sábado, 19 de setembro de 2015

Números

Em 2012, o Instituto de Ciências Sociais da UL organizou um colóquio cujo tema era "O estado das direitas na democracia portuguesa". Na intervenção que fez nesse evento, António Araújo (não, não sou eu) dissertou sobre aquilo que refere como "A cultura de direita em Portugal", uma história extensa mas pormenorizada de um fenómeno que se iniciou nos anos 80 e que hoje parece ter atingido o seu auge. Uma verdadeira cultura de direita. A propósito, esse texto, cuja leitura recomendo vivamente, pode ser encontrado aqui.


Acontece que temos assistido, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo, a um movimento que tem vindo a dominar não só as consciências de um grande segmento das populações (com particular destaque para os mais jovens, falando por experiência própria), mas também a comunicação social, a cultura, o ensino e os governos. Em que consiste esse movimento? Na unanimização de ideias, na monopolização do dicionário do debate político, com a consequente hostilidade e desprezo por qualquer alternativa que não consista no que é pretendido. Ideias que começaram, nos anos 70, com a social-democracia dos países ocidentais e foram-se desviando progressivamente para a direita do espetro político: nos anos 80, liberalismo, nos anos 90, ultraliberalismo, nos anos 2000, ultraliberalismo "selvagem", e, hoje, aquilo que eu vejo como uma nova construção política, completamente original e distinta das demais.

Este movimento é essa tal cultura de direita. Nos anos 80, tanto o Semanário como O Independente, criados por Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas, respetivamente, começaram a influir diretamente e de forma decisiva na opinião pública. Portas conseguiu especificamente contribuir para a queda do cavaquismo. Era um novo tipo de jornalismo que praticava, assumidamente de direita, um jornalismo de investigação tendencioso, do género Correio da Manhã, mas inteligente do tipo Expresso, e que formava uma combinação apelativa e única. Não se tratava de uma direita passiva e reservada, como era típico ver no PSD e no CDS, mas de uma direita de protesto, ativa e pomposa, que atacava tudo e todos, substituindo-se à esquerda radical como grande força de indignação. Na comunicação social, tínhamos Portas, o "anarquista de direita". Na política, tínhamos elementos de uma juventude frequentadora de cafés, muito ligada à cultura e presença assídua no debate jornalístico, desprendida do típico discurso politicamente correto, ideologicamente situada no liberalismo (economicamente liberal, socialmente conservadora) e que tinha elementos como Marcelo, Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, entre tantos outros, uma amálgama de anticavaquistas que vinham procurar deixar o seu lugar na história.


Portugal era um país que, apesar de já dominado pelo centro-direita (Cavaco Silva fora eleito sucessivamente em três eleições legislativas), não tinha uma direita culturalesca, muito liberal e muito conservadora ao mesmo tempo, hostil à esquerda, com pouco espaço para consensos políticos ou aproximações ideológicas. A partir daí, esse movimento foi crescendo, conseguindo chegar a mais pessoas ao longo do tempo, sempre com a mesma base central de apoio - jovens, escritores, artistas e parte significativa da comunicação social. Ao mesmo tempo, o CDS tornava-se PP, canalizando muitos votos dos que antigamente iriam ou para o PSD, ou para o PPM, ou seriam votos brancos ou nem sequer seriam votos. O PSD contou com uma mudança deste género mais tarde, com Marcelo, sem grande sucesso. Tanto Durão, como Santana, como Manuela Ferreira Leite não se aproximavam deste modelo, fazendo parte da linha tradicional do partido, e houve uma altura em que, tendo Portas saído do PP em 2005, não havia representação partidária para o movimento. Nestas alturas, perdia visibilidade e folgo. Em 2006, O Independente fechou, e no mesmo ano Cavaco era eleito para a Presidência da República. Mas, um pouco mais tarde, o movimento iria reerguer-se e reconfigurar-se, alterando a sua estrutura e sobretudo a sua substância ideológica.

Entretanto, do outro lado da barricada, o PS conseguira um importante rejuvenescimento, começando com Guterres (1995-2002), que juntara a seu lado jovens promissores como José Sócrates, António Costa, António José Seguro, Francisco Assis, entre muitos outros. Era, do lado da esquerda, o equivalente à cultura de direita, sem conseguir contudo o monopólio do espaço político ou o domínio da comunicação social. Mas estava muito ligada à cultura, e era ideologicamente progressista da mesma maneira que o movimento dos anos 80 era liberal e conservador. Uma esquerda "burguesa", surgindo por volta da mesma altura em que a direita "burguesa" desaparecia, e que contaria com um apoio entusiástico de grande parte da população, então entediada com os governos de Durão (2002-04) e sobretudo de Santana (2004-05). Seria determinante, este último, para a vitória de José Sócrates nas eleições legislativas de 2005, com maioria absoluta. Triunfava então essa esquerda também ela culturalesca, embora discreta, não contando com o estilo aceso e exorbitante de Portas e companhia.

