Os japoneses diziam que a indiferença, além da ignorância e do egoísmo, é a origem de todos os males que nos atormentam a mente. Atente-se a semelhança!
Quando li coisas do budismo, parece que há tanto tempo foi, memorizei aquele que é, como disse, o núcleo duro da religião, especificamente a parte que diz respeito ao sofrimento. Os budistas têm como credo principal as "Quatro Nobres Verdades": são quatro "leis" muito simples, parecem até patéticas, mas que fazem justiça ao título, de tanta nobreza se revestirem os ensinamentos. A primeira verdade é que existe sofrimento; a segunda é que há uma origem para o sofrimento, a terceira refere o fim para o sofrimento, e a quarta diz-nos o modo de conseguir esse fim. Nós, com as nossas passas e os nossos desejos e o nosso (e)spumante, muitas vezes esquecemos, no meio do fogo de artifício e dos efeitos do álcool, que a realidade não é o conto de fadas de que a nossa vida é feita; a realidade é dura, dura para os que sofrem. Ter a humildade de, como os budistas fazem e como Francisco nos exorta a fazer, reconhecer que há sofrimento e lembrar aqueles que neste mundo sofrem, é dar, aí sim, uma importância ética e prática ao Ano Novo que até agora esta festa parece não ter.
Não são precisas 108 badaladas. Nem é precisa a missa, embora ela ajude. Basta a nossa atenção. Vencer a indiferença. Lembrar os pobres e os marginalizados. Concretizar essa lembrança com gestos na nossa vida diária. Vencer a indiferença. Começar esta difícil, quase teórica, mas possível jornada que é a verdadeira, mais nobre de todas as cruzadas: a conquista da paz.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
O melhor de 2015
Tenho o hábito de ouvir a boa música do ano sempre muito tarde, de tal forma que a maior parte só consigo mesmo ouvir já no ano a seguir. Este ano tentei que fosse a exceção, e até que fui bem sucedido - mesmo à custa de muitas horas de estudo, ouvi todos os sérios candidatos a melhor álbum do ano, aos quais juntei algumas peças minhas. No início do mês fiz logo uma shortlist, de modo a não ser influenciado pelas listas de fim do ano prestes a sair; depois, nas férias, ouvi mais uns quantos discos (Earl Sweatshirt, Tobias Jesso Jr., Julia Holter, Jason Isbell, Alabama Shakes, Rick Ross e Sleater Kinney) e fiz os ajustes necessários.
Foi um ano de altos e baixos. Até à última esperou-se por Adele e Kanye West (e também Frank Ocean); a primeira bateu recordes mas desiludiu, o segundo e o terceiro não apareceram. Houve Kendrick, sinónimo de 11 nomeações para os Grammys. Bom sinal, porque tivemos um artista que se aproximou do génio de Michael Jackson (menos uma nomeação do que o Rei do Pop); mau sinal, porque não houve concorrência. O próprio álbum de Kendrick não foi tão bom como Good Kid M.A.A.D City, de 2012; só que nesse ano havia Frank Ocean, Mumford and Sons, Fun e o fenomenal Take Care de Drake.
De qualquer forma, houve bons acontecimentos. Adele, ainda que desapontando, é sempre boa notícia. No rap, 2015 bateu 2014 à distância: tivemos Dr. Dre, Drake, Future, Future e Drake, Earl Sweatshirt, Fetty Wap, G-Eazy, Mac Miller, Rae Sremmurd, Ty Dolla $ign, Vince Staples e Young Thug - em 2014 tínhamos Run The Jewels e pouco mais (e, por cá, os 5-30, que muita falta fizeram este ano). De resto, este ano parece ter ficado atrás: não houve Alt-J, nem Beyoncé, nem Jhené Aiko, nem War On Drugs.
De todo o modo, depois de muita coisa ter ouvido e anotado, fica aqui o meu melhor dos álbuns de 2015.
10. Father John Misty, I Love You, Honeybear e Tobias Tesso Jr., Goon


Os álbuns mais díspares no género e, no entanto, os dois muito semelhantes no conteúdo - dois cantores-compositores, duas cartas de amor (no primeiro, o título diz tudo; no segundo, basta olhar para a primeira música, "Can't Stop Thinking About You"), duas almas solitárias. A principal razão para os colocar aqui é bastante mais profana: mereciam simplesmente estar no top 10 - quiçá o primeiro um pouco mais que o segundo, mas ainda assim os dois parecem estar ao mesmo nível.
Tobias Tesso Jr. é fascinante porque faz lembrar, em simultâneo, o melhor de Paul McCartney e de John Lennon - não apenas na própria voz, mas na composição de todo o álbum. Por exemplo, se ouvirmos a última música, "Tell The Truth", com o violino no fundo, imaginamos logo McCartney, e aquela guitarra por detrás será do gosto mais ousado de Lennon; a composição parece uma combinação de ambos. Todo o álbum se assemelha aos dois maiores Beatles; mas Tobias Tesso Jr. não é um pop-star, muito pelo contrário: parece perdido, e isso leva-o a implorar um lugar na indústria musical ("Think I'm gonna try in Hollywood", em "Hollywood"). Não era preciso implorar, bastaram-lhe as melodias e uma composição do melhor que há para que Adele o fosse buscar como compositor para o seu novo álbum.
Father John Misty, pseudónimo para Joshua Tillman, é também todo ele um romântico perdido. Mas enquanto Goon é pródigo em amor inocente, o sentimento de I Love You... é tudo menos inocente: o álbum, que é quase todo uma declaração de amor à mulher, começa logo com um bastante elucidativo "You fuck the world damn straight malaise", entre muitos outros trocadilhos e dirty jokes. Mas, à parte esses trocadilhos e o sarcasmo sempre presente, Tillman é surpreendentemente sério, quer nas críticas que faz à sociedade (as músicas "Bored In The USA" e "True Affection"), quer em pequenas confissões, que ocasionalmente lhe escapam, do sentimento que o liga a Emma, a esposa (no final do álbum, o verso "Seen you around, what's your name?"). É talvez a obra, das 10 (ou 11) que encontram aqui, que mais perplexo me deixou: não pela qualidade da música em si, que é indubitável, mas pela sensação que deixa - a mistura de um ultraje de conservador com uma adoração inqualificável. Numa feliz expressão, I Love You, Honeybear é o amor lado a lado com o cinismo - o amor inocente de Joshua Tillman por uma pessoa, o sarcasmo e o cinismo de Father John Misty para com o mundo.
9. Big Sean, Dark Sky Paradise
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Big Sean é daqueles rappers que, não deixando de cantar sobre os temas próprios da vida na Black America, consegue ultrapassar isso e fazer músicas próprias para um grande público. É um pouco como Kanye, seu produtor e mentor, em versão menor. O álbum tem Sean como rapper puro e duro ("I live the life I deserved, blessed, Fuck a vacay I feel better at work", em "Blessings", onde se junta com Drake) e Sean como rapper comercial ("I Don't Fuck With You", um dos hits deste ano), mas mostra outra faceta do cantor, que o aproxima incrivelmente de Kanye: Sean, o neto emocionado. Tal como Kanye se mostrou um pai babado em "Only One", o seu discípulo provou não ficar atrás com a emocionante melodia "One Man Can Change The World", que gira em torno da recente morte da avó, e para a qual chamou John Legend e, claro está, Kanye West. A música é o pico emocional do álbum. Mas todas as canções são dignas de nota: "Dark Sky (Skyscrapers)" é uma bem conseguida adaptação de "Started From The Bottom", de Drake; "All Your Fault" traz novamente Kanye, o que sempre quer dizer alguma coisa; "Paradise" é a consagração de Big Sean como um artista das palavras; e por aí fora. Num ano em que o rap não foi tão mau quanto isso, Big Sean subiu mais alto e deixou-nos Dark Sky Paradise.
8. Dustin Tebbutt, Home EP

