Antes de mais, uma pequena epígrafe relativamente ao título escolhido: era ainda meio-dia e já tinha em mente um "ajuste de contas", qualquer que fosse o resultado das eleições, vitória do PS ou vitória da coligação. Ainda que pese alguma tristeza, na hora em que António Costa sai derrotado, este texto já estava pensado para qualquer eventual desfecho eleitoral. Dito isto, e independentemente dos resultados já confirmados, gostaria de deixar uma breve nota sobre alguns aspetos que não podem ser esquecidos, e acerca dos quais se devem tomar efetivas medidas nos dias difíceis que se avizinham.
1. Campanha do PS
Um primeiro ponto diz respeito à campanha do Partido Socialista. Existe um dado incontornável que ninguém deixa de referir neste momento: como é que, após quatro anos da governação mais impopular da história da democracia, o PS não alcança, no mínimo, uma maioria relativa no Parlamento? Será que o povo, como escreveu Henrique Monteiro no Expresso, "enmalucou"? Não diria tanto, mas a resposta não deixa de ser simples. A campanha de António Costa foi, sem qualquer tipo de dúvida, um desastre. Nem tanto pelas contradições do próprio líder, embora elas tenham sem dúvida pesado, mas pelo rumo que a direção de campanha decidiu tomar. Penso que foi Nuno Garoupa que o disse, e Marcelo repetiu-o no comentário de há oito dias: as eleições não se ganham à esquerda, não se ganham tentando tirar 80 ou 100 mil eleitores ao BE e ao PCP (eleitorado que tradicionalmente oscila entre um e outro, mantendo-se fixo, ainda por cima); ganham-se, sim, cativando os 600 mil indecisos que existem ao centro. O centro é um vazio ideológico; mas não é um "gambozino" político, como hoje dizia Helena Roseta. O centro tem efetivamente 600 mil eleitores que preferem estabilidade à instabilidade, mas que não abdicam de mudar de partido quando vejam propostas que, além de cativantes, sejam legítimas, construtivas e coerentes. O PS fez um programa moderado, conciliador. Abriu uma nova etapa de transparência, ao redigir um cenário macroeconómico, coisa nunca antes feita. António Costa é ele próprio um moderado. Como é que se explica que a campanha seja dirigida à esquerda, e não ao centro, como devia ter sido?
Esta medida, além de imprudente (porque o PS se esqueceu de 600 mil indecisos), trouxe outro efeito nefasto para os socialistas. Ao recorrer ao voto útil, não dos indecisos no centro, mas do eleitorado mais à esquerda, o PS conseguiu concentrar as atenções do BE e da CDU no ataque não à direita, mas ao centro-esquerda. Não deixou de ser um golpe baixo do BE e da CDU, e penso que isso também merecia explicações de uns e outros. Mas o que isso trouxe foi ataques ao PS vindos de todos os lados, da esquerda, da direita, do centro (para não falar dos que já existiam dentro do próprio PS, mas isso é outra história).
Um outro aspeto, que também foi penoso de assistir nesta triste campanha, foi este: como é que, não tendo a coligação um programa de governo, o programa do PS passa a ser escrutinado por tudo e por nada, como se António Costa tivesse sido primeiro-ministro nos últimos quatro anos, e Mário Centeno o seu impiedoso ministro das finanças? Como é que o PS se deixa levar por estes marketing, tentando responder a tudo e todos, mal e tardiamente?
Outra coisa. A campanha propriamente dita. Os cartazes, enfim, foram um erro, mas António Costa assumiu as culpas e a coisa correu bem. Agora, não se percebe como é que a coligação faz uma campanha brilhante nas ruas e o PS e a JS não saem à rua. Desculpar-me-ão, mas é pura incompetência. A JSD, a JP, o próprio Bloco de Esquerda fizeram ações de rua, no cara-a-cara, profundamente competentes. Mobilizaram. O PS não mobilizou.
Muitos outros pontos ficam por dizer. Mas o ponto-chave era este: António Costa não é homem de fazer campanha. É homem de mostrar o que vale com o seu trabalho. Em 2013, não é por acaso que tenha conquistado mais de 50% dos votos nas eleições para a Câmara. As pessoas reconheciam o trabalho feito. Reconheciam a competência. Como é que a direção de campanha não aposta nisso? Não aposta no facto de termos tido, nestas eleições, o candidato mais competente a primeiro-ministro destes 40 anos de democracia? Porque, afinal de contas, tínhamos perante nós alguém que foi líder da bancada parlamentar, Ministro da Justiça, Ministro da Administração Interna e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, funções que desempenhou, na globalidade, com reconhecido mérito e excelência.
Portanto, o que fica por fazer? A responsabilidade será de António Costa? Deverá ele demitir-se? À primeira pergunta, claro que não ficará ilidido de culpas no meio disto tudo. Pecou por omitir-se, pecou por incoerências, e pecou sobretudo, na minha perspetiva, por ingenuidade (acredito piamente que Costa é um homem ingénuo, e que, no meio de todas as sondagens, de toda a propaganda da comunicação social, tenha ficado emocionalmente de rastos a meio desta campanha). Mas a campanha propriamente dita não compete a Costa. Ela deve ser gerida por profissionais, por gente que saiba de 'marketing', que perceba as dinâmicas da campanha, que crie uma imagem cativante do candidato, e que, mais que tudo, entenda aquilo que as pessoas querem. Não é Costa que tem a maior responsabilidade no meio disto tudo. É Duarte Cordeiro e é o conjunto de 'marketeers' que conseguiram fazer de um processo que parecia fácil uma campanha penosa e miserável.