A governação de José Sócrates, sobretudo no seu segundo mandato (2009-11), contribuiu decisivamente para o desaparecimento deste entusiasmo pelo "novo" PS (agora até certo ponto renascido, nas mãos de António Costa, ele próprio muito ligado à cultura, frequentador de salões, de cafés e de salas de cinema). Em 2011, a cultura de direita reapareceu em força, atingindo o seu apogeu a partir de 2014. O Independente fechara, é certo, mas surgira um jornal tão ou mais relevante, muito mais discreto na sua abordagem, conseguindo chegar a um público muito mais extenso, com uma influência determinante na opinião pública. Falamos, claro, do Observador, que teve períodos particularmente decisivos como foi com as reportagens sobre a Grécia, sobre Sócrates e, agora, sobre as legislativas. Com comentadores importantes, mas assumidamente anti-esquerda (mais do que de direita), como José Manuel Fernandes, o Observador foi uma notícia agradável para a direita e péssima para a esquerda, que não tinha uma presença na comunicação social desta dimensão e calibre, e só o PCP contava com uma estrutura verdadeiramente equivalente, quer na Festa do Avante!, quer nos media propriamente ditos.

Além do Observador, surgiram, um pouco por todo o lado, figuras importantes desta nova cultura: João Miguel Tavares na TVI/TSF e no Público, Henrique Monteiro e Henrique Raposo no Expresso, Mário Crespo e sobretudo José Gomes Ferreira na SIC, José Rodrigues dos Santos na RTP, Manuela Moura Guedes na TVI, entre muitos outros. A TVI tivera uma viragem à direita com José Eduardo Moniz, tornando-se porta-voz da oposição a Sócrates na sua governação, e o Público tivera o mesmo durante a direção de José Manuel Fernandes. Mas mais importante revelou ser o Correio da Manhã, dirigido por Octávio Ribeiro, com manchetes tendenciosas e um jornalismo pouco convencional, à moda do Sun no Reino Unido e da Fox News nos EUA, e que ganhou um relevo político incontornável. Um pouco por todo o lado, a direita voltara para ficar.

A cultura de direita regressara, mas com profundas alterações. Continuava a direita ligada aos jovens, com forte implantação nas universidades e nos colégios privados, e à cultura. Mas não se resumia à direita liberal a cujo início assistíramos nos anos 80. Aquele movimento marcara a tendência, hoje dominante na direita, do "economicamente liberal, socialmente conservador", mas depois de 2012 este último aspeto acentuou-se. O novo movimento não contava só com os assumidamente liberais ou libertarians. Tinha agora, sobretudo entre os mais jovens, o forte apoio dos mais ligados à Igreja, antigos cristãos-democratas ou sociais-democratas. Além disso, por oposição ao anacronismo da direita liberal de Portas e dos anos 80, a direita encontrava agora um enquadramento moral, incutido pela comunicação social e encorajado pelo Governo PSD/PP, que tomara posse em 2011, depois do falhanço político da governação socialista. O discurso, por eles favorecido, era o da "década perdida": com os socialistas no poder, as políticas expansionistas, de cariz keynesiano, tinham levado a Europa ao desastre. Ao mesmo tempo que Passos Coelho e, sobretudo, Paulo Portas, agora de novo no governo, proclamavam abertamente o falhanço brutal da esquerda, pela Europa fora acontecia o mesmo: no Reino Unido, Tony Blair e, depois, Gordon Brown eram julgados pela crise económica depois de 13 anos de governação à esquerda e David Cameron, dos Tories, era eleito primeiro-ministro (sendo reeleito, em 2015, com o mesmo discurso, contra Ed Milliband); na Grécia, o PASOK era acusado de um buraco avassalador nas contas públicas, e a Nova Democracia, de direita, subia ao poder, em 2012; na Espanha, o mesmo acontecia com Zapatero, tendo Rajoy, do Partido Popular, subido ao governo em 2011.




À frente destas mudanças, e encorajando-as com todo o entusiasmo, estava a Alemanha. E seria a atitude da Alemanha que marcaria esse traço distinto da nova direita, um enquadramento moral, muito rigoroso e bem delineado. A teoria da "década perdida" surge precisamente com a Alemanha, cerca de 2010, quando se descobre o buraco nas contas públicas gregas, marcando o início da crise das dívidas soberanas, que alastra à Irlanda, a Portugal, à Espanha e à Itália. Em 2009, a Comissão Barroso decidira apostar por uma política expansionista, de investimento público, para responder à crise. Face ao suposto falhanço desta política, Angela Merkel exige uma mudança de política. Na ótica da rigorosa moral alemã, onde a palavra "dívida" (teilen) quer dizer "culpa", os países do Sul da Europa andavam a viver acima das suas possibilidades e, estando em dívida, tinham de pagar por isso. O sofrimento que lhes seria exigido com os programas de resgate era, por isso, proporcional aos benefícios que tinham recebido sem por eles trabalharem. Esta perspetiva moral, derivada de Kant, contribuíra para a prosperidade económica da Alemanha, e deveria ser tomada como exemplo por parte dos outros países.

Foi assim reconhecido, aliás, por várias figuras importantes, alemães incluídos. Em Abril de 2014, a prestigiada revista The Economist publicava uma análise do que dizia ser a lei da economia europeia, dizendo: "German legalism is hampering rational crisis-management", quer dizer, medidas importantes de combate à crise, como o investimento na economia e a indispensável reestruturação da dívida, eram atropeladas pela teimosia de Merkel, do seu Ministro das Finanças Wolfgang Schauble, e dos prussianos de velha guarda do Bundesbank, o banco central alemão. Acrescentava-se, nesta revista: "Some say economics in Germany is treated as a branch of moral philosophy". Assim se explicariam não apenas a atitude perante a Grécia, no início deste ano, como também a feroz oposição movida contra Mario Draghi no seu programa de Quantitative Easing, começando em 2012.

