
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
(Excerto do poema "Quinto Império" na obra Mensagem, de Fernando Pessoa)
Não costumo comprar jornais - leio-os no seu formato digital, e por isso dispenso o formato papel (ainda que seja muito mais aprazível de ler). Compro só quando estou de viagem. Hoje foi o caso, e não tardei a reparar na coincidência: eis que nas duas últimas vezes em que comprei o Público, num espaço de meses, apareciam curiosamente na secção de opinião artigos criticando o Novo Acordo Ortográfico. Hoje, nomeadamente, um texto de Madalena Homem Cardoso intitulado "De olhos postos no Brasil, esperançadamente". Da última vez que tinha comprado o Público pensara em escrever um artigo sobre o tema. Hoje decidi-me - pela relevância que o assunto tem e por existir, na imprensa em geral, um favorecimento, involuntário mas óbvio, das críticas ao acordo ortográfico nas secções de opinião. Segue-se, em resposta à Dra. Madalena, o meu testemunho enquanto estudante e cidadão português.
Em 1934, apenas um ano antes de morrer, Fernando Pessoa concorria ao Prémio Antero de Quental com o poema Mensagem, ficando em segundo lugar. Nessa poesia épica, à qual só demos a devida homenagem muitos anos depois, o poeta daria aquele que foi o mais bonito testemunho alguma vez feito em defesa da língua portuguesa - e, arrisco-me a dizer, de qualquer idioma.
Pessoa começara a sua vida a escrever em inglês. A Mensagem seria, aliás, a única obra portuguesa em quatro que o autor publicou em vida. Em jovem, vivera em Durban, na África do Sul, e aí criara o seu primeiro pseudónimo, Alexander Search. Queria ser o maior de todos os poetas a escrever em inglês. E, todavia, acabaria por ser (talvez) o maior poeta da história da língua portuguesa.
Qual a razão para deixar cair o inglês e, a partir de dado momento, passar a escrever apenas em português? É que nessa decisão caiu um fator fundamental, que foi o fascínio do poeta pela língua de Camões. A complexidade, a completude, a perfeição do idioma. Regressado a Lisboa depois da infância na África do Sul, nunca mais Pessoa escreveu em inglês, nem nunca mais quis ser Shakespeare, ou Keats, ou Byron, ou Poe. Dedicou-se, pura e inteiramente, a ser o maior poeta a escrever na língua portuguesa.
O resto sabemos como foi. E voltamos ao início do texto. Em 1934, Fernando Pessoa publicava a Mensagem, cujo tema central, dizem os especialistas, é o "Quinto Império". A ideia remontava à História do Futuro, escrita por Padre António Vieira nos últimos anos da sua vida, e publicada depois da sua morte. Naquela obra, o ilustre pregador parte da profecia bíblica do reino messiânico (do Livro de Daniel, 2) e reinventa-a. Dizia ele que, depois dos sucessivos impérios da história (Assírios, Persas, Gregos e Romanos), estava por vir um Quinto Império, unido em torno do Rei de Portugal, de um novo D. Sebastião.
Pessoa viu nessa profecia a base para a sua epopeia, mas também ele lhe imprimiu alterações. Para o poeta, os sucessivos impérios não se tratavam de impérios militares. Nesse caso, o Quinto Império seria, face à decadência de Portugal, a Grã-Bretanha, como a história veio a provar. Tratavam-se, sim, de impérios espirituais ou culturais: nesse caso, seriam o da Grécia, o de Roma, o da Cristandade, o da Europa pós-renascentista e... o de Portugal. Faltava cumprir-se Portugal. Faltava um poeta para fundar este "imperialismo de poetas", unido em torno da língua portuguesa, que, por ser a mais próxima da perfeição, prevaleceria sobre as demais.
O "Quinto Império" de Pessoa era um elogio público e universal à qualidade do nosso idioma. Só muito tarde é que reconheci isso. Mas há uns tempos estava a pensar nisto, das línguas, da filosofia da linguagem, e pus-me a ordenar, numa espécie de ranking, os idiomas que conhecia. No top 5 encontravam-se: o italiano, por ser, sem dúvida, a mais aprazível de se falar e de se ouvir; o francês, por ser, vá, a mais chic, e a língua da poesia; o espanhol, por ser a mais emotiva, a que mais consegue exprimir sentimentos e estados de alma; o inglês, por ser a mais musical, ao mesmo tempo simples e flexível, infinitamente ampla e moderna; e... o português.
O português porquê? Desconfio que pelas mesmas razões de Pessoa (embora não o possa provar). Trata-se de uma língua que, mesmo não sendo bonita de se ouvir, pelo menos em alguns sotaques (como o nosso), é de todas a mais rica em termos vocabulares (só talvez alcançada pelo inglês e pelo alemão) e a mais completa em termos gramaticais (inalcançável por qualquer uma). Seja em semântica, seja em sintaxe, seja em coesão ou em pontuação frásica, não há, acredito, dialeto igual.
O título do texto clarificou o meu objetivo com esta introdução. Isto tudo, afinal, para dizer o quê? As línguas não se criam sozinhas. Existem línguas marcadamente imperfeitas, como é o caso do inglês, que por causa disso é muitíssimo flexível. O português, pelo contrário, busca naturalmente a perfeição linguística. Os erros que possam existir, gramática ou vocabularmente, devem ser bem corrigidos e ultrapassados. Na forma como se ultrapassam esses defeitos é que se devem concentrar as nossas atenções.
Tudo isto para dizer, pois, que é natural, em qualquer língua, mas sobretudo na nossa, a existência de esforços de atualização e aperfeiçoamento do idioma. O "acordo ortográfico", claro está. Desconfio que Pessoa não se oporia a tal eventualidade.
Podemos contar com outras razões: razões pragmáticas, como a existência de um mundo lusófono, de 300 milhões de pessoas ligadas pelo mesmo idioma - sendo essencial a manutenção desse espaço único; ou razões históricas, vulgarmente postas de parte nas nossas acesas e emotivas discussões sobre o acordo ortográfico. Com a independência do Brasil, em 1822, o português tornou-se língua oficial de dois Estados; mas permaneceu um único idioma, sem alterações de uma ou de outra parte. Até que, em 1911, e sob o pretexto do "combate ao analfabetismo", os republicanos decidiram efetuar, de forma unilateral, a primeira reforma ortográfica - foi aí que trocámos o "ph" pelo "f" e o "y" pelo "i", por exemplo.
A língua portuguesa não é simplesmente de Portugal, nem do Brasil, nem de Macau. É de todos. Faz parte de uma cultura única, a de Camões e dos Lusíadas, e assim deve permanecer, acessível ao mundo. Portanto, depois de ter reformado unilateralmente a língua, Portugal tinha a obrigação de chamar o Brasil para uma discussão construtiva de uniformização da escrita. Foi isso que aconteceu em 1990, com a assinatura de um acordo ortográfico entre todos os países com língua oficial portuguesa. Por cá, o acordo entrou em vigor em 2009.
Face a tudo isto, como é que se pode falar de "revogação do acordo ortográfico", como li numa outra crónica neste jornal? É essencial que se mantenha a unidade da língua. Não é "brasileiro", é "português". E devíamos ter orgulho nisso.