segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Entre Nietzsche e o estado do mundo

A filosofia, a ciência, a guerra síria e o Médio Oriente


1. Nietzsche e o consentimento (ou ubi consesus, ibi societas)


Numa das suas obras menos conhecidas, Nietzsche escrevia que o maior perigo que podia pairar sobre o mundo era a loucura. O mundo como manicómio. Em A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft), de 1882, o distinto mestre escreveu o seguinte:

O maior perigo que sempre pairou e ainda paira sobre a humanidade é o surto da demência - que é o surto da arbitrariedade em sentir, ver e ouvir; o gosto pela indisciplina da mente; a alegria na não-razão humana. O oposto do mundo do demente não é a verdade nem a certeza, mas o universalismo e a vinculação universal à fé; numa palavra, a não-arbitrariedade nos juízos humanos. (s. 76)

A sobrevivência da humanidade, segundo o autor, residiria na nossa capacidade de formular uma "lei de consentimento" sobre todo o género de coisas, quer elas fossem verdadeiras ou falsas. As pessoas, reunidas nesta grande comunhão (cega) pela fé, viveriam em harmonia, em torno de crenças religiosas, políticas, morais e culturais. Um pouco como a visão de Lenine sobre a Igreja (o "ópio do povo"), ou a de Marx sobre a sociedade capitalista em geral (destinada a preservar o domínio da burguesia através da submissão das Ideias ao sistema económico dominante).

Partiremos do pressuposto de que a lei de que o autor fala existe, até porque, de uma maneira ou de outra, todos os maiores nomes da filosofia política, da antropologia e da sociologia acreditam que um certo consentimento é em todo o caso necessário para a formação e a manutenção da sociedade. Em como é que esse consentimento se forma é que as opiniões poderão divergir, de Hobbes no Leviatã até Rosseau no Contrato Social, passando por Locke com o seu Segundo Tratado. Em todos estes casos, é o "contrato", tácito, entre a população, que forma a sociedade. Com a subsequente institucionalização da sociedade, vem o consentimento de Nietzsche: a própria instituição do Estado disciplina a mente humana de modo a harmonizá-la com as demais.

Dizia ele que a exceção à regra seriam os filósofos, os cientistas, os intelectuais, visto que são aqueles que procuram a verdade e que, nesse sentido, teriam mais cedo ou mais tarde dúvidas sobre essa "lei do consentimento". No tempo de Nietzsche era assim, mas na segunda metade do século XX as coisas mudaram substancialmente, com a generalização do ensino superior e o advento da era digital (ao ponto de muitos historiadores defenderem que estamos na presença não já de uma Idade Contemporânea, mas sim de uma Idade Digital).

É interessante notar que esses progressos não subverteram a "lei do consentimento". Se repararmos, a lei manteve a sua eficácia, a previsão manteve-se e os pressupostos também. Sem determinado consentimento, a sociedade redundaria, mais cedo ou mais tarde, em caos. No que toca à lei, apenas se alterou o escopo dos seus destinatários. Quando Nietzsche escrevia, os intelectuais (e, de um modo geral, os alfabetizados) eram uma escassa minoria. De tal modo que, sendo tão poucos, a sua busca pela verdade poderia deparar-se com a forte oposição da esmagadora maioria da população, num esforço permanente das instituições em manterem o status quo. Foi assim, por exemplo, nos tempos da Inquisição (vejam-se os casos de Galileu ou Espinosa, entre tantos outros).

Nas últimas décadas do século XX já não era assim. A minoria passou a maioria. Para Nietzsche, o que decorria da lei do consentimento era aquilo a que chamava uma "estupidez virtuosa": a ignorância como regra geral, o conhecimento como uma pequena exceção. Nos países ocidentais, a regra passou a ser oposta: o conhecimento geral (embora não necessariamente virtuoso, no contexto do individualismo capitalista). Inverteu-se a situação social. O ópio do povo desapareceu, o mundo deu um passo em frente.