Dustin Tebbutt nasceu na Austrália, onde dá uns quantos pequenos concertos, e há coisa de quatro anos decidiu ir para a Noruega escrever música, isolado do mundo. O que dali saiu foi uma espécie de junção de Bon Iver com Ben Howard. Ouvir Tebbutt é refugiarmo-nos na música como ele se refugiou na paisagem escandinava. Aqui não há avant-gardes, ou grandes orquestras, ou qualquer tipo de profundidade intelectual; há uma voz melódica, um coro harmonioso, um acompanhamento instrumental único que formam, no seu conjunto, algumas das melhores melodias deste ano. Em "Silk", com a doce voz de Thelma Plum, um alfaiate serve como metáfora para o difícil caminho a percorrer numa relação de amor ("Tailor don't leave here yet, The silk we're seeking here, Starts as thread"). "Harvest", talvez a obra-prima do álbum, é a música ideal para o desgosto causado pelas atribulações do quotidiano, mostrando que o antídoto para o desespero é sempre a esperança. Num feliz acaso, "Plans" acaba por ser a música perfeita: a letra é toda sobre o silêncio e o efeito devastador das palavras ("Hold when you say those words"), e o melhor da música está no instrumental que se lhe segue - portanto, no silêncio. Dustin Tebbutt é daquelas boas descobertas cuja música nos passa a acompanhar dia e noite, durante todo o ano. Sem ser um músico excecional, é, contudo, aquele músico de quem bem precisamos.
7. Julia Holter, Have You In My Wilderness

Tenho de confessar: não fazia ideia de quem era Julia Holter e só prestei atenção a este álbum, lançado em Setembro, quando a Piccadilly Records (revista que foge ao normal nestas listas de fim de ano) o elegeu para número 1 de 2015. Duas semanas depois, como verdadeira obra de arte que é, Have You In My Wilderness ainda me deixa perdido nas suas letras, nos pequenos pormenores instrumentais. Ouvi músicas que apaguei de início do meu iPod e que, à segunda vez, me pareciam o melhor do disco - como a macabramente alegre e assustadora Sea Calls Me Home. É um pouco isso que define a obra de Julia Holter, e esta mais que todas: uma permanente antítese, quer seja entre sentimentos conflituantes implícitos na letra (amor ou ódio, ingenuidade ou sarcasmo, vida ou morte), ou entre interpretações opostas que a música deixa transparecer. É como ouvir o romantismo nevrálgico, meio doente e patético, mas sempre comovedor, de uns Smiths misturado com o avant-garde de um Lennon - todo o não original sofrimento de um desgosto amoroso ("Tell me, why do I feel you running away?", em "Have You In My Wilderness") contrastante com um lirismo abstrato digno de Kandinsky ("Look in cloud's mirror, When the sea called me home" em "Sea Calls Me Home") e um surrealismo psicótico de Dali ("Can I feel you? Are you mythological?", em "Feel You"). Tudo isto faz deste álbum uma peça difícil de entender, exigente mas delicioso na sua profunda complexidade.
6. Sufjan Stevens, Carrie & Lowell

"Frightened by my feelings, I only wanna be a relief". A frase é só por si intrigante; Sufjan quer ser ele um alívio para os outros, ou quer ser aliviado? Este verso, inserido na música "Should Have Known Better", parece um bom resumo da narrativa depressiva, suicidária e melancólica que é todo o álbum. Carrie é a falecida mãe de Sufjan - morte que ele tenta agora ultrapassar. Lowell é o padrasto. Aquilo que é um tributo a ambos acaba por ser uma reflexão sobre a iminência avassaladora da morte. Na música intitulada "Carrie & Lowell", não há descrições louváveis das memórias da mãe; há referências ao thorazine (medicamento que a mãe, esquizofrénica, tomava), a Érebo (deus da escuridão na Grécia antiga) e ao "lamento de Dido" - alusivo a uma ópera de Henry Purcell com o nome When I am laid in earth. Carrie & Lowell começa como um tributo a um casal, desemboca numa dissertação sobre a morte, para acabar como um testemunho existencialista da realidade, bela de uma forma dura, dura de uma forma bela, da vida. Por exemplo, na canção mais autodestrutiva do álbum, "No Shade in the Shadow of the Cross", que contém devaneios aqui e ali de suicídio ("I'll drive that stake through the center of my heart"), Stevens termina procurando a fé em Jesus Cristo ("There's no shade in the shadow of the cross"). Prova de que, mesmo com as experiências mais dolorosas, há sempre volta a dar - nem que seja apenas com uma guitarra acústica numa mão e umas folhas de papel noutra, como Stevens, e com esta brilhante banda-sonora dos dias difíceis da vida.
5. Tame Impala, Currents

Quando ouvi "Yes I'm Changing" pela primeira vez, parecia estar a viver o Lost in Translation de Sofia Coppola. Havia alguma coisa naquela canção, uma qualquer influência japonesa que eu pressentia, mas que era mais a presença de elementos de música techno, à qual acresciam os ruídos da cidade e do trânsito que a banda propositadamente ali colocava, e que me parecia levar para Tóquio, para uma sociedade desconhecida, o indivíduo perdido na imensidão do mundo, "There is a world out there, it's calling my name", e depois o final, "It's calling yours too", como na parte final da película, o sussurro de Bill Murray ao ouvido de Scarlett Johansson.
Todo o álbum é como que tirado de um filme. O psicadélico que tão fortemente caracteriza os Tame Impala de outros tempos - e que tão fortemente me separa deles - parece ter sido posto de lado ou substancialmente suavizado. Aqui temos sobretudo influências de música eletrónica, saídas do cinema de ficção científica. Temos músicas inteiramente techno - como "Past Life" - e outras que são mais rock do que outra coisa - como a repetitiva mas incrivelmente atraente "The Less I Know The Better". É nas partes mortas, nos pequenos skits de um minuto e meio, que se vê o verdadeiro estilo deste álbum. Apercebemo-nos de que o rock psicadélico continua ali, nos intrigantes pormenores, que afastam este álbum do que poderia ser um simples produto techno dos anos 80 (como os Daft Punk tentaram recriar com o seu RAM em 2013), tornando-o verdadeiramente em algo único e especial. "Let It Happen" é a prima dona dos Tame Impala, uma junção muito particular de rock com eletrónica a que os alemães chamaram de "krautrock" e que nos parece levar diretamente e a alta velocidade para um universo paralelo. O psicadélico, afinal, é isso mesmo, seja com rock da pesada ou com baixos e sintetizadores. E os Tame Impala são, continuam a ser, o psicadélico por excelência.
4. Justin Bieber, Purpose

Sim, tal como todas as pessoas que nasceram antes de 1997, sempre detestei o fenómeno Bieber: primeiro, a música Baby e a histeria dos Beliebers; depois, o adolescente rebelde e pomposo que agredia paparazzis, atirava ovos à casa de vizinhos, conduzia embriagado e aparecia em tribunal com uma arrogância tal que chocaria até o mais convicto dos anarquistas. A revolta contra esse fenómeno atingiu um ponto tal que, há cerca de dois anos, dezenas de milhares de pessoas assinaram uma petição exigindo a expulsão de Bieber do território americano. Em 2015, esse Bieber desapareceu e foi substituído por um verdadeiro artista, oscilando entre o Pop e o R&B, sempre com qualidade. Em Purpose, não há histerismo, não há música barata, não há aquele narcisismo tão comum às estrelas pop com vinte e poucos anos. Há um conjunto de baladas trabalhadas de forma inteligente por um conjunto invejável de produtores, onde se destaca, desde logo, Sonny John Moore, conhecido como Skrillex. Os singles "What Do You Mean" e "Where Are U Now" são a conjugação perfeita de pop, eletrónica, R&B e acústico, e o seu sucesso comercial não dinamita, antes realça, a qualidade da canção. Todo o álbum está repleto de canções de amor; mas também não há aqui, com uma ou outra exceção, aquelas palavras tão ocas e vazias que perdem o sentido. "Love Yourself" é o melhor que uma canção de amor tem para oferecer no reino do R&B. E "No Pressure" junta Big Sean e o melhor hip-hop a um álbum já de si rico em diversidade de estilos. O pop é afinal, um género que existe à custa de outros géneros, que junta o melhor do rock, do indie, do hip-hop e do R&B. E Justin Bieber fá-lo, aqui, com mestria, produzindo um resultado que eu próprio diria ser inalcançável para a grande estrela do teen pop neste nosso século. Felizmente, estava errado.
3. Jamie xx, In Colour

