sábado, 19 de setembro de 2015

Números

Em 2012, o Instituto de Ciências Sociais da UL organizou um colóquio cujo tema era "O estado das direitas na democracia portuguesa". Na intervenção que fez nesse evento, António Araújo (não, não sou eu) dissertou sobre aquilo que refere como "A cultura de direita em Portugal", uma história extensa mas pormenorizada de um fenómeno que se iniciou nos anos 80 e que hoje parece ter atingido o seu auge. Uma verdadeira cultura de direita. A propósito, esse texto, cuja leitura recomendo vivamente, pode ser encontrado aqui.


Acontece que temos assistido, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo, a um movimento que tem vindo a dominar não só as consciências de um grande segmento das populações (com particular destaque para os mais jovens, falando por experiência própria), mas também a comunicação social, a cultura, o ensino e os governos. Em que consiste esse movimento? Na unanimização de ideias, na monopolização do dicionário do debate político, com a consequente hostilidade e desprezo por qualquer alternativa que não consista no que é pretendido. Ideias que começaram, nos anos 70, com a social-democracia dos países ocidentais e foram-se desviando progressivamente para a direita do espetro político: nos anos 80, liberalismo, nos anos 90, ultraliberalismo, nos anos 2000, ultraliberalismo "selvagem", e, hoje, aquilo que eu vejo como uma nova construção política, completamente original e distinta das demais.

Este movimento é essa tal cultura de direita. Nos anos 80, tanto o Semanário como O Independente, criados por Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas, respetivamente, começaram a influir diretamente e de forma decisiva na opinião pública. Portas conseguiu especificamente contribuir para a queda do cavaquismo. Era um novo tipo de jornalismo que praticava, assumidamente de direita, um jornalismo de investigação tendencioso, do género Correio da Manhã, mas inteligente do tipo Expresso, e que formava uma combinação apelativa e única. Não se tratava de uma direita passiva e reservada, como era típico ver no PSD e no CDS, mas de uma direita de protesto, ativa e pomposa, que atacava tudo e todos, substituindo-se à esquerda radical como grande força de indignação. Na comunicação social, tínhamos Portas, o "anarquista de direita". Na política, tínhamos elementos de uma juventude frequentadora de cafés, muito ligada à cultura e presença assídua no debate jornalístico, desprendida do típico discurso politicamente correto, ideologicamente situada no liberalismo (economicamente liberal, socialmente conservadora) e que tinha elementos como Marcelo, Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, entre tantos outros, uma amálgama de anticavaquistas que vinham procurar deixar o seu lugar na história.


Portugal era um país que, apesar de já dominado pelo centro-direita (Cavaco Silva fora eleito sucessivamente em três eleições legislativas), não tinha uma direita culturalesca, muito liberal e muito conservadora ao mesmo tempo, hostil à esquerda, com pouco espaço para consensos políticos ou aproximações ideológicas. A partir daí, esse movimento foi crescendo, conseguindo chegar a mais pessoas ao longo do tempo, sempre com a mesma base central de apoio - jovens, escritores, artistas e parte significativa da comunicação social. Ao mesmo tempo, o CDS tornava-se PP, canalizando muitos votos dos que antigamente iriam ou para o PSD, ou para o PPM, ou seriam votos brancos ou nem sequer seriam votos. O PSD contou com uma mudança deste género mais tarde, com Marcelo, sem grande sucesso. Tanto Durão, como Santana, como Manuela Ferreira Leite não se aproximavam deste modelo, fazendo parte da linha tradicional do partido, e houve uma altura em que, tendo Portas saído do PP em 2005, não havia representação partidária para o movimento. Nestas alturas, perdia visibilidade e folgo. Em 2006, O Independente fechou, e no mesmo ano Cavaco era eleito para a Presidência da República. Mas, um pouco mais tarde, o movimento iria reerguer-se e reconfigurar-se, alterando a sua estrutura e sobretudo a sua substância ideológica.