A pouco e pouco, este discurso foi chegando a outras partes da Europa. Onde esta cultura não existia, como em Portugal, a filosofia da teilen foi apoiada por outra, a que eu costumo chamar de lógica dos números. Talvez o maior legado da direita no século XXI, esta lógica substituiu a "visão política da política" por uma visão economicista da política, deixando de se ter as pessoas como prioridade, para se olhar apenas para os números. Défice, dívida, exportações, desemprego, tudo passaria a ser tratado como estatística, e não como a realidade viva, volátil, humana que verdadeiramente é. Esta lógica dos números foi a que contribuiu para Passos Coelho subir ao poder e para estar, depois de quatro anos de austeridade, empatado nas sondagens com António Costa. A nova cultura de direita tinha, com efeito, um enquadramento de tal forma convincente que qualquer alternativa parecia não existir. Desta forma, aqueles que se diziam cristãos-democratas, situados tradicionalmente no centro-direita, teriam de votar na única possibilidade que lhes era apresentada, a direita dos números, porque a outra, além de ser de esquerda, era completamente surreal, radical e irrealista. E quem fizesse o contrário arriscava-se a ser criticado, humilhado, insultado, como aconteceu, entre nós, com Freitas do Amaral, histórico líder do CDS, que dizia, em entrevista à Visão, "hoje, só com o PS", pegando numa conhecida frase de Churchill: "às vezes, é necessário mudar de voto ou de partido, para não ter de mudar de princípios".


Aquilo a que assistimos hoje é um fenómeno estranho, e muitas vezes contraditório. A contradição surge porque os apoiantes desta nova cultura, dizendo-se de direita, misturam direita do século XX com direita deste século, não vendo diferenças entre uma e outra, quando na verdade elas são muitas e têm muita relevância. Quem se lembra de Kennedy? Esse ídolo político, talvez o mais unânime de todos, seguido ao mesmo tempo por esquerdas e direitas. Quem se lembra de um debate contra Nixon, em 1960, em que o futuro Presidente Kennedy dizia, abertamente, que não queria saber da dívida pública? Quem se lembra de Adenauer, da CDU alemã (sim, a de Merkel), das nacionalizações, do investimento público, do Plano Marshall? E Thatcher? Não aumentou ela a despesa pública, como escrevi noutro artigo? A contradição é notória. Hoje, quase não existe democracia cristã, e ela certamente não se insere no quadro em que Passos Coelho se move (muito menos no do PP). Se existem cristãos-democratas, é o Papa, em primeiro lugar, e, no espaço da política, Jean-Claude Juncker, eleito Presidente da Comissão Europeia, que em vão tentou alterar o estado de coisas na Europa. Quanto à social-democracia, o PSD deixou de ser social-democrata desde os tempos da AD, e já ninguém se lembra do PSD de centro-esquerda de Sá Carneiro, que via no exemplo nórdico um modelo político e um motivo de inspiração (a propósito, vale a pena ler um artigo de Francisco Assis, exatamente sobre a social-democracia e a democracia cristã nos dias de hoje).


A cultura de direita apagou estas alternativas do espetro político. Elas sobraram para o lado do PS, que se foi, lentamente, convertendo um pouco para a direita, exatamente num esforço conciliatório face às alterações verificadas na sociedade, fruto da globalização, da modernização. O PS, que em tempos se aproximara do marxismo, tornou-se num saco onde cabiam não só os sociais-democratas ou "socialistas democráticos", mas também os cristãos-democratas, os "centristas", os católicos progressistas e até alguns liberais e nacionalistas. Face às mudanças ocorridas na direita, e se não fosse o brainwashing da comunicação social, seria difícil criticar Freitas pela decisão de votar PS - mas também outros históricos como Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, entre muitos outros.

Apesar de todo o monopólio exercido sobre a comunicação social, apesar da lógica dos números, ainda assim a nova direita não conseguiu erradicar as alternativas do mapa político, por muito que Passos e Portas tentassem por cá, e a Alemanha na Europa. O descontentamento com a situação, com o austeritarismo de Berlim e de Bruxelas, com a pobreza, a fome e a humilhação, levou a uma renovação da esquerda em muitos países (e, noutros casos, do extremismo neonazi). Um pouco por todo o lado surgiram novos partidos, novos movimentos de cidadãos que tinham, em comum, o objetivo de pôr termo à austeridade e, de um modo mais amplo, reformar a política. Em Portugal, em muito devido à comunicação social, esta mudança não se verificou à dimensão com que ocorreu em outros países, mas ainda assim surgiram partidos como o Livre, na esquerda, e o Nós, Cidadãos, no centro. Em Espanha, depois de surgir o Podemos e o Nos, Ciudadanos, as eleições para as regiões autónomas em 2015 terminaram com vitórias de coligações de esquerda e de independentes um pouco por toda a parte. Na Grécia, caso mais mediático, o SYRIZA venceu as eleições em 2014, constituindo governo em 2015, com Alexis Tsipras como primeiro-ministro. Mais recentemente, no Reino Unido, depois da derrota de Ed Milliband, Jeremy Corbyn foi eleito líder do Labour, revelando uma viragem radical à esquerda do histórico partido trabalhista.