Não é todos os anos que sai um álbum eletrónico que se torna um marco de popularidade ouvido até nos círculos mais mainstream e comerciais. Mas também não é todos os anos que o DJ e produtor da banda indie mais popular dos últimos anos lança um disco a solo. Jamie xx, dos The xx, faz da música eletrónica um repositório de sentimentos felizes. Não temos aquela música pesada que tanto marca o estilo techno dos últimos anos - por causa disso restrito, como o metal ou a música experimental, a um círculo diminuto de apreciadores. Em In Colour não há músicas para se ouvir em discotecas nas sextas-feiras à noite - quando muito em bares no Cais do Sodré, mas não mais do que isso. Esta é música eletrónica subtil, a eletrónica do dia, mais do que da noite, a eletrónica que mostra o lado melhor - mais inocente, também - da cidade. Oiço "Obvs" e penso, não no Urban ou no Lux, mas na Ribeira das Naus ou no Terreiro do Paço. Oiço "Just Saying", apenas de minuto e meio, e vêm-me à cabeça aqueles romances alternativos de amor que por vezes aparecem no cinema. Oiço "Stranger in a Room" (com a voz do vocalista dos xx) e recordo-me, pelas suas semelhanças com a música "Together", do filme Great Gatsby de há dois anos. Claro que há aqui uma presença contínua dos xx - presença vocal ou em espírito. E é isso que torna este álbum em algo completamente único: eletrónica com traços de indie, em forma de tributo ao melhor dos dois géneros. O melhor, contudo, é quando Jamie xx chama o rapper Young Thug e cria a maravilhosa "I Know There's Gonna Be Good Times", que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores canções deste ano. Para os que, como eu, nunca conseguiram apreciar musica eletrónica desde a última vez que ouvi Primal Scream, têm aqui o melhor exemplo de como não é preciso voz quando se tem o génio e a capacidade de um verdadeiro músico como é Jamie xx.
2. Drake, If You're Reading This It's Too Late

Longe de chegar ao nível de Take Care ou Nothing Was The Same (este último, quanto a mim, o seu melhor trabalho), Drake deixou-nos este ano com uma mixtape que é de fazer inveja a qualquer rapper e músico. Pouco depois de sair, em Fevereiro, todas as canções foram parar ao Hot R&B/Hip-Hop Songs da Billboard, coisa nunca antes vista.
E percebe-se. Não é só o talento natural de Aubrey "Drake" Graham para fazer rimas e compor verdadeiros hits de hip-hop. É toda uma equipa de luxo que se reúne, sob a sigla OVO, para produzir o álbum daquele que é hoje, incontornavelmente, o artista mais bem sucedido do rap. Na equipa de produtores temos os clássicos Noah "40" Shebib e Boi1da; mas juntam-se-lhe os rookies PartyNextDoor e Travis Scott (aquele da OVO de Drake, este último da GOOD Music de Kanye, Big Sean e John Legend), estrelas em ascensão que deixam a sua devida marca no percurso do mestre.
Numa altura em que o rap é dominado por hooks repetitivos e vazios de sentido, ou letras tão agressivas que chegam a ridículas, ou sons simplesmente não apreciáveis, Drake é sempre uma perfeita válvula de escape, o artista que chega e vence, aparece e salva o rap. Este ano houve Kendrick Lamar para quem gosta; até é o meu caso - mas no caso de Kendrick em 2015, a profundidade intelectual do pensamento não salva a miséria do acompanhamento instrumental, demasiado preso ao soul, e a agressividade impressiva das letras, pouco amigáveis para um indivíduo de etnia branca que, como eu, as deseje ouvir.
De qualquer forma, houve Drake. Começa com uma assinatura de presença ("If I die, all I know is I'm a motherfucking legend", em "Legend"), passa por um ataque aos fakes rico em filosofia ("Know Yourself" parece saído de Sócrates, o grego), leva-nos a uma party song com o discípulo PartyNextDoor ("Still in Miami, most of these girls are too messy", em "Preach"), seguida logo depois por uma série de slow jams, outra vez com PND em "Wednesday Night Interlude", com Travis Scott em "Company", e sozinho em outros grandes sons como "Now & Forever", "You & The 6" e "Jungle". São estas, pelo menos, as músicas que mais me acompanharam ao longo do ano. Mas não são de desprezar as restantes. Num álbum que, como já disse, deixa muito a desejar em relação aos seus dois imediatos predecessores, Drake ainda assim conseguiu trazer-nos o melhor do rap em 2015 - e, em 2015, isso não é pouca coisa.
1. The Weeknd, Beauty Behind the Madness

Descobri The Weeknd com quatro anos de atraso. Em 2011, o agora dito sucessor de Michael Jackson (sobretudo pelo single "Can't Feel My Face") editou três misturas que lhe valeram o título de um dos mais promissores artistas do mundo. Eu só tinha ouvido uma música dele, inserida no Take Care de Drake, intitulada "Crew Love", uma música fantástica, mas cujo autor eu ignorei. Este ano, o filme 50 Shades of Grey teve na banda-sonora aquela música espetacular e inqualificável que é o Earned It, e lá fui eu procurá-lo. Balanço final: descoberta musical do ano, um ano a ouvir The Weeknd, e em Setembro sai novo álbum, quando eu ainda não tinha sequer esgotado as suas músicas antigas. Um ano em cheio.
The Weeknd, de nome Abel Tesfaye, é o pródigo artista que se define, nas palavras do próprio, como "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill" (em "Tell Your Friends"). Mulheres, sexo e drogas. A fama adquirida, primeiro, com "Earned It" e, logo a seguir, com os singles "Can't Feel My Face" e ainda "The Hills", não tornou Tesfaye num cantor pop, como se esperaria de quem pretende ser como o Rei. Pelo contrário, o velho Tesfaye ainda está lá, em músicas como "Tell Your Friends" (sexo e drogas), "Often" (sexo), "Acquainted" (mulheres) e o muito bem sucedido "The Hills" (sexo). Os velhos temas são conjugados com outros mais próprios de uma estrela pop: existe pela primeira vez uma história de amor ("Angel", além do já referido "Earned It"), e pela primeira vez vemos Tesfaye falar dos seus próprios erros, da sua vida pessoal, da sua relação com a mãe, na épica introdução "Real Life". Os ilustres convidados - Lana del Rey em "Prisoner" e Ed Sheeran em "Dark Times" - introduzem pormenores interessantes, mas quase passam despercebidos na globalidade do álbum. Claro está, o destaque continua a pertencer à música que fez de The Weeknd a nova grande estrela do pop - "Can't Feel My Face", sucessora de "Thriller" e de Michael Jackson.
Sucessor de MJ ou não, The Weeknd ocupou, desde o início, um espaço vazio. É hoje, com Frank Ocean, o expoente máximo do chamado "PBR&B": o R&B hipster ou indie que cada vez mais se tem vindo a afirmar como um estilo autónomo na indústria da música. Mas enquanto Frank Ocean é o "irmão bom", com uma forte, ainda que involuntária, intervenção política e cívica (nomeadamente pela sua homossexualidade), The Weeknd é o símbolo de uma geração desencantada com as perspetivas da vida na sociedade, refugiada no consolo efémero do álcool, das drogas, do sexo e da vida noturna, e fechada, não no narcisismo dos rappers, mas no niilismo próprio dos poetas românticos e existencialistas dos séculos XIX e XX. The Weeknd é, no fundo, um poeta à moda destas novas gerações; e assim ainda mais fica provada aquela frase de que a noite é dos poetas - noite das drogas, do álcool, do sexo e das festas de Abel Tesfaye.
É no dueto com Lana del Rey que The Weeknd confessa as mudanças recentes operadas na sua vida. Hollywood trouxe-lhe uma nova vida. Mas o que o move ainda é o mesmo: "I'm a prisoner to my addiction" - aqueles vícios que já o controlavam e que o trouxeram à ribalta em 2011. Não sabemos durante quanto tempo - até porque os vícios não são toleráveis para sempre. Por agora, congratulemo-nos com a fantástica música que nos proporciona. Celebremos o facto de ainda não ter cedido à inércia do estrelato. Porque The Weeknd ainda é o mesmo. No fundo, ainda é "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill". Em 2015, no meio das drogas e dos comprimidos, isso bastou para nos deixar com o melhor álbum do ano.
Foi um ano de altos e baixos. Até à última esperou-se por Adele e Kanye West (e também Frank Ocean); a primeira bateu recordes mas desiludiu, o segundo e o terceiro não apareceram. Houve Kendrick, sinónimo de 11 nomeações para os Grammys. Bom sinal, porque tivemos um artista que se aproximou do génio de Michael Jackson (menos uma nomeação do que o Rei do Pop); mau sinal, porque não houve concorrência. O próprio álbum de Kendrick não foi tão bom como Good Kid M.A.A.D City, de 2012; só que nesse ano havia Frank Ocean, Mumford and Sons, Fun e o fenomenal Take Care de Drake.
De qualquer forma, houve bons acontecimentos. Adele, ainda que desapontando, é sempre boa notícia. No rap, 2015 bateu 2014 à distância: tivemos Dr. Dre, Drake, Future, Future e Drake, Earl Sweatshirt, Fetty Wap, G-Eazy, Mac Miller, Rae Sremmurd, Ty Dolla $ign, Vince Staples e Young Thug - em 2014 tínhamos Run The Jewels e pouco mais (e, por cá, os 5-30, que muita falta fizeram este ano). De resto, este ano parece ter ficado atrás: não houve Alt-J, nem Beyoncé, nem Jhené Aiko, nem War On Drugs.
De todo o modo, depois de muita coisa ter ouvido e anotado, fica aqui o meu melhor dos álbuns de 2015.
10. Father John Misty, I Love You, Honeybear e Tobias Tesso Jr., Goon