Nos países mais atrasados, o "conhecimento geral" passou a confundir-se com uma espécie de volonté générale dos tempos modernos. Essa vontade geral concretizou-se, entre nós, em dois aspetos fundamentais: no Estado Novo, na hostilidade à esquerda, e, no pós-25 de Abril, na hostilidade à direita. No nosso país, a estrutura social do Estado Novo ainda era um pouco a do tempo de Nietzsche: país rural, uma minoria instruída, afeta (grande parte dela) ao regime, contribuindo para a manutenção da superestrutura (utilizando terminologia marxista). Com a revolução, a estrutura social manteve-se, mas a superestrutura alterou-se por completo, provocando um desfasamento entre uma e outra, o que levou a que o Estado impusesse, pela força, o novo modelo político e social. Novamente, as instituições passaram a "disciplinar" a mente da sociedade, impondo uma Constituição (na altura) pouco neutra, um Conselho da Revolução muito virado à esquerda e Governos provisórios próximos do comunismo. A esquerda passou a ser a "moda", utilizando termos atuais; a direita, outrora regra geral, passou a ser a exceção perseguida. Era um exemplo da "vontade geral": quando o Estado era de direita, atacava-se a esquerda; quando o Estado passou a ser de esquerda, passou a atacar-se a direita (na gíria portuguesa, aquilo a que se chamaria a "Maria vai com as outras").

Depois disso deu-se o 25 de Novembro de 1975 e a revisão constitucional de 1982, e a situação estabilizou. A educação, a ingressão na futura União Europeia, e a plena realização de um modelo político pluralista e democrático permitiram a rápida transformação da nossa estrutura social, tendendo para a convergência entre a nossa sociedade e a nova superestrutura estadual. Enquanto em outros locais a educação provocou sobretudo um desenvolvimento económico (como nos Estados Unidos, onde surgiam as startups e a grande escalada de conhecimento tecnológico), noutros países, onde a democracia era mais recente, como por cá, a situação ia no sentido de uma maior intervenção política dos cidadãos, uma maior awareness relativamente aos problemas do país e do mundo.



2. Popper e Sartre (ou Ciência, Cultura e Sociedade)


De qualquer maneira, com a educação alargada e o aprofundamento das democracias, o "conhecimento geral", pressuposto da lei do consentimento, deixou cair a sua marca de vontade geral na terminologia de Rosseau para passar a ser caracterizada por um necessário respeito pelas minorias, naquilo a que eu chamarei de "conhecimento virtuoso" ou "tolerante".

Esta ocorrência parece ter uma explicação, antes de mais, civilizacional, uma vez que os meados do século passado trouxeram para as sociedades americana e europeia mudanças radicais, a nível científico, cultural e social. Afinal, os positivismos científico, cultural e sociológico dominantes na 1ª metade do séc. XX tinham falhado redondamente.

O positivismo era, em suma, a crença absoluta nas possibilidades do homem. Foi dominante na ciência, na literatura, na filosofia e, em geral, na sociedade do século XIX e dos inícios do século passado. Mas, como atrás referimos, um certo número de fatores contribuiu para a falência do positivismo, nas suas vertentes científica, cultural e sociológica: no primeiro caso, devido ao relativismo de Einstein e ao advento da física quântica com Max Planck; no segundo, devido às vanguardas artísticas; no terceiro, porque a crença na perfetibilidade da sociedade e da raça humana fora, em certa medida, a principal razão para a eclosão do fascismo, do nazismo e, bem assim, do comunismo a partir dos anos 20 e 30.

Na ciência, em substituição deste modelo falhado do positivismo, surgiu Karl Popper, com a sua teoria epistemológica da refutabilidade das teorias científicas, segundo a qual uma teoria só seria válida (ou, melhor dito, verosímil) na medida em que não sobreviessem dados empíricos a refutá-la. Popper foi o fundador da filosofia da ciência verdadeiramente moderna.