E à segunda questão: deverá Costa demitir-se? Aí as opiniões poderão divergir. A minha resposta é um contundente não. Primeiro, porque, como já foi dito, não há um candidato com tanta experiência e tanta capacidade política. Segundo, porque não há ninguém que lhe possa suceder no PS. Não irei fazer um escrutínio cuidadoso de todos os hipotéticos candidatos, mas posso olhar para qualquer militante do Partido Socialista (ou, se quiserem, de toda a esquerda) e dizer que não existe, hoje, de maneira objetiva, um candidato melhor do que António Costa. O que o PS tem de fazer não é mudar de líder. É, sim, fazer aquilo que não fez durante toda esta campanha: dar provas de união em torno do secretário-geral. Porque o pessimismo que reinou no PS não foi só pelos ataques de forças externas. O pessimismo reinou porque, entre soaristas, seguristas e socráticos, de costistas sobravam poucos. Faz lembrar o tempo de António Guterres. E isso sentiu-se hoje, nas declarações profundamente atrozes de Eurico Brilhante Dias, de Álvaro Beleza e de Ana Gomes, que, em boa verdade, nunca estiveram ao lado de Costa, e que agora vão entrar em cena nos bastidores, nos meses que aí vêm. Portanto, um apelo à união no PS, e ao reconhecimento de que Costa, apesar da péssima campanha, é todavia o melhor líder que o partido poderia ter neste momento.
2. A opção da coligação
Nestes próximos dias teremos à nossa frente três possíveis desfechos para o impasse parlamentar que as eleições nos deixaram: 1) governo minoritário da coligação; 2) governo maioritário de esquerda; e 3) eleições antecipadas.
Destes três cenários, o segundo é de todos o mais improvável, uma vez que é muito mais o que separa o PS do BE e do PCP do que aquilo que o separa da coligação. E ainda que esse pudesse ser, em teoria, um cenário histórico e uma mudança positiva na democracia portuguesa, esse não deverá ser o caso, porque temos dois partidos que assumem uma feição radical, com a obsessão absurda da saída do euro. Portanto, na forma como esses partidos estão concebidos na atualidade, essa solução parece-me (à partida) impensável.
A primeira exige duas coisas essenciais: cedência da parte do PS, e cedência da parte da coligação. O PS não pode abdicar do seu programa, e tem de o defender, mas também tem de respeitar a vontade popular. Agora, a promessa de Costa chumbar um orçamento da coligação não foi assim tão radical como quiseram fazer parecer; na verdade, se a coligação apresentar um Orçamento de Estado semelhante aos de 2012, 2013, 2014 e 2015, então é natural que o PS a ele se oponha. O que isso significa, portanto, é que a coligação também não pode deixar de fazer cedências, num esforço conciliatório com os socialistas no Parlamento. Feito isto, um governo minoritário até poderá ser a melhor solução: um Parlamento à esquerda e um Governo à direita, ainda que seja uma solução mais instável do que uma maioria absoluta, pode ser aquilo que o país bem precisa neste momento.
Mas a história diz-nos que isso é coisa improvável. E isso leva-nos ao terceiro eventual cenário. E aproximamo-nos do exemplo dado pelo Governo minoritário de Cavaco Silva, de 1985 a 1987, ano em que o então primeiro-ministro conseguiu forçar eleições antecipadas e ganhar a maioria absoluta. Neste caso, teríamos então um Governo minoritário PSD/CDS que, não fazendo as tão necessárias cedências, no que toca ao Orçamento de Estado, forçaria eleições antecipadas, culpando o PS, e tentando adquirir maioria absoluta. Porque, sejamos sinceros, este Governo só conseguirá cumprir rigorosamente o seu projeto governativo com uma maioria absoluta na Assembleia da República. Esperemos, enfim, que tal não aconteça.
3. As outras esquerdas
Já foi aqui referida a posição injustificável do BE e da CDU relativamente ao PS nesta campanha. Até vários eleitores do PCP, ao cruzarem-se com Jerónimo de Sousa, fizeram questão de pedir ao líder comunista que poupasse António Costa e dirigisse os seus ataques à direita. O PS teve demérito na campanha. Mas a CDU e o BE juntaram-se à direita numa cruzada contra Costa e contribuíram deste modo para a vitória da coligação nestas eleições.
O que falta, então, a estas outras esquerdas? O Livre, que não conseguiu eleger nenhum deputado, falava na campanha da necessária convergência da esquerda. Porque, afinal de contas, a esquerda venceu estas eleições, e a direita perdeu-as. Deixar o Governo à direita não será quebrar a legitimidade eleitoral? O que terá a esquerda a dizer quanto a isto?
Neste século XXI, é incrível ver como é que dois partidos que se dizem de esquerda - e, por isso, progressivos - insistem em velhos brocados como uma "política patriótica de esquerda" que pede nacionalizações a torto e a direito, a saída do euro e um modelo marxista-leninista de organização do Estado? Como é que o trotskismo e o maoísmo ainda assombram as ideias do Bloco? Mas, mais que tudo, como é que estes partidos conseguem dar ao desbarato o poder à direita, e não conseguem formar uma alternativa coerente, eventualmente uma solução governativa? Como é que, agora que a direita perde as eleições, afinal de contas vai continuar no poder?
São apenas alguns apontamentos sobre as medidas difíceis, e todavia necessárias, que nos esperam nos próximos dias.
Já passa da meia-noite. Dia 5 de Outubro. Dia da República. Thomas Jefferson dizia, a respeito de um governo republicano, que este apenas se manteria verdadeiramente representativo e legitimamente democrático na medida em que se orientasse pela razão, pela justiça, e pelo bem comum. Devem ser esses os valores presentes na ação política nestes próximos dias. Como dizia Sartre, sempre com cautela, mas sempre com audácia. O futuro do país, e o futuro das nossas vidas, depende disso.