A estas mudanças, a direita reagiu com ferozes ataques, quando não com desprezo. Passos Coelho chamou ao programa do SYRIZA um "conto de fadas". E, desde o primeiro dia, a União Europeia reagiu à vitória daquele partido como uma afronta, opondo-se a qualquer proposta dos gregos. Na televisão e nos jornais, o SYRIZA aparecia como um partido radical: no Observador, José Manuel Fernandes escrevia: "Há um equívoco na crise grega: a ideia de que o Syriza só quer acabar com a austeridade. Antes fosse assim. O seu radicalismo e 'linhas vermelhas' têm muito mais a ver com o mito da 'luta de classes' ". Noutra notícia, o título dizia, com toda a imparcialidade do mundo: "50 dias de Syriza. Das promessas ao mundo real". José Gomes Ferreira enchia o seu comentário na SIC e na SIC Notícias de desprezo pela vitória, de previsões de que era inevitável o falhanço do programa de governo de um partido radical. Os radicais do SYRIZA. As "crianças", como viria a dizer Christine Lagarde, do FMI. Este SYRIZA radical tinha, como propostas (ver aqui), a resposta à crise humanitária (radicalismo), a recuperação económica e a promoção de justiça fiscal, um plano para a recuperação do emprego e a reforma do sistema político. E a restruturação da dívida, sim. Sem ela, a dívida continuaria a ser insustentável.


Mas o SYRIZA chocou com o modelo político, económico, ético-moral da Alemanha e, por intermédio da Alemanha, de toda uma Europa subserviente, alinhada com Berlim em todas as questões. Quando o Podemos venceu as eleições, a comunicação social foi buscar detalhes obscuros do passado de cada um dos seus dirigentes, e mal encontrassem um, publicavam-no, como foi com um vice-presidente que se referira aos pormenores "nazis" escondidos nas mensagens dos filmes da Disney. Cá, não tendo surgido novos partidos, as atenções viraram-se para António Costa. Ataques pessoais, insultos, comparações a Sócrates, etc. Em Inglaterra, foi mais do mesmo com Corbyn: ainda hoje, o The Independent destacava uma declaração do Mayor de Londres dizendo "This is turning into a national joke", quando foi noticiado que Corbyn não fora ao Campeonato Mundial de Rugby.

O que justificaria esta reação por parte da direita? Em primeiro lugar, o medo. O medo de perder o poder, também o medo genuíno das propostas desta nova esquerda. Em segundo lugar, o ódio. O ódio à esquerda, incutido nas suas consciências pela cultura de direita a que nos habituámos. Mas, olhando para as propostas do SYRIZA, e também de Corbyn, o que é que teriam verdadeiramente de radical? Em outros tempos, seriam apenas típicos programas sociais-democratas. Talvez Corbyn fosse o PS antes de meter o marxismo na gaveta, mas ainda assim não seria, pelos padrões daquela época, um verdadeiro radical. Hoje não há dúvida de que a política teve uma viragem significativa à direita, mas isso não quer dizer que as alternativas à esquerda deixem de fazer sentido.

Para os que têm como ídolos políticos figuras como Churchill, Kennedy, Adenauer ou Sá Carneiro, radical deveria ser, não o programa de Corbyn, ou de Tsipras, mas sim o modelo - esse, sim, radical - dessa direita, esse austeritarismo de contornos ético-morais que ameaçam destruir tudo aquilo que foi construído pela humanidade no século XX. O Estado Social, a União Europeia, a solidariedade e a justiça social. O Estado requer uma reforma, sem dúvida nenhuma. Necessita de se adaptar aos novos tempos. Mas reforma do Estado não significa aquilo a que estamos a assistir hoje. E a cultura de direita está a levar-nos para um lugar muito perigoso, muito mais perigoso do que Corbyn ou o SYRIZA nos poderiam levar.


É caso para perguntar, o que é que Churchill acharia de tudo isto? Ele que se bateu por uma Europa solidária e unida. Ele que deu desenvolvimento ao Estado Social, lançado pelo Labour no Reino Unido, em 1945. Ele que viu os perigos da crise económica, do extremismo a que ela levou, o fascismo, o nazismo, hoje, a Frente Nacional francesa, a Aurora Dourada grega. As manchetes de jornais não têm fotografias de Le Pén, ou de ataques da extrema-direita, mas dos partidos "radicais" que vão canalizando votos de protesto e que contam com soluções, boas ou más, mas legítimas e coerentes.

O que estes partidos de esquerda representam não é o radicalismo extremista, mas a oposição corajosa, quiçá temerária, à lógica dos números, ao domínio alemão, à situação drástica que hoje se vive, que não se vê nos jornais, mas que até as estatísticas não conseguem esconder, a pobreza, o desemprego, o endividamento, tudo isso. O personalismo ético, princípio basilar da democracia cristã, da social-democracia, do liberalismo clássico, do Estado de Direito, foi completamente posto de lado, substituído por um capitalismo que já não é "selvagem", mas pensado, estruturado em torno de uma ideia, de um modelo, com células espalhadas pelos setores-chave da sociedade. Com todas as consequências negativas que hoje sentimos.

As eleições em Portugal servirão para virarmos a página a este momento triste que hoje vivemos. Talvez um dia esta cultura de direita desapareça, e as pessoas possam novamente reparar naquilo que se passa, naquilo a que este liberalismo nos levou nos últimos dez anos, naquilo em que nós nos tornámos, enquanto Europa, enquanto Estados, enquanto pessoas.

Um dia, talvez...

"I never worry about action, but only inaction"
Winston Churchill



















quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Supply & Demand

Ao longo desta pré-campanha eleitoral, Pedro Passos Coelho tem dito, relativamente às propostas do PS para a próxima legislatura, que estas seguem um rumo diverso do tomado pela coligação, na medida em que, enquanto o programa económico dos socialistas faz crer que a recuperação económica deve repousar na procura, o programa do atual Governo defende o crescimento com base nas exportações, dizendo que outra opção seria "irrealista". E tem-se justificado apontando a pequenez do nosso mercado nacional.