Na filosofia propriamente dita, por seu lado, o idealismo, património de Hegel, fora criticado, já no séc. XIX, pelas correntes materialistas, com relevo para Feuerbach e, efetivamente, para Marx. Mas só mais tarde é que essa teoria foi verdadeiramente ultrapassada, por aquele que talvez tenha sido o filósofo mais influente do século da democracia e dos totalitarismos: falo de Sartre e do existencialismo que ele transpôs para o mundo da cultura. Portanto, se o positivismo científico foi derrubado por Popper, o fim do positivismo cultural deveu-se a Sartre. A ideia era simples, e, se me é possível resumi-la em três pontos, era algo assim: 1) A existência precede a essência; o homem, através das suas ações e experiências, molda o seu caráter e dá-se a conhecer aos outros, formando-se assim uma Ideia; 2) Deus não existe, porque não passa de uma ilusão; 3) O homem, porque Deus não existe, está desamparado, só está dependente de si, é livre, devendo agir bem para aproveitar ao máximo esta vida, que é a única. Este pensamento teve reflexos importantes no mundo da literatura, do cinema, e da política propriamente dita, embora não faça parte deste estudo a análise crítica do existencialismo, que deixaremos para outra altura.

Quanto ao "positivismo sociológico", este foi ultrapassado por aqueles fatores a que já fizemos referência: o desenvolvimento tecnológico, a Era Digital, e, acrescente-se, a globalização, visto que, com o derrube das antigas fronteiras e a criação das primeiras organizações internacionais, o mundo deixou de estar confinado a uma série de Estados para passar a ser uma verdadeira aldeia global, de limites fluídos e contornáveis. Deu-se, com isso, o multiculturalismo, que em grande parte levou ao fim dos antigos preconceitos e à harmonização das relações entre pessoas de diferentes religiões, etnias, nacionalidades e orientações pessoais e políticas.

Esta breve explicação serve, no fundo, para dizer que a "vontade geral", que estava em sintonia com um certo positivismo, na medida em que só admitia uma possível verdade, foi substituída por uma civilização completamente nova, levando à radical transformação daquela "lei do consentimento", agora constituída por um necessário respeito por opiniões diversas e, assim sendo, das minorias. Sou levado a crer que aquilo que foi o aprofundamento da democracia, não apenas a nível institucional, mas a nível de participação ativa dos cidadãos, também se deveu a estas alterações sociais e culturais.



3. Mujahideen (ou a educação como pressuposto da paz)


Tudo isto levou a um novo passo na história do mundo. Já aludimos à globalização e à criação das primeiras verdadeiras organizações internacionais. E isso leva-nos ao derradeiro propósito deste texto, que começou em Nietzsche como simples pretexto para aqui chegarmos. O mundo, como nós o conhecemos hoje, foi produto da "lei do consentimento". Essa lei começou como uma "estupidez virtuosa" generalizada, transformou-se, como vimos atrás, num "conhecimento geral", e este conhecimento geral adquiriu duas facetas: uma, de "vontade geral", baseada ainda numa ciência que se pretendera substituir à religião e que, na sua cegueira positivista, conduzira verdadeiramente à mesma ignorância que antes se verificara; e uma segunda, própria dos países desenvolvidos e democráticos, baseada no respeito pelas minorias, na educação e na cultura como alicerces de uma sociedade harmonizada e avançada.

Hoje, ainda assistimos a resquícios da velha "vontade geral" que Rosseau ingenuamente nos deixou (e que foi aproveitada pelas democracias populares e pela União Soviética). Falo, por exemplo, do Estado Islâmico. A situação que se verifica atualmente no Médio Oriente não é nova. Existe um filme muito bom relativamente ao caso afegão mas que podemos estender a muitos outros países daquela conturbada região. O filme, com Tom Hanks, chama-se Charlie Wilson's War e é, no fundo, uma descrição do percurso militar americano no Afeganistão desde 1979, altura em que a URSS invadiu aquele país e os americanos decidiram apoiar os mujahideen, as tribos rurais afegãs (hoje conhecidos como talibãs). E o filme partia desse confronto para um ponto essencial comum na política externa norte-americana: depois de conseguir que os soviéticos se retirassem (1989), Charlie Wilson, congressista que havia impulsionado o apoio aos mujahideen, bem pediu que os Estados Unidos financiassem a criação de escolas e hospitais no longínquo Afeganistão, mas rapidamente os esforços de Wilson se desvaneceram. Apenas ficaram os interesses económicos (gasodutos). Rapidamente o interesse político e, vá, humanitário se desvanecia; alguns anos depois, os talibãs, antigos apoiantes dos americanos, insurgiam-se contra a ocupação (económica) do seu país.