Os álbuns mais díspares no género e, no entanto, os dois muito semelhantes no conteúdo - dois cantores-compositores, duas cartas de amor (no primeiro, o título diz tudo; no segundo, basta olhar para a primeira música, "Can't Stop Thinking About You"), duas almas solitárias. A principal razão para os colocar aqui é bastante mais profana: mereciam simplesmente estar no top 10 - quiçá o primeiro um pouco mais que o segundo, mas ainda assim os dois parecem estar ao mesmo nível.
Tobias Tesso Jr. é fascinante porque faz lembrar, em simultâneo, o melhor de Paul McCartney e de John Lennon - não apenas na própria voz, mas na composição de todo o álbum. Por exemplo, se ouvirmos a última música, "Tell The Truth", com o violino no fundo, imaginamos logo McCartney, e aquela guitarra por detrás será do gosto mais ousado de Lennon; a composição parece uma combinação de ambos. Todo o álbum se assemelha aos dois maiores Beatles; mas Tobias Tesso Jr. não é um pop-star, muito pelo contrário: parece perdido, e isso leva-o a implorar um lugar na indústria musical ("Think I'm gonna try in Hollywood", em "Hollywood"). Não era preciso implorar, bastaram-lhe as melodias e uma composição do melhor que há para que Adele o fosse buscar como compositor para o seu novo álbum.
Father John Misty, pseudónimo para Joshua Tillman, é também todo ele um romântico perdido. Mas enquanto Goon é pródigo em amor inocente, o sentimento de I Love You... é tudo menos inocente: o álbum, que é quase todo uma declaração de amor à mulher, começa logo com um bastante elucidativo "You fuck the world damn straight malaise", entre muitos outros trocadilhos e dirty jokes. Mas, à parte esses trocadilhos e o sarcasmo sempre presente, Tillman é surpreendentemente sério, quer nas críticas que faz à sociedade (as músicas "Bored In The USA" e "True Affection"), quer em pequenas confissões, que ocasionalmente lhe escapam, do sentimento que o liga a Emma, a esposa (no final do álbum, o verso "Seen you around, what's your name?"). É talvez a obra, das 10 (ou 11) que encontram aqui, que mais perplexo me deixou: não pela qualidade da música em si, que é indubitável, mas pela sensação que deixa - a mistura de um ultraje de conservador com uma adoração inqualificável. Numa feliz expressão, I Love You, Honeybear é o amor lado a lado com o cinismo - o amor inocente de Joshua Tillman por uma pessoa, o sarcasmo e o cinismo de Father John Misty para com o mundo.
9. Big Sean, Dark Sky Paradise
.png)
Big Sean é daqueles rappers que, não deixando de cantar sobre os temas próprios da vida na Black America, consegue ultrapassar isso e fazer músicas próprias para um grande público. É um pouco como Kanye, seu produtor e mentor, em versão menor. O álbum tem Sean como rapper puro e duro ("I live the life I deserved, blessed, Fuck a vacay I feel better at work", em "Blessings", onde se junta com Drake) e Sean como rapper comercial ("I Don't Fuck With You", um dos hits deste ano), mas mostra outra faceta do cantor, que o aproxima incrivelmente de Kanye: Sean, o neto emocionado. Tal como Kanye se mostrou um pai babado em "Only One", o seu discípulo provou não ficar atrás com a emocionante melodia "One Man Can Change The World", que gira em torno da recente morte da avó, e para a qual chamou John Legend e, claro está, Kanye West. A música é o pico emocional do álbum. Mas todas as canções são dignas de nota: "Dark Sky (Skyscrapers)" é uma bem conseguida adaptação de "Started From The Bottom", de Drake; "All Your Fault" traz novamente Kanye, o que sempre quer dizer alguma coisa; "Paradise" é a consagração de Big Sean como um artista das palavras; e por aí fora. Num ano em que o rap não foi tão mau quanto isso, Big Sean subiu mais alto e deixou-nos Dark Sky Paradise.
8. Dustin Tebbutt, Home EP

Dustin Tebbutt nasceu na Austrália, onde dá uns quantos pequenos concertos, e há coisa de quatro anos decidiu ir para a Noruega escrever música, isolado do mundo. O que dali saiu foi uma espécie de junção de Bon Iver com Ben Howard. Ouvir Tebbutt é refugiarmo-nos na música como ele se refugiou na paisagem escandinava. Aqui não há avant-gardes, ou grandes orquestras, ou qualquer tipo de profundidade intelectual; há uma voz melódica, um coro harmonioso, um acompanhamento instrumental único que formam, no seu conjunto, algumas das melhores melodias deste ano. Em "Silk", com a doce voz de Thelma Plum, um alfaiate serve como metáfora para o difícil caminho a percorrer numa relação de amor ("Tailor don't leave here yet, The silk we're seeking here, Starts as thread"). "Harvest", talvez a obra-prima do álbum, é a música ideal para o desgosto causado pelas atribulações do quotidiano, mostrando que o antídoto para o desespero é sempre a esperança. Num feliz acaso, "Plans" acaba por ser a música perfeita: a letra é toda sobre o silêncio e o efeito devastador das palavras ("Hold when you say those words"), e o melhor da música está no instrumental que se lhe segue - portanto, no silêncio. Dustin Tebbutt é daquelas boas descobertas cuja música nos passa a acompanhar dia e noite, durante todo o ano. Sem ser um músico excecional, é, contudo, aquele músico de quem bem precisamos.
7. Julia Holter, Have You In My Wilderness

