sábado, 2 de janeiro de 2016

Tudo é político

No coração do Porto, invicta e milenar cidade, encontra-se um dos maiores testemunhos de Portugal à cultura: a Livraria Lello. Dentro dessa livraria, verdadeiro monumento arquitetónico, uma pessoa não pode ficar sem nada comprar - mesmo que não seja para ler ou como lembrança da visita, pelo menos para fazer valer os 3 euros pagos à entrada do sítio.

Ora claro está que eu comprei um livro na minha passagem pela Lello. Entre um livro de História - de Kissinger, personalidade controversa que eu muito desejo ler - ou um romance - José Luís Peixoto, muito provavelmente -, decidi ir à secção de filosofia e pegar num livrinho de 160 páginas de um dos mais reputados intelectuais deste nosso pequeno país. Eu não conhecia Eduardo Lourenço, e tinha enorme curiosidade em ler uma das suas obras. O título convenceu-me: A Esquerda na encruzilhada ou fora da História? - Ensaios políticos. Pensei para mim, então o homem é de esquerda? O filósofo parecia-me um caso diretamente saído da elite intelectual do salazarismo, e, afinal, é de esquerda! Bem, chegaram-me duas noites para acabar de ler a pequena obra, de tão cativante ser a escrita e tão profundo o pensamento.

Decidi partilhar uma parte desse texto que, para mim, vale como perfeita e sumária descrição do que é ser de esquerda, da crise que a esquerda hoje enfrenta, e do capitalismo devorador em que atualmente vivemos. Aquilo que, para muitos, será decerto um choque, é para mim cada vez mais, não uma fonte de orgulho, mas um sentido de dever: sou de esquerda porque sinto que o devo ser. Discussões ideológicas, debates políticos, deixarei para depois - apesar de que, como diziam os estudantes no Maio de 68, "tudo é político". Agora cito Eduardo Lourenço, infinitamente mais sábio e mil vezes mais experiente do que eu.

Para ter futuro - não como mera expressão na ordem político-económica - o Socialismo terá como obrigação primeira reinventar um novo discurso cultural, revisitar seriamente o seu imaginário que ainda o protege aparentemente do fascínio do discurso pseudoliberal. Não é tarefa de eleitos, mas de todos que sabem - sem ser de ciência certa - que há na ideia e no projeto socialista uma exigência, uma verdade que nem a mais gritante eficácia do ultracapitalismo planetário consegue ocultar. Debaixo das «pedras da calçada, a praia», diziam os estudantes de 68. Debaixo da fachada rutilante de uma sociedade que exclui e remete para o nada social uma fração inumerável da comunidade humana não descobrimos praia nenhuma, só o espetáculo de uma sociedade dividida entre a euforia dos conquistadores new look e as suas vítimas, mesmo os que recebem desse universo rutilante algumas migalhas de sonho que lhes permitem imaginar que estão ainda dentro do ninho iluminado. Para os que acham meramente ética esta constatação, não tenho resposta a dar. O Socialismo ou é ética social em ato ou não é nada. Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção - e das consequências práticas que dela relevam - ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores.
Eduardo Lourenço, "Socialismo: que futuro?",
in A Esquerda na encruzilhada ou fora da História?, p. 18, 2009, Gradiva. 

A esquerda, demasiado presa ao seu passado numa ortodoxia petrificada e pouco atraente, entrou em crise - provam-no os resultados eleitorais na Europa, o falhanço de muitas políticas económicas esquerdistas e o vazio ideológico que hoje caracteriza a esquerda (sobretudo a chamada New Left, teorizada por Giddens, praticada por Blair, que hoje parece ter desaparecido). Do lado da direita aconteceu um fenómeno semelhante - o desaparecimento da democracia-cristã e de um certo nacionalismo moderado -, mas em menor escala.

Aconselho, nem que seja por mero interesse académico, a leitura deste pequeno livro. A ignorância é um defeito; mas falar sem conhecer, fingindo que se conhece, é das coisas mais feias que existem. Conhecer a esquerda é o primeiro ponto essencial para a criticar.