Agradou-me, de forma sincera, a forma como o primeiro-ministro expôs esta diferença, sobretudo nas entrevistas que tem dado, a começar pela que deu à SIC no início do verão. Em vez de ataques pessoais, de ironias ou demais figuras estilísticas, Passos Coelho disse somente aquilo que as pessoas precisavam de ouvir: a distinção, efetivamente real, e de base ideológica (pela primeira vez), entre duas alternativas credíveis e opostas. Ficou-se a perceber, desta maneira, que o PS era uma verdadeira alternativa, algo que o PSD se recusava a aceitar. Aceitou-se, pelos vistos, pela boca do seu líder.

Faz parecer que a política voltou a Portugal e que, depois de quatro anos asfixiados pela troika, pudemos finalmente respirar um ar bastante mais ligeiro, embora não inteiramente puro. Não se podem esquecer, para esse efeito, os escândalos que têm vindo a abalar a elite do nosso país: Sócrates, Relvas, o DDT, para não falar das suspeitas com Marco António Costa, Maria Luís Albuquerque - swaps - e, sim, Pedro Passos Coelho - Tecnoforma, Segurança Social, e por aí fora. E, também, o abismo catastrófico entre a classe política e a sociedade civil, a submissão do interesse nacional aos interesses económicos e, por último, a forte dependência de uma Europa sem visão nenhuma. Um ar mais ligeiro, mas não puro, porque o país não precisa apenas de alternativas, precisa, sim, de uma reforma estrutural, profunda e transversal.

Mas deixemos por ora o que ficou por fazer e congratulemo-nos com o nosso retorno à política com ideias e com debate, por muito impura que ela ainda esteja. Quais as opções económicas de Pedro Passos Coelho e de António Costa? Qual delas a melhor? Recordemos: crescimento baseado nas exportações (chamemos-lhe supply-side economics), e crescimento baseado na procura (demand-side economics). Os nomes em itálico não fui eu que os criei, obviamente; constituem, sim, as duas mais importantes teorias macroeconómicas do mundo moderno.

Vejamos, então. Pedro Passos Coelho, centro-direita, bebe nos ensinamentos de Adam Smith, pai da economia moderna, fundador do liberalismo económico e grande expoente do liberalismo político. "Fazendo o melhor para mim, faço o melhor para a sociedade". O Estado mínimo. O mercado livre. Etc. Etc. O século XIX é dominado por esta ideia, com algumas crises ("cíclicas") pelo meio, e esbarra apenas na Grande Depressão de 1929. Segue-se Roosevelt, presidente dos EUA, que traz consigo o 'New Deal' e, portanto, o keynesianismo. A base económica para a social-democracia e a democracia-cristã. Adenauer, Brandt. Hoje, António Costa. Depois da Segunda Grande Guerra, vêm os Trinta Gloriosos, até à crise petrolífera de 1971. Regressa-se então ao liberalismo, aperfeiçoado, adequado às circunstâncias dos anos oitenta. Friedman e a Escola de Chicago. Tatcher, Reagan, Cavaco. Hoje, Pedro Passos Coelho. E, também, Durão Barroso, Merkel, os mercados, o capitalismo, o mundo em geral. Supply-side economics, de 1971 até hoje.

Situemo-nos, agora, em 1929. A maior crise que o mundo já vira. A irmã mais velha da crise de 2008, tanto que esta foi por muitos denominada de Grande Recessão. A Black Friday. Grande Depressão: falências em cadeia de bancos e empresas, aumento drástico do desemprego (de uma média de 3% para 25% em quatro anos), queda a pique da produção, e incapacidade de resposta pelos governos, mormente pelo Executivo norte-americano de Herbert Hoover. Soa familiar? É verdade, aquilo que sentimos na pele já muitos tinham sentido naquele tempo, até mais do que nós, e só na Grécia parece haver uma situação verdadeiramente semelhante - falo de pobreza, de sopas dos pobres, de 30% da população abaixo do limiar da pobreza.

1933. Um país na miséria e à beira da catástrofe. Hoover decidira aumentar os impostos e reduzir a despesa para estabilizar as contas públicas. O povo norte-americano decide retirar-lhe o poder e eleger Franklin Delano Roosevelt. Numa primeira fase, o novo presidente não se deixa afastar muito da ortodoxia. É interessante fazer a analogia: digamos que enquanto Hoover ultrapassou o 'memorando', Roosevelt restringiu-se ao estritamente necessário (familiar outra vez?). Austeritarismo contra rigor orçamental. É verdade, os dois termos são diferentes. Mas deixando-me de comparações, que uns ou outros entenderão como subliminares analogias, Roosevelt, em 1933 e 1934, não fez aquilo por que ficou conhecido na História, muito pelo contrário. Três aspetos da sua política. Primeiro: reforma bancária. Regulamentar os bancos. Encerrá-los para evitar fugas de capitais, garantir o reembolso dos depósitos privados e proteger as hipotecas das habitações. Segundo: reforma fiscal. Baixa de salários na função pública e das pensões dos veteranos de guerra que permitem ao Estado angariar quinhentos milhões de dólares. Terceiro: reforma monetária. Saída do padrão-ouro e desvalorização da moeda.