Tenho de confessar: não fazia ideia de quem era Julia Holter e só prestei atenção a este álbum, lançado em Setembro, quando a Piccadilly Records (revista que foge ao normal nestas listas de fim de ano) o elegeu para número 1 de 2015. Duas semanas depois, como verdadeira obra de arte que é, Have You In My Wilderness ainda me deixa perdido nas suas letras, nos pequenos pormenores instrumentais. Ouvi músicas que apaguei de início do meu iPod e que, à segunda vez, me pareciam o melhor do disco - como a macabramente alegre e assustadora Sea Calls Me Home. É um pouco isso que define a obra de Julia Holter, e esta mais que todas: uma permanente antítese, quer seja entre sentimentos conflituantes implícitos na letra (amor ou ódio, ingenuidade ou sarcasmo, vida ou morte), ou entre interpretações opostas que a música deixa transparecer. É como ouvir o romantismo nevrálgico, meio doente e patético, mas sempre comovedor, de uns Smiths misturado com o avant-garde de um Lennon - todo o não original sofrimento de um desgosto amoroso ("Tell me, why do I feel you running away?", em "Have You In My Wilderness") contrastante com um lirismo abstrato digno de Kandinsky ("Look in cloud's mirror, When the sea called me home" em "Sea Calls Me Home") e um surrealismo psicótico de Dali ("Can I feel you? Are you mythological?", em "Feel You"). Tudo isto faz deste álbum uma peça difícil de entender, exigente mas delicioso na sua profunda complexidade.
6. Sufjan Stevens, Carrie & Lowell

"Frightened by my feelings, I only wanna be a relief". A frase é só por si intrigante; Sufjan quer ser ele um alívio para os outros, ou quer ser aliviado? Este verso, inserido na música "Should Have Known Better", parece um bom resumo da narrativa depressiva, suicidária e melancólica que é todo o álbum. Carrie é a falecida mãe de Sufjan - morte que ele tenta agora ultrapassar. Lowell é o padrasto. Aquilo que é um tributo a ambos acaba por ser uma reflexão sobre a iminência avassaladora da morte. Na música intitulada "Carrie & Lowell", não há descrições louváveis das memórias da mãe; há referências ao thorazine (medicamento que a mãe, esquizofrénica, tomava), a Érebo (deus da escuridão na Grécia antiga) e ao "lamento de Dido" - alusivo a uma ópera de Henry Purcell com o nome When I am laid in earth. Carrie & Lowell começa como um tributo a um casal, desemboca numa dissertação sobre a morte, para acabar como um testemunho existencialista da realidade, bela de uma forma dura, dura de uma forma bela, da vida. Por exemplo, na canção mais autodestrutiva do álbum, "No Shade in the Shadow of the Cross", que contém devaneios aqui e ali de suicídio ("I'll drive that stake through the center of my heart"), Stevens termina procurando a fé em Jesus Cristo ("There's no shade in the shadow of the cross"). Prova de que, mesmo com as experiências mais dolorosas, há sempre volta a dar - nem que seja apenas com uma guitarra acústica numa mão e umas folhas de papel noutra, como Stevens, e com esta brilhante banda-sonora dos dias difíceis da vida.
5. Tame Impala, Currents

Quando ouvi "Yes I'm Changing" pela primeira vez, parecia estar a viver o Lost in Translation de Sofia Coppola. Havia alguma coisa naquela canção, uma qualquer influência japonesa que eu pressentia, mas que era mais a presença de elementos de música techno, à qual acresciam os ruídos da cidade e do trânsito que a banda propositadamente ali colocava, e que me parecia levar para Tóquio, para uma sociedade desconhecida, o indivíduo perdido na imensidão do mundo, "There is a world out there, it's calling my name", e depois o final, "It's calling yours too", como na parte final da película, o sussurro de Bill Murray ao ouvido de Scarlett Johansson.
Todo o álbum é como que tirado de um filme. O psicadélico que tão fortemente caracteriza os Tame Impala de outros tempos - e que tão fortemente me separa deles - parece ter sido posto de lado ou substancialmente suavizado. Aqui temos sobretudo influências de música eletrónica, saídas do cinema de ficção científica. Temos músicas inteiramente techno - como "Past Life" - e outras que são mais rock do que outra coisa - como a repetitiva mas incrivelmente atraente "The Less I Know The Better". É nas partes mortas, nos pequenos skits de um minuto e meio, que se vê o verdadeiro estilo deste álbum. Apercebemo-nos de que o rock psicadélico continua ali, nos intrigantes pormenores, que afastam este álbum do que poderia ser um simples produto techno dos anos 80 (como os Daft Punk tentaram recriar com o seu RAM em 2013), tornando-o verdadeiramente em algo único e especial. "Let It Happen" é a prima dona dos Tame Impala, uma junção muito particular de rock com eletrónica a que os alemães chamaram de "krautrock" e que nos parece levar diretamente e a alta velocidade para um universo paralelo. O psicadélico, afinal, é isso mesmo, seja com rock da pesada ou com baixos e sintetizadores. E os Tame Impala são, continuam a ser, o psicadélico por excelência.
4. Justin Bieber, Purpose

Sim, tal como todas as pessoas que nasceram antes de 1997, sempre detestei o fenómeno Bieber: primeiro, a música Baby e a histeria dos Beliebers; depois, o adolescente rebelde e pomposo que agredia paparazzis, atirava ovos à casa de vizinhos, conduzia embriagado e aparecia em tribunal com uma arrogância tal que chocaria até o mais convicto dos anarquistas. A revolta contra esse fenómeno atingiu um ponto tal que, há cerca de dois anos, dezenas de milhares de pessoas assinaram uma petição exigindo a expulsão de Bieber do território americano. Em 2015, esse Bieber desapareceu e foi substituído por um verdadeiro artista, oscilando entre o Pop e o R&B, sempre com qualidade. Em Purpose, não há histerismo, não há música barata, não há aquele narcisismo tão comum às estrelas pop com vinte e poucos anos. Há um conjunto de baladas trabalhadas de forma inteligente por um conjunto invejável de produtores, onde se destaca, desde logo, Sonny John Moore, conhecido como Skrillex. Os singles "What Do You Mean" e "Where Are U Now" são a conjugação perfeita de pop, eletrónica, R&B e acústico, e o seu sucesso comercial não dinamita, antes realça, a qualidade da canção. Todo o álbum está repleto de canções de amor; mas também não há aqui, com uma ou outra exceção, aquelas palavras tão ocas e vazias que perdem o sentido. "Love Yourself" é o melhor que uma canção de amor tem para oferecer no reino do R&B. E "No Pressure" junta Big Sean e o melhor hip-hop a um álbum já de si rico em diversidade de estilos. O pop é afinal, um género que existe à custa de outros géneros, que junta o melhor do rock, do indie, do hip-hop e do R&B. E Justin Bieber fá-lo, aqui, com mestria, produzindo um resultado que eu próprio diria ser inalcançável para a grande estrela do teen pop neste nosso século. Felizmente, estava errado.
3. Jamie xx, In Colour