Entretanto, do outro lado da barricada, o PS conseguira um importante rejuvenescimento, começando com Guterres (1995-2002), que juntara a seu lado jovens promissores como José Sócrates, António Costa, António José Seguro, Francisco Assis, entre muitos outros. Era, do lado da esquerda, o equivalente à cultura de direita, sem conseguir contudo o monopólio do espaço político ou o domínio da comunicação social. Mas estava muito ligada à cultura, e era ideologicamente progressista da mesma maneira que o movimento dos anos 80 era liberal e conservador. Uma esquerda "burguesa", surgindo por volta da mesma altura em que a direita "burguesa" desaparecia, e que contaria com um apoio entusiástico de grande parte da população, então entediada com os governos de Durão (2002-04) e sobretudo de Santana (2004-05). Seria determinante, este último, para a vitória de José Sócrates nas eleições legislativas de 2005, com maioria absoluta. Triunfava então essa esquerda também ela culturalesca, embora discreta, não contando com o estilo aceso e exorbitante de Portas e companhia.

A governação de José Sócrates, sobretudo no seu segundo mandato (2009-11), contribuiu decisivamente para o desaparecimento deste entusiasmo pelo "novo" PS (agora até certo ponto renascido, nas mãos de António Costa, ele próprio muito ligado à cultura, frequentador de salões, de cafés e de salas de cinema). Em 2011, a cultura de direita reapareceu em força, atingindo o seu apogeu a partir de 2014. O Independente fechara, é certo, mas surgira um jornal tão ou mais relevante, muito mais discreto na sua abordagem, conseguindo chegar a um público muito mais extenso, com uma influência determinante na opinião pública. Falamos, claro, do Observador, que teve períodos particularmente decisivos como foi com as reportagens sobre a Grécia, sobre Sócrates e, agora, sobre as legislativas. Com comentadores importantes, mas assumidamente anti-esquerda (mais do que de direita), como José Manuel Fernandes, o Observador foi uma notícia agradável para a direita e péssima para a esquerda, que não tinha uma presença na comunicação social desta dimensão e calibre, e só o PCP contava com uma estrutura verdadeiramente equivalente, quer na Festa do Avante!, quer nos media propriamente ditos.

Além do Observador, surgiram, um pouco por todo o lado, figuras importantes desta nova cultura: João Miguel Tavares na TVI/TSF e no Público, Henrique Monteiro e Henrique Raposo no Expresso, Mário Crespo e sobretudo José Gomes Ferreira na SIC, José Rodrigues dos Santos na RTP, Manuela Moura Guedes na TVI, entre muitos outros. A TVI tivera uma viragem à direita com José Eduardo Moniz, tornando-se porta-voz da oposição a Sócrates na sua governação, e o Público tivera o mesmo durante a direção de José Manuel Fernandes. Mas mais importante revelou ser o Correio da Manhã, dirigido por Octávio Ribeiro, com manchetes tendenciosas e um jornalismo pouco convencional, à moda do Sun no Reino Unido e da Fox News nos EUA, e que ganhou um relevo político incontornável. Um pouco por todo o lado, a direita voltara para ficar.

A cultura de direita regressara, mas com profundas alterações. Continuava a direita ligada aos jovens, com forte implantação nas universidades e nos colégios privados, e à cultura. Mas não se resumia à direita liberal a cujo início assistíramos nos anos 80. Aquele movimento marcara a tendência, hoje dominante na direita, do "economicamente liberal, socialmente conservador", mas depois de 2012 este último aspeto acentuou-se. O novo movimento não contava só com os assumidamente liberais ou libertarians. Tinha agora, sobretudo entre os mais jovens, o forte apoio dos mais ligados à Igreja, antigos cristãos-democratas ou sociais-democratas. Além disso, por oposição ao anacronismo da direita liberal de Portas e dos anos 80, a direita encontrava agora um enquadramento moral, incutido pela comunicação social e encorajado pelo Governo PSD/PP, que tomara posse em 2011, depois do falhanço político da governação socialista. O discurso, por eles favorecido, era o da "década perdida": com os socialistas no poder, as políticas expansionistas, de cariz keynesiano, tinham levado a Europa ao desastre. Ao mesmo tempo que Passos Coelho e, sobretudo, Paulo Portas, agora de novo no governo, proclamavam abertamente o falhanço brutal da esquerda, pela Europa fora acontecia o mesmo: no Reino Unido, Tony Blair e, depois, Gordon Brown eram julgados pela crise económica depois de 13 anos de governação à esquerda e David Cameron, dos Tories, era eleito primeiro-ministro (sendo reeleito, em 2015, com o mesmo discurso, contra Ed Milliband); na Grécia, o PASOK era acusado de um buraco avassalador nas contas públicas, e a Nova Democracia, de direita, subia ao poder, em 2012; na Espanha, o mesmo acontecia com Zapatero, tendo Rajoy, do Partido Popular, subido ao governo em 2011.