Com contas públicas estabilizadas, o que está longe de significar "obsessão pelo défice", entramos na segunda fase da governação, alguns meses depois da subida ao poder. O presidente deixa-se então influenciar por um brilhante economista britânico, John Maynard Keynes - o homem que teria um papel importantíssimo, ironia das ironias, na criação do FMI. O keynesianismo. Hoje, Krugman, Stigltiz, e outras caras nobres da economia. Para não saturar o leitor, remeto-me ao essencial daquela teoria económica. Para Keynes, ao contrário do que era comum pensar, não é a oferta que cria a procura (a famosa Lei de Say, base do liberalismo económico oitocentista), mas sim a procura que cria a sua própria oferta. É a falta de procura que leva à recessão. E, portanto, não é a descida de salários, leia-se o desincentivo à procura, que permite ultrapassar a recessão. A solução está no inducement to invest, investimento na economia, patrocinado pelo Estado. Através de uma política expansionista, alicerçada, primeiro, numa redução das taxas de juro do banco central e, segundo, num investimento estatal da infraestrutura, o Estado pode aumentar a procura, o emprego, a produção.

Dito isto, importa referir que Keynes acreditava na teoria clássica a longo prazo. Iniciativa individual, mercado livre, liberalismo. Mas em tempos de recessão, como ele dizia, "in the long term, we're all dead", e por isso o Estado procurava intervir para garantir uma subida da procura.

Rigor orçamental. Em 1933, o New Deal. Primeira fase. Objetivo: relançar a economia e combater o desemprego. De novo, três aspetos. Primeiro aspeto: política de grandes obras públicas. Infraestrutura para absorver desemprego. Barragens, vias-férreas, aeroportos, escolas e habitações. Segundo aspeto: programas rurais e agrícolas. Controlos de produção, aumento dos preços, indemnizações aos agricultores. Terceiro aspeto: recuperação industrial. Estímulos do Estado às grandes empresas. Fixação de preços, salário mínimo, liberdade sindical. Abolição do trabalho infantil. Segue-se o New Deal, segunda fase. Objetivo: proteger "o último homem na base da pirâmide". O primeiro Estado Social (e não o de Bismarck, como alguns teimam em defender). Primeiro aspeto: promoção dos sindicatos, direito de greve. Segundo aspeto: Social Security Act. Criação de um sistema de pensões e auxílio aos pobres. Fundo de desemprego. Terceiro aspeto: Fair Labor Standart Act. Universalização do salário mínimo e redução do horário semanal.

Enfim, tudo isto em plena crise. Consequências: redução do desemprego (auxiliado, é certo, pela Segunda Grande Guerra) e crescimento económico. Note-se que mesmo com todo este investimento, em que o peso do Estado na economia norte-americana subiu exponencialmente, a dívida pública manteve-se estável, só vindo a subir a galope com o esforço de guerra, a partir de 1941. Depois da guerra, com o auxílio dos Estados Unidos sob a forma de constantes injeções de capital, foi a vez da Europa crescer. O Plano Marshall propiciou o fim da recessão e o início dos Trinta Anos Gloriosos. Nunca na sua história o Ocidente assistiu a um período de tal prosperidade.

Trinta anos depois... 1971. A crise do petróleo dá os primeiros sintomas de que algo não está bem. O exagerado peso do Estado, alimentado por nacionalizações e pela universalização da Segurança Social e da saúde gratuita, atrofia agora a economia. Milton Friedman adverte para a "ingenuidade" dos keynesianos. E com razão, diz Margaret Thatcher, que em 1979 é eleita primeira-ministra do Reino Unido. Friedman é o pai do monetarismo, que bebe nos ensinamentos de Keynes mas contraria as suas conclusões, dizendo que o Estado só pode criar emprego e subir a procura quando haja inflação substancialmente elevada. Monetarismo porque, apontando para a estagflação (fenómeno da crise dos anos 70), a melhor maneira de criar inflação é um aumento da quantidade de moeda disponível. Thatcher, Reagan, Cavaco Silva (supostamente). De 1981 a 2008 seguir-se-á aquilo a que os economistas norte-americanos chamaram de Washington Consensus, por oposição à Golden Age (Trinta Gloriosos): o liberalismo monetarista suplanta o keynesianismo.

Reino Unido, anos oitenta. A Dama de Ferro em Downing Street. De 1979 a 1990, o PIB aumenta 23%, Qual o segredo para o crescimento? Três aspetos. Primeiro aspeto: descida dos impostos e corte nos salários. Desregulamentação no setor bancário e um pouco por toda a economia. Liberalismo puro e duro. Segundo aspeto: privatizações. O Estado arrecada 29 mil milhões de libras com indústrias privatizadas e 18 mil milhões com vendas de habitações e infraestruturas estatais. Terceiro: reforma do Estado social. Não, não são só cortes. Há de tudo: descida do investimento do Estado no comércio, na habitação, nos transportes. Mas veja-se bem: Thatcher, esse expoente máximo da aversão ao keynesianismo, que se propõe inclusivamente eliminar o Estado Social, esta mesma Thatcher aumenta o investimento na Saúde, na criação de emprego, na Segurança Social, na Justiça. Nos onze anos em que é primeira-ministra, balanço final, a despesa pública sobe 13% em termos reais.