Não é todos os anos que sai um álbum eletrónico que se torna um marco de popularidade ouvido até nos círculos mais mainstream e comerciais. Mas também não é todos os anos que o DJ e produtor da banda indie mais popular dos últimos anos lança um disco a solo. Jamie xx, dos The xx, faz da música eletrónica um repositório de sentimentos felizes. Não temos aquela música pesada que tanto marca o estilo techno dos últimos anos - por causa disso restrito, como o metal ou a música experimental, a um círculo diminuto de apreciadores. Em In Colour não há músicas para se ouvir em discotecas nas sextas-feiras à noite - quando muito em bares no Cais do Sodré, mas não mais do que isso. Esta é música eletrónica subtil, a eletrónica do dia, mais do que da noite, a eletrónica que mostra o lado melhor - mais inocente, também - da cidade. Oiço "Obvs" e penso, não no Urban ou no Lux, mas na Ribeira das Naus ou no Terreiro do Paço. Oiço "Just Saying", apenas de minuto e meio, e vêm-me à cabeça aqueles romances alternativos de amor que por vezes aparecem no cinema. Oiço "Stranger in a Room" (com a voz do vocalista dos xx) e recordo-me, pelas suas semelhanças com a música "Together", do filme Great Gatsby de há dois anos. Claro que há aqui uma presença contínua dos xx - presença vocal ou em espírito. E é isso que torna este álbum em algo completamente único: eletrónica com traços de indie, em forma de tributo ao melhor dos dois géneros. O melhor, contudo, é quando Jamie xx chama o rapper Young Thug e cria a maravilhosa "I Know There's Gonna Be Good Times", que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores canções deste ano. Para os que, como eu, nunca conseguiram apreciar musica eletrónica desde a última vez que ouvi Primal Scream, têm aqui o melhor exemplo de como não é preciso voz quando se tem o génio e a capacidade de um verdadeiro músico como é Jamie xx.
2. Drake, If You're Reading This It's Too Late

Longe de chegar ao nível de Take Care ou Nothing Was The Same (este último, quanto a mim, o seu melhor trabalho), Drake deixou-nos este ano com uma mixtape que é de fazer inveja a qualquer rapper e músico. Pouco depois de sair, em Fevereiro, todas as canções foram parar ao Hot R&B/Hip-Hop Songs da Billboard, coisa nunca antes vista.
E percebe-se. Não é só o talento natural de Aubrey "Drake" Graham para fazer rimas e compor verdadeiros hits de hip-hop. É toda uma equipa de luxo que se reúne, sob a sigla OVO, para produzir o álbum daquele que é hoje, incontornavelmente, o artista mais bem sucedido do rap. Na equipa de produtores temos os clássicos Noah "40" Shebib e Boi1da; mas juntam-se-lhe os rookies PartyNextDoor e Travis Scott (aquele da OVO de Drake, este último da GOOD Music de Kanye, Big Sean e John Legend), estrelas em ascensão que deixam a sua devida marca no percurso do mestre.
Numa altura em que o rap é dominado por hooks repetitivos e vazios de sentido, ou letras tão agressivas que chegam a ridículas, ou sons simplesmente não apreciáveis, Drake é sempre uma perfeita válvula de escape, o artista que chega e vence, aparece e salva o rap. Este ano houve Kendrick Lamar para quem gosta; até é o meu caso - mas no caso de Kendrick em 2015, a profundidade intelectual do pensamento não salva a miséria do acompanhamento instrumental, demasiado preso ao soul, e a agressividade impressiva das letras, pouco amigáveis para um indivíduo de etnia branca que, como eu, as deseje ouvir.
De qualquer forma, houve Drake. Começa com uma assinatura de presença ("If I die, all I know is I'm a motherfucking legend", em "Legend"), passa por um ataque aos fakes rico em filosofia ("Know Yourself" parece saído de Sócrates, o grego), leva-nos a uma party song com o discípulo PartyNextDoor ("Still in Miami, most of these girls are too messy", em "Preach"), seguida logo depois por uma série de slow jams, outra vez com PND em "Wednesday Night Interlude", com Travis Scott em "Company", e sozinho em outros grandes sons como "Now & Forever", "You & The 6" e "Jungle". São estas, pelo menos, as músicas que mais me acompanharam ao longo do ano. Mas não são de desprezar as restantes. Num álbum que, como já disse, deixa muito a desejar em relação aos seus dois imediatos predecessores, Drake ainda assim conseguiu trazer-nos o melhor do rap em 2015 - e, em 2015, isso não é pouca coisa.
1. The Weeknd, Beauty Behind the Madness
Descobri The Weeknd com quatro anos de atraso. Em 2011, o agora dito sucessor de Michael Jackson (sobretudo pelo single "Can't Feel My Face") editou três misturas que lhe valeram o título de um dos mais promissores artistas do mundo. Eu só tinha ouvido uma música dele, inserida no Take Care de Drake, intitulada "Crew Love", uma música fantástica, mas cujo autor eu ignorei. Este ano, o filme 50 Shades of Grey teve na banda-sonora aquela música espetacular e inqualificável que é o Earned It, e lá fui eu procurá-lo. Balanço final: descoberta musical do ano, um ano a ouvir The Weeknd, e em Setembro sai novo álbum, quando eu ainda não tinha sequer esgotado as suas músicas antigas. Um ano em cheio.
The Weeknd, de nome Abel Tesfaye, é o pródigo artista que se define, nas palavras do próprio, como "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill" (em "Tell Your Friends"). Mulheres, sexo e drogas. A fama adquirida, primeiro, com "Earned It" e, logo a seguir, com os singles "Can't Feel My Face" e ainda "The Hills", não tornou Tesfaye num cantor pop, como se esperaria de quem pretende ser como o Rei. Pelo contrário, o velho Tesfaye ainda está lá, em músicas como "Tell Your Friends" (sexo e drogas), "Often" (sexo), "Acquainted" (mulheres) e o muito bem sucedido "The Hills" (sexo). Os velhos temas são conjugados com outros mais próprios de uma estrela pop: existe pela primeira vez uma história de amor ("Angel", além do já referido "Earned It"), e pela primeira vez vemos Tesfaye falar dos seus próprios erros, da sua vida pessoal, da sua relação com a mãe, na épica introdução "Real Life". Os ilustres convidados - Lana del Rey em "Prisoner" e Ed Sheeran em "Dark Times" - introduzem pormenores interessantes, mas quase passam despercebidos na globalidade do álbum. Claro está, o destaque continua a pertencer à música que fez de The Weeknd a nova grande estrela do pop - "Can't Feel My Face", sucessora de "Thriller" e de Michael Jackson.
Sucessor de MJ ou não, The Weeknd ocupou, desde o início, um espaço vazio. É hoje, com Frank Ocean, o expoente máximo do chamado "PBR&B": o R&B hipster ou indie que cada vez mais se tem vindo a afirmar como um estilo autónomo na indústria da música. Mas enquanto Frank Ocean é o "irmão bom", com uma forte, ainda que involuntária, intervenção política e cívica (nomeadamente pela sua homossexualidade), The Weeknd é o símbolo de uma geração desencantada com as perspetivas da vida na sociedade, refugiada no consolo efémero do álcool, das drogas, do sexo e da vida noturna, e fechada, não no narcisismo dos rappers, mas no niilismo próprio dos poetas românticos e existencialistas dos séculos XIX e XX. The Weeknd é, no fundo, um poeta à moda destas novas gerações; e assim ainda mais fica provada aquela frase de que a noite é dos poetas - noite das drogas, do álcool, do sexo e das festas de Abel Tesfaye.
É no dueto com Lana del Rey que The Weeknd confessa as mudanças recentes operadas na sua vida. Hollywood trouxe-lhe uma nova vida. Mas o que o move ainda é o mesmo: "I'm a prisoner to my addiction" - aqueles vícios que já o controlavam e que o trouxeram à ribalta em 2011. Não sabemos durante quanto tempo - até porque os vícios não são toleráveis para sempre. Por agora, congratulemo-nos com a fantástica música que nos proporciona. Celebremos o facto de ainda não ter cedido à inércia do estrelato. Porque The Weeknd ainda é o mesmo. No fundo, ainda é "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill". Em 2015, no meio das drogas e dos comprimidos, isso bastou para nos deixar com o melhor álbum do ano.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Pequeno contributo em defesa do acordo ortográfico