À frente destas mudanças, e encorajando-as com todo o entusiasmo, estava a Alemanha. E seria a atitude da Alemanha que marcaria esse traço distinto da nova direita, um enquadramento moral, muito rigoroso e bem delineado. A teoria da "década perdida" surge precisamente com a Alemanha, cerca de 2010, quando se descobre o buraco nas contas públicas gregas, marcando o início da crise das dívidas soberanas, que alastra à Irlanda, a Portugal, à Espanha e à Itália. Em 2009, a Comissão Barroso decidira apostar por uma política expansionista, de investimento público, para responder à crise. Face ao suposto falhanço desta política, Angela Merkel exige uma mudança de política. Na ótica da rigorosa moral alemã, onde a palavra "dívida" (teilen) quer dizer "culpa", os países do Sul da Europa andavam a viver acima das suas possibilidades e, estando em dívida, tinham de pagar por isso. O sofrimento que lhes seria exigido com os programas de resgate era, por isso, proporcional aos benefícios que tinham recebido sem por eles trabalharem. Esta perspetiva moral, derivada de Kant, contribuíra para a prosperidade económica da Alemanha, e deveria ser tomada como exemplo por parte dos outros países.

Foi assim reconhecido, aliás, por várias figuras importantes, alemães incluídos. Em Abril de 2014, a prestigiada revista The Economist publicava uma análise do que dizia ser a lei da economia europeia, dizendo: "German legalism is hampering rational crisis-management", quer dizer, medidas importantes de combate à crise, como o investimento na economia e a indispensável reestruturação da dívida, eram atropeladas pela teimosia de Merkel, do seu Ministro das Finanças Wolfgang Schauble, e dos prussianos de velha guarda do Bundesbank, o banco central alemão. Acrescentava-se, nesta revista: "Some say economics in Germany is treated as a branch of moral philosophy". Assim se explicariam não apenas a atitude perante a Grécia, no início deste ano, como também a feroz oposição movida contra Mario Draghi no seu programa de Quantitative Easing, começando em 2012.

A pouco e pouco, este discurso foi chegando a outras partes da Europa. Onde esta cultura não existia, como em Portugal, a filosofia da teilen foi apoiada por outra, a que eu costumo chamar de lógica dos números. Talvez o maior legado da direita no século XXI, esta lógica substituiu a "visão política da política" por uma visão economicista da política, deixando de se ter as pessoas como prioridade, para se olhar apenas para os números. Défice, dívida, exportações, desemprego, tudo passaria a ser tratado como estatística, e não como a realidade viva, volátil, humana que verdadeiramente é. Esta lógica dos números foi a que contribuiu para Passos Coelho subir ao poder e para estar, depois de quatro anos de austeridade, empatado nas sondagens com António Costa. A nova cultura de direita tinha, com efeito, um enquadramento de tal forma convincente que qualquer alternativa parecia não existir. Desta forma, aqueles que se diziam cristãos-democratas, situados tradicionalmente no centro-direita, teriam de votar na única possibilidade que lhes era apresentada, a direita dos números, porque a outra, além de ser de esquerda, era completamente surreal, radical e irrealista. E quem fizesse o contrário arriscava-se a ser criticado, humilhado, insultado, como aconteceu, entre nós, com Freitas do Amaral, histórico líder do CDS, que dizia, em entrevista à Visão, "hoje, só com o PS", pegando numa conhecida frase de Churchill: "às vezes, é necessário mudar de voto ou de partido, para não ter de mudar de princípios".