2007. Bolha imobiliária. Em 2008, crise global. Resposta dos Estados Unidos à crise (já iremos à Europa). Três aspetos. Primeiro: política monetária expansionista para evitar a deflação. A Reserva Federal segue estritamente os ensinamentos de Friedman. Friedman recuperado dos mortos. Segundo aspeto: Nova regulamentação na banca e na economia. Obama à moda de Roosevelt. O balanço da desregulamentação fora catastrófico, com "Lobos de Wall Street" à espreita de todos os lados (veja-se o nosso Dono Disto Tudo). Terceiro: investimento na economia. Em 2009, Obama decide injetar 700 mil milhões de dólares na economia. Na educação, na saúde, na infraestrutura, em descidas de impostos e em incentivos a empresas e a indivíduos. Keynes caminha pelas ruas de Washington. Seguem-se outros estímulos nos anos seguintes. Balanço final: o desemprego passa de 10% em 2009 para 6,5% em 2013 (na UE a 28 passa de 7% para 11% no mesmo período). A recessão económica nos EUA termina em Junho de 2009 (na Europa, o ciclo começou-se a inverter em meados de 2013, e de forma muito ténue). E, o destino tem destas ironias, a dívida pública desce alguns 40%, de 2008 para 2013 (na Zona Euro, em cruzada contra a dívida, assiste-se a um aumento de cerca de 30%, tendo em conta que na Grécia sobe 50%, na Irlanda sobe 80% e por cá também sobe quase 50%). O défice, é verdade, não desce nos Estados Unidos, comparativamente a 2009. Por cá, temos de vez em quando os nossos superavits, bons alunos, de facto. Entre eles e nós, tente-se ver quem está melhor.

Bem, a Europa. Em 2009, temos Keynes. E o BCE, com Draghi, segue Friedman, ultrapassa-o, e é isso que nos salva. Mas nem Friedman pode agradar a gregos e troianos, e neste caso vemos os alemães, Bundesbank, Schauble, esses campeões do ultraliberalismo, a repudiarem a linha económica de quem foi, efetivamente, o precursor do capitalismo "selvagem" de hoje. Nem Friedman toca aos frios corações dessa elite económica que nos orienta e nos domina, nos aplaude enquanto "bons alunos" e nos humilha quando feitos "bons rebeldes", como é o caso da Grécia. Mas voltemos a 2009. A Comissão Europeia de Durão Barroso lança um plano de recuperação de 200 mil milhões de euros para investir na economia. A Portugal chegam dois mil milhões. Na Alemanha de Merkel, como cá, investe-se na infraestrutura. Parêntesis: as opções do Governo Sócrates não foram, na sua maioria, as melhores, com investimento exagerado na infraestrutura, TGVs, segundas travessias, PPPs, etc. (a solução deveria passar sobretudo por incentivos e apoios às empresas, à banca e às famílias, e por reformas estruturais como algumas das que foram mais tarde realizadas).

2010. Buraco nas contas gregas. Fugas ao fisco, défice e dívida a derrapar, essas coisas todas. A crise alastra. Já não é (só) a recessão: é a crise das dívidas soberanas. Barroso recebe raspanete de Merkel, do género "há que aprender com os erros do ano passado" e já agora cortar em tudo o que se investiu. Abril de 2010: (primeiro) resgate na Grécia. Em Novembro de 2010, é a vez da Irlanda. E em Maio de 2011, a troika chega à terra de Camões. Portugal é o "bom aluno", e por isso o balanço da situação europeia nestes últimos anos pode aqui ser feito com base no nosso bom exemplo - conscientes do risco de que o leitor fique com falsas impressões, porque o (in?)sucesso do nosso programa não tem comparação possível com a tragédia grega, contrapondo-se dois exemplos, o bom e o mau, de programas de resgate europeus, e aqui não falaremos desse quase-apocalipse que por aí se vive.

Portugal. Já dissemos que o programa de Sócrates falha. 2011. Pedro Passos Coelho sucede a José Sócrates em São Bento. Nenhuma austeridade, nenhum corte nos salários ou subida nos impostos, prometera. Promessas que são demagogia. Não se trata de um juízo de valor, mas de um facto, visto que o memorando fora assinado por PS e PSD - leia-se, Pedro Passos Coelho - e no memorando estavam contidos... Cortes nos salários e subidas de impostos. "Reforma do Estado". Sabemos hoje que não o foi, também é facto assente, e não juízo de valor. Houve, sim, cortes. Nos custos intermédios, cortou-se aqui e ali, mas a razão de tanto se criticar o aparelho do Estado continua lá.

Análise dos principais indicadores. Balanço final. Desemprego: 12,4% no 1º trimestre de 2011, 13,7% no 1º trimestre de 2015. Economia: só em 2014 termina a recessão e o PIB voltou a crescer (0,9% esse ano). Pobreza: 27,4% da população abaixo do limiar de pobreza (em 2013, com plausível aumento até agora). Dívida: de 111% em 2011 para 125% em 2015 (estimativa). Os juros baixaram, mas endividamo-nos para pagar uma dívida insustentável. Sem conversas de reestruturação, claro, porque isso é incompatível com a União Europeia (de Monnet, de Delors, da solidariedade).

Outra vez Portugal. O Governo depara-se com um adversário à altura, o Tribunal Constitucional. O memorando é para cumprir, concordam os dois adversários. São forçados a concordar, tal como nós todos. Mas enquanto o primeiro afirma que quer fazer mais (para ganhar mais "confiança" nos mercados), o segundo rejeita contundentemente esta hipótese. E, com 27,4% de pobres num país "desenvolvido", até que se entende esta decisão.