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
(Excerto do poema "Quinto Império" na obra Mensagem, de Fernando Pessoa)
Não costumo comprar jornais - leio-os no seu formato digital, e por isso dispenso o formato papel (ainda que seja muito mais aprazível de ler). Compro só quando estou de viagem. Hoje foi o caso, e não tardei a reparar na coincidência: eis que nas duas últimas vezes em que comprei o Público, num espaço de meses, apareciam curiosamente na secção de opinião artigos criticando o Novo Acordo Ortográfico. Hoje, nomeadamente, um texto de Madalena Homem Cardoso intitulado "De olhos postos no Brasil, esperançadamente". Da última vez que tinha comprado o Público pensara em escrever um artigo sobre o tema. Hoje decidi-me - pela relevância que o assunto tem e por existir, na imprensa em geral, um favorecimento, involuntário mas óbvio, das críticas ao acordo ortográfico nas secções de opinião. Segue-se, em resposta à Dra. Madalena, o meu testemunho enquanto estudante e cidadão português.
Em 1934, apenas um ano antes de morrer, Fernando Pessoa concorria ao Prémio Antero de Quental com o poema Mensagem, ficando em segundo lugar. Nessa poesia épica, à qual só demos a devida homenagem muitos anos depois, o poeta daria aquele que foi o mais bonito testemunho alguma vez feito em defesa da língua portuguesa - e, arrisco-me a dizer, de qualquer idioma.
Pessoa começara a sua vida a escrever em inglês. A Mensagem seria, aliás, a única obra portuguesa em quatro que o autor publicou em vida. Em jovem, vivera em Durban, na África do Sul, e aí criara o seu primeiro pseudónimo, Alexander Search. Queria ser o maior de todos os poetas a escrever em inglês. E, todavia, acabaria por ser (talvez) o maior poeta da história da língua portuguesa.
Qual a razão para deixar cair o inglês e, a partir de dado momento, passar a escrever apenas em português? É que nessa decisão caiu um fator fundamental, que foi o fascínio do poeta pela língua de Camões. A complexidade, a completude, a perfeição do idioma. Regressado a Lisboa depois da infância na África do Sul, nunca mais Pessoa escreveu em inglês, nem nunca mais quis ser Shakespeare, ou Keats, ou Byron, ou Poe. Dedicou-se, pura e inteiramente, a ser o maior poeta a escrever na língua portuguesa.
O resto sabemos como foi. E voltamos ao início do texto. Em 1934, Fernando Pessoa publicava a Mensagem, cujo tema central, dizem os especialistas, é o "Quinto Império". A ideia remontava à História do Futuro, escrita por Padre António Vieira nos últimos anos da sua vida, e publicada depois da sua morte. Naquela obra, o ilustre pregador parte da profecia bíblica do reino messiânico (do Livro de Daniel, 2) e reinventa-a. Dizia ele que, depois dos sucessivos impérios da história (Assírios, Persas, Gregos e Romanos), estava por vir um Quinto Império, unido em torno do Rei de Portugal, de um novo D. Sebastião.
Pessoa viu nessa profecia a base para a sua epopeia, mas também ele lhe imprimiu alterações. Para o poeta, os sucessivos impérios não se tratavam de impérios militares. Nesse caso, o Quinto Império seria, face à decadência de Portugal, a Grã-Bretanha, como a história veio a provar. Tratavam-se, sim, de impérios espirituais ou culturais: nesse caso, seriam o da Grécia, o de Roma, o da Cristandade, o da Europa pós-renascentista e... o de Portugal. Faltava cumprir-se Portugal. Faltava um poeta para fundar este "imperialismo de poetas", unido em torno da língua portuguesa, que, por ser a mais próxima da perfeição, prevaleceria sobre as demais.
O "Quinto Império" de Pessoa era um elogio público e universal à qualidade do nosso idioma. Só muito tarde é que reconheci isso. Mas há uns tempos estava a pensar nisto, das línguas, da filosofia da linguagem, e pus-me a ordenar, numa espécie de ranking, os idiomas que conhecia. No top 5 encontravam-se: o italiano, por ser, sem dúvida, a mais aprazível de se falar e de se ouvir; o francês, por ser, vá, a mais chic, e a língua da poesia; o espanhol, por ser a mais emotiva, a que mais consegue exprimir sentimentos e estados de alma; o inglês, por ser a mais musical, ao mesmo tempo simples e flexível, infinitamente ampla e moderna; e... o português.
O português porquê? Desconfio que pelas mesmas razões de Pessoa (embora não o possa provar). Trata-se de uma língua que, mesmo não sendo bonita de se ouvir, pelo menos em alguns sotaques (como o nosso), é de todas a mais rica em termos vocabulares (só talvez alcançada pelo inglês e pelo alemão) e a mais completa em termos gramaticais (inalcançável por qualquer uma). Seja em semântica, seja em sintaxe, seja em coesão ou em pontuação frásica, não há, acredito, dialeto igual.
O título do texto clarificou o meu objetivo com esta introdução. Isto tudo, afinal, para dizer o quê? As línguas não se criam sozinhas. Existem línguas marcadamente imperfeitas, como é o caso do inglês, que por causa disso é muitíssimo flexível. O português, pelo contrário, busca naturalmente a perfeição linguística. Os erros que possam existir, gramática ou vocabularmente, devem ser bem corrigidos e ultrapassados. Na forma como se ultrapassam esses defeitos é que se devem concentrar as nossas atenções.
Tudo isto para dizer, pois, que é natural, em qualquer língua, mas sobretudo na nossa, a existência de esforços de atualização e aperfeiçoamento do idioma. O "acordo ortográfico", claro está. Desconfio que Pessoa não se oporia a tal eventualidade.
Podemos contar com outras razões: razões pragmáticas, como a existência de um mundo lusófono, de 300 milhões de pessoas ligadas pelo mesmo idioma - sendo essencial a manutenção desse espaço único; ou razões históricas, vulgarmente postas de parte nas nossas acesas e emotivas discussões sobre o acordo ortográfico. Com a independência do Brasil, em 1822, o português tornou-se língua oficial de dois Estados; mas permaneceu um único idioma, sem alterações de uma ou de outra parte. Até que, em 1911, e sob o pretexto do "combate ao analfabetismo", os republicanos decidiram efetuar, de forma unilateral, a primeira reforma ortográfica - foi aí que trocámos o "ph" pelo "f" e o "y" pelo "i", por exemplo.
A língua portuguesa não é simplesmente de Portugal, nem do Brasil, nem de Macau. É de todos. Faz parte de uma cultura única, a de Camões e dos Lusíadas, e assim deve permanecer, acessível ao mundo. Portanto, depois de ter reformado unilateralmente a língua, Portugal tinha a obrigação de chamar o Brasil para uma discussão construtiva de uniformização da escrita. Foi isso que aconteceu em 1990, com a assinatura de um acordo ortográfico entre todos os países com língua oficial portuguesa. Por cá, o acordo entrou em vigor em 2009.
Face a tudo isto, como é que se pode falar de "revogação do acordo ortográfico", como li numa outra crónica neste jornal? É essencial que se mantenha a unidade da língua. Não é "brasileiro", é "português". E devíamos ter orgulho nisso.
domingo, 22 de novembro de 2015
A humanidade e o extremismo