E o mesmo sucedeu no Iraque, depois da deposição de Saddam, e agora na Síria com a oposição a Assad. Curiosamente, é nestes dois países que o Estado Islâmico hoje adquire a sua maior força. Tudo isto para dizer o quê? A educação faz a diferença. O consentimento cria e mantém sociedades; mas é a educação que permite harmonizá-las e fazê-las avançar. A educação transforma a "estupidez virtuosa" na "vontade geral" e eventualmente num "conhecimento virtuoso", numa "vontade virtuosa", se assim lhe podemos chamar. Conduz, enfim, à "não-arbitrariedade dos juízos humanos" que Nietzsche referia.

Portanto, essencialmente, o problema no Médio Oriente é cultural. O que não é razão para dizermos que "sempre foi assim, portanto sempre será", o que além de ser uma falácia só pela lógica, também o é porque os dados empíricos que temos contrariam essa conclusão. O Médio Oriente foi desde os mais remotos tempos a região mais avançada do mundo, desde os sumérios aos otomanos, passando por babilónios, persas, judeus, selêucidas (gregos), romanos, árabes e seljúcidas (turcos). As coisas começaram a mudar para pior com os otomanos, mas só se tornaram verdadeiramente atrozes quando os europeus impuseram a típica "paz dos vencidos" que destruiu o Império Otomano e dividiu o Médio Oriente em múltiplos protetorados, logo após o fim da Grande Guerra em 1918. A partir daí as coisas foram sempre mal feitas: primeiro, por ingleses e franceses que não respeitaram as tradições milenares e a diversidade étnica e religiosa da região, cortando fronteiras como fatias, sem qualquer atenção às nacionalidades diversas. Mais tarde, por americanos, que decidiriam criar um Estado judeu, em 1948, num sítio onde a esmagadora maioria da população era árabe, sem sequer terem a ideia de que uma solução de dois Estados talvez fosse a melhor. Novamente por americanos no Irão, no Iraque (até há bem pouco tempo um não-Estado), no Kuwait, no Afeganistão, no Paquistão e, recentemente, no Egito, na Líbia (hoje um não-Estado) e na Síria (provavelmente a mesma coisa).

Obviamente não se está aqui a defender Assad ou a fazer uma apologia do regime sírio, ou de Khaddafi na Líbia, muito pelo contrário. Foi o modus operandi dos americanos que deixou muito a desejar: na Líbia, porque apoiou uma caça ao homem sem se preocupar com as consequências políticas de tal evento; na Síria, porque decidiu apoiar uma oposição política, moderada, apenas por mediatismo e conveniência, mas sem lhe fornecer apoio concreto. Foi Clara Ferreira Alves que apontou no Eixo do Mal de há umas semanas, e muito bem: em plena guerra civil síria, a Alemanha continuava a exportar armas para o Governo sírio. Os Estados Unidos só começaram a enviar armas para a oposição mal e tardiamente. E, nessa altura, já tínhamos uma al-Nusra e um Daesh (EI) a reunir apoiantes e a expandir-se rapidamente em território sírio e iraquiano.

E, lentamente, o Estado Islâmico vai-se tornando, é verdade, um Estado. Há uns tempos saíam notícias da construção de hospitais e de escolas nos territórios controlados pelos terroristas. E, a pouco e pouco, se nada entretanto for feito, terão certamente um Estado, dotado de propaganda própria e de uma cultura específica, e farão, pelos meios adequados, o trabalho que lhes compete, o de "educar" para, novamente recorrendo a Marx, criar e manter uma superestrutura oficial. Em pleno século XXI, custa que algo assim possa acontecer. Mas acontece.

