Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.
A paz sem vencedor e sem vencidos.
Sophia de Mello Breyner Andersen
Sempre tive um certo fascínio pelo Natal - em grande parte devido à tendência festeira da minha numerosa família. Esse encantamento nunca se estendeu ao dia 31 de Dezembro - para mim, um dia igual a todos os outros. Em Portugal, gostamos de festejar efusivamente tudo; mas a falta de raízes históricas na celebração do Ano Novo diminui a importância deste evento. Para mim, basta passar com amigos, agradecer pela boa vida que levamos, recordar as pessoas importantes na minha vida, e brindar à amizade e a tempos melhores.
Noutros países não é assim - e, se repararmos bem, são aqueles países cuja história foge ao cristianismo e, por conseguinte, ao Natal. Pus-me a ver, na Wikipedia, como se celebra o novo ano em partes remotas do mundo, e desde logo fiquei preso a uma: a Ōmisoka, festa do ano novo no Japão. Em terras de budismo, a coisa tem uma carga simbólica tal que é impossível não captar o nosso interesse.
No Japão não há passas nem champanhe. Nas cidades, os hábitos não divergem muito dos que aqui se vivem. Mas no campo é totalmente diferente - e muito se deve à ainda forte (e muito positiva) influência exercida pelo budismo. Num mundo em que os templos parecem já só existir nos filmes, ali as pessoas visitam o santuário, rezam a milhares de divindades do credo de Buda, e em vez das passas, encontram no silêncio milagroso dos deuses a cura para as agonias e sofrimentos do dia-a-dia.
À meia-noite, são muitos os que ainda estão no templo. Os monges preparam uma bebida feita a partir do arroz, o amazake, cujo processo de feitura é realmente muito interessante (contém bolor - koji - que, misturado com o arroz, transforma os hidrocarbonetos em enzimas que dão um trato mais doce a uma substância que de doce não tem nada). Preparam chávenas, e todos juntos bebem, numa comunhão invulgar, entre os austeros monges e os fiéis seus seguidores.
Faz parte da véspera do ano novo manter a casa limpa, de modo a receber de forma digna Toshigomi, o deus do novo ano. Partem para o templo, e todos os mosteiros sinalizam a passagem do ano com 108 badaladas: uma por cada bonno, que são no fundo todas as emoções destrutivas que escurecem a mente do homem. Ou seja, sem haver fogo de artifício, os japoneses celebram a festa lembrando, com humildade e simplicidade, o pior que acontece na nossa vida, os episódios em que nos mostramos egoístas para com os outros, ou ignorantes por preguiça, ou simplesmente indiferentes no que ao mundo toca.
O budismo tem destas coisas - a mim deu-me ensinamentos valiosos, há coisa de uns três anos, ainda que nunca tenha meditado à boa moda budista, com yoga e tudo isso. E é curioso, a título de paradoxo: o Japão, que cria e tem tudo aquilo que o homem possa sonhar, permanece ligado ao budismo que, no seu núcleo, tem a humildade de reconhecer o sofrimento como parte integral e essencial à vida humana. Nós, que temos pouco e nos arrogamos de senhores do mundo, deixamos muitas vezes que o egoísmo tome conta de nós, sob a forma de uma alegria ébria e consumista que nada de bom traz. Falta humildade, e falta sofrimento - sofrimento na forma de não ser indiferente, de prestar atenção ao outro, de preocupação pelos problemas que subsistem no mundo e à nossa volta.
O ano novo não tem, como disse, muita relevância para alguém que, como eu, não presta grande importância à simbologia dos dias, antes seguindo Alberto Caeiro e olhando para o tempo como o inevitável e contínuo percurso que é - e não como as fatias que nós artificialmente criamos, dando nome a tudo, regendo-nos pelas horas e pelos minutos e pelos segundos e microssegundos numa infantil e tempestuosa correria pela vida cujos benefícios de solidez e segurança muitas vezes não chegam para os prejuízos de cansaço e confusão. "E porque só existe a realidade, o tempo é a ausência de tempo". O novo ano é mais um dia, e vale a pena não nos esquecermos disso.
Recentemente, contudo, tem vindo a aumentar a minha atenção por este marco, e por uma razão simples: converteu-se, com Paulo VI, no Dia Mundial da Paz. E aí ganhou uma conotação simbólica muito mais importante. Adquiriu até, na minha opinião, uma certa semelhança com a Ōmisoka nipónica. Todos os anos, os supremos líderes do catolicismo publicam uma mensagem, dirigida à busca da paz.
Hoje fui à missa - e vale a pena ir, pelo menos neste dia, seja-se crente ou não, apenas para lembrar os mais desfavorecidos, as vítimas de um Assad, Baghdadi, Maduro, Putin ou outro qualquer. O Papa, este ano, deu-nos uma missão que lembra as 108 badaladas no Japão. A mensagem (que pode ser lida aqui) tem um conteúdo genérico tão bonito quanto complexo: "Vence a indiferença e conquista a paz". Os japoneses diziam que a indiferença, além da ignorância e do egoísmo, é a origem de todos os males que nos atormentam a mente. Atente-se a semelhança!
Quando li coisas do budismo, parece que há tanto tempo foi, memorizei aquele que é, como disse, o núcleo duro da religião, especificamente a parte que diz respeito ao sofrimento. Os budistas têm como credo principal as "Quatro Nobres Verdades": são quatro "leis" muito simples, parecem até patéticas, mas que fazem justiça ao título, de tanta nobreza se revestirem os ensinamentos. A primeira verdade é que existe sofrimento; a segunda é que há uma origem para o sofrimento, a terceira refere o fim para o sofrimento, e a quarta diz-nos o modo de conseguir esse fim. Nós, com as nossas passas e os nossos desejos e o nosso (e)spumante, muitas vezes esquecemos, no meio do fogo de artifício e dos efeitos do álcool, que a realidade não é o conto de fadas de que a nossa vida é feita; a realidade é dura, dura para os que sofrem. Ter a humildade de, como os budistas fazem e como Francisco nos exorta a fazer, reconhecer que há sofrimento e lembrar aqueles que neste mundo sofrem, é dar, aí sim, uma importância ética e prática ao Ano Novo que até agora esta festa parece não ter.
Não são precisas 108 badaladas. Nem é precisa a missa, embora ela ajude. Basta a nossa atenção. Vencer a indiferença. Lembrar os pobres e os marginalizados. Concretizar essa lembrança com gestos na nossa vida diária. Vencer a indiferença. Começar esta difícil, quase teórica, mas possível jornada que é a verdadeira, mais nobre de todas as cruzadas: a conquista da paz.