Estava uma noite agradável. Fim-de-semana, a cidade repleta de movimento, festas, bares, concertos, cinemas, tudo aquilo que torna as cidades em algo especial. Eric decidira sair à rua. Adorava música, adorava festas, adorava a noite na cidade. Designer gráfico por conta própria, dirigia, juntamente com um amigo, a agência We Are Ted, fundada em 2007. Gostava de festas. O seu ar de quarentão hipster, de óculos modernaços, barba sempre por fazer, não revelava a profundidade psicológica, emocional de um ser humano extraordinário. Um ar tímido, de quem na verdade não era reservado, mas brincalhão, risonho, carinhoso. Naquele dia decidiu sair à rua, sem a câmara fotográfica que sempre o acompanhava no trabalho, só um bilhete para um concerto de rock pesado.
O barulho, juntamente com as luzes e o ambiente bem-disposto da cidade, são muitas vezes o antídoto ideal - ou, pelo menos, o preferido - para uma semana exaustiva de trabalho. Tudo o que há de mau no "sistema" - o trabalho, a sujidade da cidade, o trânsito, a mesquinhez e superficialidade das pessoas - parece desaparecer momentaneamente. Até para quem vá sozinho; não é preciso levar amigos, porque a própria cidade nos acompanha.
Note-se que a vida lhe corria bem, não estava deprimido nem nada disso. Gostava do que fazia. Ainda por cima trabalhava por conta própria - sem necessidade de prestar contas a ninguém - e tinha apetência natural para a coisa. A fotografia sempre fizera parte dele, desde que era pequeno.
No trabalho estava feliz. E em casa também: casara com a mulher da sua vida - ou a primeira delas, visto que passara a partilhar esse título com a filha. Antes da música e da fotografia, vinham aquelas duas mulheres, as suas grandes paixões, as razões de viver. Ele e a mulher eram um casal de adolescentes, perdidamente apaixonados, apesar de os dois já estarem nos seus quarenta anos. Um amor que crescera ao longo do tempo, que ganhara raízes profundas na vida que partilhavam os dois e que plantara uma semente com o nascimento da primeira filha. Um ano antes, a pequenina tinha entrado para a escola. Tinha 4 anos (4 anos e meio, como ela dizia). E o pai sempre fizera de tudo com ela. Fotografava-a repetidas vezes, como que a querer guardar todos os momentos, todos os instantes daquele início de vida do seu anjo. Em casa tinha tudo aquilo que sonhara, e tudo aquilo que precisava.
Mas, de quando em quando, ir à rua sabia-lhe bem. Ainda mais quando para ver uma das bandas preferidas - o barulho, as luzes, o ambiente bem-disposto, isso tudo. Naquele momento estava com felicidade acrescida, e aproveitara agora para estar sozinho antes de uma nova jornada marcante na sua vida, que estava prestes a acontecer. Na verdade, Eric preparava-se para ter uma nova criança. Outra princesa. E a ansiedade era tanta que já não pensava noutra coisa. Nem lhe vinham à cabeça as noites que teria de permanecer acordado, ou os choros, as fraldas - se bem que era inevitável que tivesse de pensar nisso. Mas agora estava simples e puramente feliz. Encantado com a vida, encantado com a sua família, com o seu trabalho, com a expetativa de ter mais uma filha, com a cidade que o recebia e o acompanhava naquela noite de sexta-feira.
Na sua vida, Eric já percorrera muitas partes do mundo. Córsega, Veneza, Nova Iorque, Dubai... Tudo documentado, todos os tesouros captados pela lente da sua máquina. Mas não havia igual a Paris. Paris era a sua outra paixão. Não apenas a beleza, já de si inigualável, dos edifícios e das avenidas; mas, mais do que isso, o movimento, a diversidade das pessoas, a profundidade intelectual de cada uma delas. Quando pensava na sua cidade, imaginava aquela noite de sexta-feira. Imaginava os cafés da Boulevard Voltaire, memórias de uma outra época, a Belle Époque. Imaginava Monmartre, de como Gide, Aron, Camus e Malraux tinham por ali passado, e Sartre e Beauvoir a caminharem de mãos dadas por aqueles recantos escondidos da cidade que é da luz, mas é, antes disso, dos pensadores e dos poetas.
O Bataclan era o lugar escolhido para aquela noite. A razão era simples: a banda de Jesse Hugues e Josh Homme, conhecida como Eagles of Death Metal, vinha dos Estados Unidos para tocar naquele teatro em frente a umas mil e quantas pessoas. O rock da pesada tinha fãs em Paris, fãs do tipo mais diverso possível. Eric era um deles. A esposa não gostava, dizia que era só barulho, e ficara em casa. Eric deitara a filha antes de sair, fazia-o sempre, e despedira-se com um beijo da bela esposa. Sempre a rir-se, perguntou se ela não queria ir, em tom irónico. Ela respondeu "cala-te", também a rir-se. As grávidas não vão a concertos de rock pesado. Então, bom concerto, beijinhos, amo-te, até já. E lá foi ele.

A noite não acabou como esperava. Não acabou em casa, junto à mulher e à filha. O concerto foi giro, sim, mas foi interrompido abrutamente. Aquilo que era uma noite de diversão - uma noite à moda de Eric e à moda de Paris - terminou como uma noite de tristeza e de morte. Às 9:40 da noite, o concerto já ia encaminhado, a atmosfera era boa, uns quantos homens desgraçados decidiram disparar contra todos os que estavam lá presentes.
Eric foi uma das 130 pessoas que morreram naquela noite. E converteu-se, assim, no símbolo de uma humanidade sacrificada em prol da demência e do extremismo. 130 não são uma estatística. 130 são a humanidade reunida em sofrimento, reunida em tristeza, reunida em fraternidade mais do que pânico ou medo.
E com o sacrifício de Eric vimos outra coisa. Nestes momentos, em que a morte e o terror imperam, a união dos homens prevalece sobre a desunião, a esperança sobre o desespero, a razão sobre o instinto. Ironia das ironias ter acontecido em França, a casa dos maiores intelectuais do Ocidente, pátria de Voltaire e da tolerância, de revoluções e de Maios de 68, da cultura, de Eric e da arte.
O que a Europa tem verdadeiramente de especial, com a França na dianteira, é ter criado uma matriz cultural que se sobrepôs à natureza simplesmente animal do homem. A "República" que os franceses tantas vezes exaltam não foi só a divisão de poderes de Montesquieu ou as figuras imponentes de De Gaulle e de Miterrand. A República foi, antes de ser isso, a instilação no coração dos homens de uma virtude assente em duas coisas: por um lado, na moderação, na auto-limitação, na perceção de que, enquanto pessoas, fazemos parte de algo maior, de uma comunidade, de uma Ideia, de um espírito global que nos torna a todos irmãos e irmãs, frères e soeurs numa humanidade fraterna (e, a partir daí, a tão essencial ideia de tolerância, de respeito, de amor ao próximo); por outro lado, na luta por um mundo melhor, que tanto se viu no Maio de 68 e que sempre se vê na forma como a França intervém no palco das relações internacionais, na defesa veemente dos direitos humanos, na cultura política e na participação dos franceses, a nível local, nacional e internacional. A França, nesse sentido, somos todos nós; e muito lhe devemos, não só em matérias de segurança ou de desenvolvimento, mas por ter ajudado a criar esta ideia de pessoa que é mais forte do que a natureza animal, do que o instinto de sobrevivência, do que a apetência pela violência e do que a lei do mais forte. Uma ideia que alguns tentam destruir, mas nem com mil Bataclans conseguirão destruir.
Eric não voltou a casa. Foi levado para o hospital, mas já tinha deixado este mundo. A mulher recebeu um telefonema. E as filhas, a de quatro anos e a que iria nascer uns dias depois, passaram a órfãs. Houve lágrimas, houve gritos naquela casa; e o próprio Eric gritara, e muito, de medo, de susto, de dor. Mas, agora, estava em paz, ele e outros 129. Ele, que decerto estará a olhar por nós, não deve ser esquecido, tal como Elsa, ou a sua mãe Patrícia, ou Fabrice, ou Gregory, e todas as outras vítimas. Na hora da maior tristeza, do maior medo pelo que possa vir a suceder, devemos celebrar o património de uma Europa que é nossa, e que aqueles 130 heróis encarnaram nas suas últimas horas de vida. Devemos preservá-lo, e devemos lutar por ele. Na luta por um mundo melhor, pela República, pelas pessoas que conhecemos, pelo Bem contra o mal.
Esquecer é trair. Relembrar é honrar os defuntos com a nossa preocupação e a nossa memória. É garantir que os criminosos não saem impunes. Garantir que esta Europa, este Ocidente, esta República não morrem. Garantir que lembramos Descartes, Voltaire, Rosseau, Tocqueville e Sartre, Monet, Cézanne, Reinoir e Degas, Proust, Flaubert e Vitor Hugo, Pascal, Laplace e Curie. Garantir que permanecemos fiéis a nós mesmos, e à humanidade que ajudámos a construir.
Lembrar e relembrar. Guardar memórias. E lutar por elas.
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