Também nos países desenvolvidos existe extremismo. E há que combater esse extremismo. Uma democracia que respeita as minorias é uma democracia de risco, porque nessas minorias pode, a dada altura, surgir um lunático que, aproveitando a liberdade de expressão, expanda ideias menos democráticas ou tolerantes no seio do meio social. Mas, como a história pode comprovar, é sempre melhor correr os riscos da liberdade do que viver sem ela. Os riscos da liberdade devem, sim, ser combatidos pela educação. Não pela unanimização de ideias, que nos levaria de novo ao positivismo, mas sim através de uma educação cívica, alicerçada em valores universais como a dignidade do homem, a igualdade de géneros, a tolerância e a liberdade.

Faltou educação. Faltou esforço. Deixámos que a situação se desenrolasse a este ponto, depois de os nossos antepassados ultrapassarem duas guerras mundiais. Não aprendemos a lição, e o mundo está como está. Mas há sempre remédio. Há sempre algo a fazer. E esse trabalho deve começar agora. Desta vez, com a lição bem estudada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ajuste de contas

Antes de mais, uma pequena epígrafe relativamente ao título escolhido: era ainda meio-dia e já tinha em mente um "ajuste de contas", qualquer que fosse o resultado das eleições, vitória do PS ou vitória da coligação. Ainda que pese alguma tristeza, na hora em que António Costa sai derrotado, este texto já estava pensado para qualquer eventual desfecho eleitoral. Dito isto, e independentemente dos resultados já confirmados, gostaria de deixar uma breve nota sobre alguns aspetos que não podem ser esquecidos, e acerca dos quais se devem tomar efetivas medidas nos dias difíceis que se avizinham.

1. Campanha do PS

Um primeiro ponto diz respeito à campanha do Partido Socialista. Existe um dado incontornável que ninguém deixa de referir neste momento: como é que, após quatro anos da governação mais impopular da história da democracia, o PS não alcança, no mínimo, uma maioria relativa no Parlamento? Será que o povo, como escreveu Henrique Monteiro no Expresso, "enmalucou"? Não diria tanto, mas a resposta não deixa de ser simples. A campanha de António Costa foi, sem qualquer tipo de dúvida, um desastre. Nem tanto pelas contradições do próprio líder, embora elas tenham sem dúvida pesado, mas pelo rumo que a direção de campanha decidiu tomar. Penso que foi Nuno Garoupa que o disse, e Marcelo repetiu-o no comentário de há oito dias: as eleições não se ganham à esquerda, não se ganham tentando tirar 80 ou 100 mil eleitores ao BE e ao PCP (eleitorado que tradicionalmente oscila entre um e outro, mantendo-se fixo, ainda por cima); ganham-se, sim, cativando os 600 mil indecisos que existem ao centro. O centro é um vazio ideológico; mas não é um "gambozino" político, como hoje dizia Helena Roseta. O centro tem efetivamente 600 mil eleitores que preferem estabilidade à instabilidade, mas que não abdicam de mudar de partido quando vejam propostas que, além de cativantes, sejam legítimas, construtivas e coerentes. O PS fez um programa moderado, conciliador. Abriu uma nova etapa de transparência, ao redigir um cenário macroeconómico, coisa nunca antes feita. António Costa é ele próprio um moderado. Como é que se explica que a campanha seja dirigida à esquerda, e não ao centro, como devia ter sido?

Esta medida, além de imprudente (porque o PS se esqueceu de 600 mil indecisos), trouxe outro efeito nefasto para os socialistas. Ao recorrer ao voto útil, não dos indecisos no centro, mas do eleitorado mais à esquerda, o PS conseguiu concentrar as atenções do BE e da CDU no ataque não à direita, mas ao centro-esquerda. Não deixou de ser um golpe baixo do BE e da CDU, e penso que isso também merecia explicações de uns e outros. Mas o que isso trouxe foi ataques ao PS vindos de todos os lados, da esquerda, da direita, do centro (para não falar dos que já existiam dentro do próprio PS, mas isso é outra história).

Um outro aspeto, que também foi penoso de assistir nesta triste campanha, foi este: como é que, não tendo a coligação um programa de governo, o programa do PS passa a ser escrutinado por tudo e por nada, como se António Costa tivesse sido primeiro-ministro nos últimos quatro anos, e Mário Centeno o seu impiedoso ministro das finanças? Como é que o PS se deixa levar por estes marketing, tentando responder a tudo e todos, mal e tardiamente?

