Família acima de tudo. A frase é proferida tantas vezes e de forma tão banal que a dada altura se esquece o verdadeiro significado desta frase: como tantas outras, ela torna-se opaca, repetimo-la só porque sim, porque parece ser tão absoluta, tão verdadeira que nem pensamos na razão de assim ser. Tomamo-la como garantida, mas não nos perguntamos porquê.
Hoje sinto-me no dever de explicar essa razão. Sem filosofias, sem metafísica, recorrendo somente a um exemplo que me acompanha no dia a dia, e que acaba por dizer muito acerca daquela frase em geral, e da minha família em particular. Tenho amigos, sim. Daria a vida por eles. Pais, irmãs, nem é preciso explicar a importância que têm nesta minha pequena existência (exercício que, ainda assim, ficará para depois). Tive a sorte de nascer na família que tenho, gente numerosa, clã antigo, sempre unido, da maior e mais rica diversidade possível, onde a palavra-chave é alegria, também amor e carinho, enfim, família. E hoje tenho um específico testemunho direcionado para um particular familiar meu.
Ídolo, sim. Protetor. Tio. E, atrevo-me a dizer, companheiro. Digo companheiro, talvez por ser o mais novo da linhagem que me antecede, talvez pelos traços que caracterizam a sua pessoa - falo da alegria, da tranquilidade, da constante boa disposição, acompanhada de uma boa dose de ingenuidade, no sentido de um inabalável otimismo, na capacidade de ver o melhor do mundo e das pessoas, copo sempre meio cheio, nunca vazio. É tio. E, mais do que tio, também, de forma sincera, pessoa cinco estrelas, homem com 'h' grande, por isso, também, ídolo.
E ser ídolo, apesar da minha tendência para encontrar ídolos em todos os jornais ou filmes, não é dizer pouco. Até porque é daqueles ídolos constantes, aqueles que não imaginamos na ribalta mas que estão sempre lá na nossa consciência, como modelos, exemplos a seguir, como quem nos leva a superarmo-nos a nós mesmos, a darmos o nosso melhor, sempre e em toda a parte. Este meu tio é esse ídolo. Médico que é soldado, soldado que é médico, e no meio disto tudo ainda arranja tempo para ser músico, escritor, blogger, filho, pai e tio. E todas estas artes desempenha com excelência. Pessoa completa, verdadeiro humanista, de uma generosidade franciscana, dando tudo aos outros antes de se dar a si.
O meu tio. "Mikitojone" para os mais próximos. Nome dado por este humilde sobrinho, que ainda não sabia falar mas já distribuía alcunhas com distinção. Essa ficou, sinal de proximidade, recordação de tempos passados que eu próprio não recordo, mas que marcam o início da minha caminhada junto desta família fenomenal, e junto deste meu tio em particular. São memórias que parecem soterradas no subconsciente. Estão lá, mesmo sendo demasiado novo para delas me conseguir lembrar. E, depois, claro, há todas aquelas memórias de que me lembro, momentos passados em família, almoços, jantares, natais e verões. Mas os que mais me marcaram, no que a ele toca em particular, são os que de orgulho se trata - sobrinho orgulhoso, felicidade juvenil que não se apaga da memória.
É como a excursão à Madeira, ainda pequeno, tio e sobrinho de mãos dadas, a serenata na rua, à porta de casa dos avós. Guardo alguns rasgos dessa viagem, ainda que com muitos espaços em branco. Mais tarde, há um grande concerto da Estudantina, confesso que não me recordo do local, mas recordo-me, sim, do espetáculo, vozes graves de capa negra, coro em uníssono e em harmonia, e depois O Infante, "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce", e o melhor tenor de que tenho memória. Para mim, graças àquela noite, Dulce Pontes não se comparava ao génio e ao talento ali demonstrados pelo meu tio.
Guardo memórias do Afeganistão, dos seis meses de serviço em Kabul, em 2009. Em Agosto, aniversariante ausente, muitas lágrimas por parte da tia, tanta emoção da parte de todos nós. Mais tarde veria pela primeira vez o uniforme da marinha, e - o que mais me fascinou - as botas da tropa, de estilo americano. O meu tio, Sniper Americano. Só que, em vez de tirar vidas, salvava vidas. Sobrinho orgulhoso e fascinado.
E, depois, o blogue, as minhas leituras preferidas. Costumo até dizer que, se houvesse escritor na família, seria ele. Parênteses: a motivação para este texto foi precisamente o impulso que me foi dado por este tio, depois de eu o ter desafiado a escrever nova saga de Harry Potter. Mais uma vez, o tio a puxar pelo melhor dos outros, e aqui fica este humilde testemunho em resposta a esse desafio que me foi dado.
São algumas dessas memórias. Guardo ainda algumas outras: uma visita ao parque no meu dia de anos, antes de voltar a casa para uma festa surpresa; a paixão partilhada pelo Senhor dos Anéis, e o meu fascínio pela coleção de peças das personagens daquela trilogia (algumas das quais, confesso passado tantos anos, foram às minhas mãos acidentalmente assassinadas); a adoração que nutri, desde muito cedo, pelo Lucky, verdadeiro companheiro de estimação da minha própria juventude; a vontade de entrar para a Estudantina quando era novo (arrisquei um olho à custa de uma súbita obsessão pelo violino); e a vontade de querer ver o mundo, de seguir as pisadas do tio, Polónia, Macau, um planeta e mil maravilhas por descobrir.
Tudo para dizer, enfim, que tios como este não há muitos. E, quando se tem um dio como este, convém, de vez em quando, dar-lhe um agradecimento. Ora bem, obrigado, tio, por seres meu tio. Quando pareça que não dou devida importância ao meu tio Mikito, tens este texto para provar que não me esqueço da importância que tiveste, desde sempre, na minha vida.
E para provar essa importância, um dado curioso: dos primeiros textos que publiquei neste mesmo blogue foi precisamente, imagine-se, a história do nome do meu tio. Trabalho de um miúdo desvairado, intelectual louco, sobrinho orgulhoso e fascinado. Hoje celebra-se um novo marco na história desse nome. Quarenta e quatro anos. Parece muito, mas quando se diz que os sábios são velhos, olha-se para este meu tio e encontra-se um sábio bem mais novo. Alegria, tranquilidade, boa disposição, otimismo, ingenuidade. Marcas de um homem sábio.
Parabéns, tio Ali.