Voltemos ao início. Falava de como me agradava a o discurso do primeiro-ministro nesta pré-campanha. Pela primeira vez, tomou um lado, e não afirmou a sua opção como única. Mas esse discurso, de uma única hipótese, um único caminho, sem qualquer alternativa, já está tão enraizado na mente dos portugueses, tal como por essa Europa fora, influenciados por um brain washing da direita (leia-se, dos partidos governantes, da comunicação social, do mercado, do capitalismo) nestes últimos dez anos, já está tão enraizado, dizia, que é muito difícil contorná-lo, é muito difícil ver que naquela simples resposta Passos Coelho assumiu que existe efetivamente uma alternativa, que não é, como o vice-primeiro-ministro diz, voltar atrás, em direção à catástrofe, mas assumir um risco e seguir em frente.

Supply-side economics. Para Passos é o caminho a seguir. E, dê-se-lhe a devida vénia, as exportações, como pretendia, aumentaram nos últimos anos. Mas este Governo descurou todas as demais componentes básicas da teoria económica que Thatcher primeiro implantou e que por cá o atual Presidente da República procurou seguir. Aumenta as exportações, sim, baixando o IRC e mantendo o IRS elevado, entre outras coisas, de modo a comprimir a procura interna e aumentar a oferta para o exterior. Mas o primeiro-ministro comete um erro profundo: é que nunca, nem Thatcher, nem Cavaco Silva, nem muito menos Reagan, em nenhuma etapa da sua governação, descuraram completamente a procura interna para aumentar o nível e o volume de exportações, para aumentar aquilo que na ideia deste Governo resultará numa economia mais competitiva, mais "aberta ao mundo". Como a China, o Laos, o Vietname, etc., que tal como nós tentam elevar a pobreza ("comprimir a procura") para poder exportar mais, mais até do que a Alemanha, que apesar de ser líder nas exportações, tem um mercado interno dos mais dinamizados do mundo inteiro (embora cada vez menos, fruto das políticas do Governo daquele país).

Não haja a menor dúvida de que o nosso mercado é pequeno. E que a solução para a crise não passaria nunca por um investimento maciço em infraestruturas, aeroportos e barragens, escolas e habitações, como Roosevelt fez nos gigantescos EUA e que Sócrates tentou, sem sucesso, fazer por cá. Também não passará unicamente por outros investimentos na economia, mormente na banca, nas PMEs, nos próprios incentivos ao consumo. Nem passará também por uma interpelação junto da Europa à moda do Syriza - embora estejamos em contextos completamente diferentes, portugueses e gregos. Passará por uma combinação destas medidas, à qual acresce o necessário rigor orçamental, a necessária estabilidade financeira, as indispensáveis reformas estruturais (no mercado laboral, na administração pública, na justiça, etc.) e, sem dúvida nenhuma, as exportações. Mas a base deverá ser a procura, porque a procura permite criar emprego, e o emprego é que relança, efetivamente, a economia. Não passa necessariamente pelo aumento do peso do Estado, com nacionalizações e burocratizações; passa, sim, por investimentos. Keynes lançou o tema, e Friedman não o refutou: dizia ele, recordemos, que a política expansionista teria como objetivo, precisamente, aumentar a procura!

Para além daquelas linhas em que Passos Coelho revelou ter um discurso correto e respeitador, este Governo tem tido tudo menos isso. Existe efetivamente um mito por detrás do discurso deste Governo. Um mito que é facilmente desmentível por qualquer economista, mas que dificilmente nos chega a casa. Vivemos na lógica de que só este caminho existe e que todos os outros são um absurdo, porque contrariam os grandes, os fortes, o mercado, a Alemanha. É a lógica dos números, a falta absoluta de um personalismo eticamente aceitável, a ideia de que fomos nós que metemos o nosso país na crise, e que fomos nós que o tirámos de lá. Num mundo liberal, criado por aquela política dos anos 80, da qual estes governantes são claramente seguidores, eles próprios sabem que tal não é possível. "Faltam à verdade", como dizia Jorge Coelho na Quadratura do Círculo. Ou mentem, nas palavras de meio país. A responsabilidade também foi nossa, mas tratou-se de uma crise global, que exigia uma resposta concertada, e que nós tardámos em ultrapassar, por teimosia e obtuosidade.

Não sou do PS, embora não deixe de ser o partido com que, hoje, mais me identifico. Muitas vezes estive indeciso. E não me considero especialmente um fã de António Costa. Admirei o trabalho que Costa fez em Lisboa, mas como secretário-geral parece que decidiu afastar-se dos holofotes, na altura em que os portugueses mais precisavam dele. Mas recordei-me, ao escrever este texto, da sua ação como Presidente da Câmara, de como conseguiu juntar um investimento inteligente em diversos setores da economia (na restauração, na requalificação urbana, na economia verde, entre outros) com um verdadeiro "rigor orçamental", expressão que gosta de usar (com a redução do endividamento a 0, o aumento das receitas e a diminuição da dívida).

Setembro de 2015. Um mês para as eleições, talvez as mais importantes da nossa história recente. Duas opções distintas. Duas alternativas coerentes, com fundamentos diferentes, e dois rostos diametralmente opostos. Não ficou aqui explícita a forma com que devemos enfrentar a Europa, ou a forma em que esta deve ser remodelada, ou a forma como devemos proceder minuciosamente ao investimento na economia. Mas a escolha é clara e percetível. E sei que a minha também é.

E tanto fica ainda por dizer...