Outra coisa. A campanha propriamente dita. Os cartazes, enfim, foram um erro, mas António Costa assumiu as culpas e a coisa correu bem. Agora, não se percebe como é que a coligação faz uma campanha brilhante nas ruas e o PS e a JS não saem à rua. Desculpar-me-ão, mas é pura incompetência. A JSD, a JP, o próprio Bloco de Esquerda fizeram ações de rua, no cara-a-cara, profundamente competentes. Mobilizaram. O PS não mobilizou.

Muitos outros pontos ficam por dizer. Mas o ponto-chave era este: António Costa não é homem de fazer campanha. É homem de mostrar o que vale com o seu trabalho. Em 2013, não é por acaso que tenha conquistado mais de 50% dos votos nas eleições para a Câmara. As pessoas reconheciam o trabalho feito. Reconheciam a competência. Como é que a direção de campanha não aposta nisso? Não aposta no facto de termos tido, nestas eleições, o candidato mais competente a primeiro-ministro destes 40 anos de democracia? Porque, afinal de contas, tínhamos perante nós alguém que foi líder da bancada parlamentar, Ministro da Justiça, Ministro da Administração Interna e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, funções que desempenhou, na globalidade, com reconhecido mérito e excelência.

Portanto, o que fica por fazer? A responsabilidade será de António Costa? Deverá ele demitir-se? À primeira pergunta, claro que não ficará ilidido de culpas no meio disto tudo. Pecou por omitir-se, pecou por incoerências, e pecou sobretudo, na minha perspetiva, por ingenuidade (acredito piamente que Costa é um homem ingénuo, e que, no meio de todas as sondagens, de toda a propaganda da comunicação social, tenha ficado emocionalmente de rastos a meio desta campanha). Mas a campanha propriamente dita não compete a Costa. Ela deve ser gerida por profissionais, por gente que saiba de 'marketing', que perceba as dinâmicas da campanha, que crie uma imagem cativante do candidato, e que, mais que tudo, entenda aquilo que as pessoas querem. Não é Costa que tem a maior responsabilidade no meio disto tudo. É Duarte Cordeiro e é o conjunto de 'marketeers' que conseguiram fazer de um processo que parecia fácil uma campanha penosa e miserável.

E à segunda questão: deverá Costa demitir-se? Aí as opiniões poderão divergir. A minha resposta é um contundente não. Primeiro, porque, como já foi dito, não há um candidato com tanta experiência e tanta capacidade política. Segundo, porque não há ninguém que lhe possa suceder no PS. Não irei fazer um escrutínio cuidadoso de todos os hipotéticos candidatos, mas posso olhar para qualquer militante do Partido Socialista (ou, se quiserem, de toda a esquerda) e dizer que não existe, hoje, de maneira objetiva, um candidato melhor do que António Costa. O que o PS tem de fazer não é mudar de líder. É, sim, fazer aquilo que não fez durante toda esta campanha: dar provas de união em torno do secretário-geral. Porque o pessimismo que reinou no PS não foi só pelos ataques de forças externas. O pessimismo reinou porque, entre soaristas, seguristas e socráticos, de costistas sobravam poucos. Faz lembrar o tempo de António Guterres. E isso sentiu-se hoje, nas declarações profundamente atrozes de Eurico Brilhante Dias, de Álvaro Beleza e de Ana Gomes, que, em boa verdade, nunca estiveram ao lado de Costa, e que agora vão entrar em cena nos bastidores, nos meses que aí vêm. Portanto, um apelo à união no PS, e ao reconhecimento de que Costa, apesar da péssima campanha, é todavia o melhor líder que o partido poderia ter neste momento.

2. A opção da coligação

Nestes próximos dias teremos à nossa frente três possíveis desfechos para o impasse parlamentar que as eleições nos deixaram: 1) governo minoritário da coligação; 2) governo maioritário de esquerda; e 3) eleições antecipadas.