Aquilo a que assistimos hoje é um fenómeno estranho, e muitas vezes contraditório. A contradição surge porque os apoiantes desta nova cultura, dizendo-se de direita, misturam direita do século XX com direita deste século, não vendo diferenças entre uma e outra, quando na verdade elas são muitas e têm muita relevância. Quem se lembra de Kennedy? Esse ídolo político, talvez o mais unânime de todos, seguido ao mesmo tempo por esquerdas e direitas. Quem se lembra de um debate contra Nixon, em 1960, em que o futuro Presidente Kennedy dizia, abertamente, que não queria saber da dívida pública? Quem se lembra de Adenauer, da CDU alemã (sim, a de Merkel), das nacionalizações, do investimento público, do Plano Marshall? E Thatcher? Não aumentou ela a despesa pública, como escrevi noutro artigo? A contradição é notória. Hoje, quase não existe democracia cristã, e ela certamente não se insere no quadro em que Passos Coelho se move (muito menos no do PP). Se existem cristãos-democratas, é o Papa, em primeiro lugar, e, no espaço da política, Jean-Claude Juncker, eleito Presidente da Comissão Europeia, que em vão tentou alterar o estado de coisas na Europa. Quanto à social-democracia, o PSD deixou de ser social-democrata desde os tempos da AD, e já ninguém se lembra do PSD de centro-esquerda de Sá Carneiro, que via no exemplo nórdico um modelo político e um motivo de inspiração (a propósito, vale a pena ler um artigo de Francisco Assis, exatamente sobre a social-democracia e a democracia cristã nos dias de hoje).


A cultura de direita apagou estas alternativas do espetro político. Elas sobraram para o lado do PS, que se foi, lentamente, convertendo um pouco para a direita, exatamente num esforço conciliatório face às alterações verificadas na sociedade, fruto da globalização, da modernização. O PS, que em tempos se aproximara do marxismo, tornou-se num saco onde cabiam não só os sociais-democratas ou "socialistas democráticos", mas também os cristãos-democratas, os "centristas", os católicos progressistas e até alguns liberais e nacionalistas. Face às mudanças ocorridas na direita, e se não fosse o brainwashing da comunicação social, seria difícil criticar Freitas pela decisão de votar PS - mas também outros históricos como Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, entre muitos outros.

Apesar de todo o monopólio exercido sobre a comunicação social, apesar da lógica dos números, ainda assim a nova direita não conseguiu erradicar as alternativas do mapa político, por muito que Passos e Portas tentassem por cá, e a Alemanha na Europa. O descontentamento com a situação, com o austeritarismo de Berlim e de Bruxelas, com a pobreza, a fome e a humilhação, levou a uma renovação da esquerda em muitos países (e, noutros casos, do extremismo neonazi). Um pouco por todo o lado surgiram novos partidos, novos movimentos de cidadãos que tinham, em comum, o objetivo de pôr termo à austeridade e, de um modo mais amplo, reformar a política. Em Portugal, em muito devido à comunicação social, esta mudança não se verificou à dimensão com que ocorreu em outros países, mas ainda assim surgiram partidos como o Livre, na esquerda, e o Nós, Cidadãos, no centro. Em Espanha, depois de surgir o Podemos e o Nos, Ciudadanos, as eleições para as regiões autónomas em 2015 terminaram com vitórias de coligações de esquerda e de independentes um pouco por toda a parte. Na Grécia, caso mais mediático, o SYRIZA venceu as eleições em 2014, constituindo governo em 2015, com Alexis Tsipras como primeiro-ministro. Mais recentemente, no Reino Unido, depois da derrota de Ed Milliband, Jeremy Corbyn foi eleito líder do Labour, revelando uma viragem radical à esquerda do histórico partido trabalhista.

A estas mudanças, a direita reagiu com ferozes ataques, quando não com desprezo. Passos Coelho chamou ao programa do SYRIZA um "conto de fadas". E, desde o primeiro dia, a União Europeia reagiu à vitória daquele partido como uma afronta, opondo-se a qualquer proposta dos gregos. Na televisão e nos jornais, o SYRIZA aparecia como um partido radical: no Observador, José Manuel Fernandes escrevia: "Há um equívoco na crise grega: a ideia de que o Syriza só quer acabar com a austeridade. Antes fosse assim. O seu radicalismo e 'linhas vermelhas' têm muito mais a ver com o mito da 'luta de classes' ". Noutra notícia, o título dizia, com toda a imparcialidade do mundo: "50 dias de Syriza. Das promessas ao mundo real". José Gomes Ferreira enchia o seu comentário na SIC e na SIC Notícias de desprezo pela vitória, de previsões de que era inevitável o falhanço do programa de governo de um partido radical. Os radicais do SYRIZA. As "crianças", como viria a dizer Christine Lagarde, do FMI. Este SYRIZA radical tinha, como propostas (ver aqui), a resposta à crise humanitária (radicalismo), a recuperação económica e a promoção de justiça fiscal, um plano para a recuperação do emprego e a reforma do sistema político. E a restruturação da dívida, sim. Sem ela, a dívida continuaria a ser insustentável.