Destes três cenários, o segundo é de todos o mais improvável, uma vez que é muito mais o que separa o PS do BE e do PCP do que aquilo que o separa da coligação. E ainda que esse pudesse ser, em teoria, um cenário histórico e uma mudança positiva na democracia portuguesa, esse não deverá ser o caso, porque temos dois partidos que assumem uma feição radical, com a obsessão absurda da saída do euro. Portanto, na forma como esses partidos estão concebidos na atualidade, essa solução parece-me (à partida) impensável.

A primeira exige duas coisas essenciais: cedência da parte do PS, e cedência da parte da coligação. O PS não pode abdicar do seu programa, e tem de o defender, mas também tem de respeitar a vontade popular. Agora, a promessa de Costa chumbar um orçamento da coligação não foi assim tão radical como quiseram fazer parecer; na verdade, se a coligação apresentar um Orçamento de Estado semelhante aos de 2012, 2013, 2014 e 2015, então é natural que o PS a ele se oponha. O que isso significa, portanto, é que a coligação também não pode deixar de fazer cedências, num esforço conciliatório com os socialistas no Parlamento. Feito isto, um governo minoritário até poderá ser a melhor solução: um Parlamento à esquerda e um Governo à direita, ainda que seja uma solução mais instável do que uma maioria absoluta, pode ser aquilo que o país bem precisa neste momento.

Mas a história diz-nos que isso é coisa improvável. E isso leva-nos ao terceiro eventual cenário. E aproximamo-nos do exemplo dado pelo Governo minoritário de Cavaco Silva, de 1985 a 1987, ano em que o então primeiro-ministro conseguiu forçar eleições antecipadas e ganhar a maioria absoluta. Neste caso, teríamos então um Governo minoritário PSD/CDS que, não fazendo as tão necessárias cedências, no que toca ao Orçamento de Estado, forçaria eleições antecipadas, culpando o PS, e tentando adquirir maioria absoluta. Porque, sejamos sinceros, este Governo só conseguirá cumprir rigorosamente o seu projeto governativo com uma maioria absoluta na Assembleia da República. Esperemos, enfim, que tal não aconteça.

3. As outras esquerdas

Já foi aqui referida a posição injustificável do BE e da CDU relativamente ao PS nesta campanha. Até vários eleitores do PCP, ao cruzarem-se com Jerónimo de Sousa, fizeram questão de pedir ao líder comunista que poupasse António Costa e dirigisse os seus ataques à direita. O PS teve demérito na campanha. Mas a CDU e o BE juntaram-se à direita numa cruzada contra Costa e contribuíram deste modo para a vitória da coligação nestas eleições.

O que falta, então, a estas outras esquerdas? O Livre, que não conseguiu eleger nenhum deputado, falava na campanha da necessária convergência da esquerda. Porque, afinal de contas, a esquerda venceu estas eleições, e a direita perdeu-as. Deixar o Governo à direita não será quebrar a legitimidade eleitoral? O que terá a esquerda a dizer quanto a isto?

Neste século XXI, é incrível ver como é que dois partidos que se dizem de esquerda - e, por isso, progressivos - insistem em velhos brocados como uma "política patriótica de esquerda" que pede nacionalizações a torto e a direito, a saída do euro e um modelo marxista-leninista de organização do Estado? Como é que o trotskismo e o maoísmo ainda assombram as ideias do Bloco? Mas, mais que tudo, como é que estes partidos conseguem dar ao desbarato o poder à direita, e não conseguem formar uma alternativa coerente, eventualmente uma solução governativa? Como é que, agora que a direita perde as eleições, afinal de contas vai continuar no poder?


São apenas alguns apontamentos sobre as medidas difíceis, e todavia necessárias, que nos esperam nos próximos dias. 

Já passa da meia-noite. Dia 5 de Outubro. Dia da República. Thomas Jefferson dizia, a respeito de um governo republicano, que este apenas se manteria verdadeiramente representativo e legitimamente democrático na medida em que se orientasse pela razão, pela justiça, e pelo bem comum. Devem ser esses os valores presentes na ação política nestes próximos dias. Como dizia Sartre, sempre com cautela, mas sempre com audácia. O futuro do país, e o futuro das nossas vidas, depende disso.