Mas o SYRIZA chocou com o modelo político, económico, ético-moral da Alemanha e, por intermédio da Alemanha, de toda uma Europa subserviente, alinhada com Berlim em todas as questões. Quando o Podemos venceu as eleições, a comunicação social foi buscar detalhes obscuros do passado de cada um dos seus dirigentes, e mal encontrassem um, publicavam-no, como foi com um vice-presidente que se referira aos pormenores "nazis" escondidos nas mensagens dos filmes da Disney. Cá, não tendo surgido novos partidos, as atenções viraram-se para António Costa. Ataques pessoais, insultos, comparações a Sócrates, etc. Em Inglaterra, foi mais do mesmo com Corbyn: ainda hoje, o The Independent destacava uma declaração do Mayor de Londres dizendo "This is turning into a national joke", quando foi noticiado que Corbyn não fora ao Campeonato Mundial de Rugby.

O que justificaria esta reação por parte da direita? Em primeiro lugar, o medo. O medo de perder o poder, também o medo genuíno das propostas desta nova esquerda. Em segundo lugar, o ódio. O ódio à esquerda, incutido nas suas consciências pela cultura de direita a que nos habituámos. Mas, olhando para as propostas do SYRIZA, e também de Corbyn, o que é que teriam verdadeiramente de radical? Em outros tempos, seriam apenas típicos programas sociais-democratas. Talvez Corbyn fosse o PS antes de meter o marxismo na gaveta, mas ainda assim não seria, pelos padrões daquela época, um verdadeiro radical. Hoje não há dúvida de que a política teve uma viragem significativa à direita, mas isso não quer dizer que as alternativas à esquerda deixem de fazer sentido.

Para os que têm como ídolos políticos figuras como Churchill, Kennedy, Adenauer ou Sá Carneiro, radical deveria ser, não o programa de Corbyn, ou de Tsipras, mas sim o modelo - esse, sim, radical - dessa direita, esse austeritarismo de contornos ético-morais que ameaçam destruir tudo aquilo que foi construído pela humanidade no século XX. O Estado Social, a União Europeia, a solidariedade e a justiça social. O Estado requer uma reforma, sem dúvida nenhuma. Necessita de se adaptar aos novos tempos. Mas reforma do Estado não significa aquilo a que estamos a assistir hoje. E a cultura de direita está a levar-nos para um lugar muito perigoso, muito mais perigoso do que Corbyn ou o SYRIZA nos poderiam levar.


É caso para perguntar, o que é que Churchill acharia de tudo isto? Ele que se bateu por uma Europa solidária e unida. Ele que deu desenvolvimento ao Estado Social, lançado pelo Labour no Reino Unido, em 1945. Ele que viu os perigos da crise económica, do extremismo a que ela levou, o fascismo, o nazismo, hoje, a Frente Nacional francesa, a Aurora Dourada grega. As manchetes de jornais não têm fotografias de Le Pén, ou de ataques da extrema-direita, mas dos partidos "radicais" que vão canalizando votos de protesto e que contam com soluções, boas ou más, mas legítimas e coerentes.

O que estes partidos de esquerda representam não é o radicalismo extremista, mas a oposição corajosa, quiçá temerária, à lógica dos números, ao domínio alemão, à situação drástica que hoje se vive, que não se vê nos jornais, mas que até as estatísticas não conseguem esconder, a pobreza, o desemprego, o endividamento, tudo isso. O personalismo ético, princípio basilar da democracia cristã, da social-democracia, do liberalismo clássico, do Estado de Direito, foi completamente posto de lado, substituído por um capitalismo que já não é "selvagem", mas pensado, estruturado em torno de uma ideia, de um modelo, com células espalhadas pelos setores-chave da sociedade. Com todas as consequências negativas que hoje sentimos.

As eleições em Portugal servirão para virarmos a página a este momento triste que hoje vivemos. Talvez um dia esta cultura de direita desapareça, e as pessoas possam novamente reparar naquilo que se passa, naquilo a que este liberalismo nos levou nos últimos dez anos, naquilo em que nós nos tornámos, enquanto Europa, enquanto Estados, enquanto pessoas.

Um dia, talvez...

"I never worry about action, but only inaction"
Winston Churchill