"A diferença entre o impossível e o possível reside na determinação de um homem." Tommy Lasorda
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
Tudo é político
No coração do Porto, invicta e milenar cidade, encontra-se um dos maiores testemunhos de Portugal à cultura: a Livraria Lello. Dentro dessa livraria, verdadeiro monumento arquitetónico, uma pessoa não pode ficar sem nada comprar - mesmo que não seja para ler ou como lembrança da visita, pelo menos para fazer valer os 3 euros pagos à entrada do sítio.
Ora claro está que eu comprei um livro na minha passagem pela Lello. Entre um livro de História - de Kissinger, personalidade controversa que eu muito desejo ler - ou um romance - José Luís Peixoto, muito provavelmente -, decidi ir à secção de filosofia e pegar num livrinho de 160 páginas de um dos mais reputados intelectuais deste nosso pequeno país. Eu não conhecia Eduardo Lourenço, e tinha enorme curiosidade em ler uma das suas obras. O título convenceu-me: A Esquerda na encruzilhada ou fora da História? - Ensaios políticos. Pensei para mim, então o homem é de esquerda? O filósofo parecia-me um caso diretamente saído da elite intelectual do salazarismo, e, afinal, é de esquerda! Bem, chegaram-me duas noites para acabar de ler a pequena obra, de tão cativante ser a escrita e tão profundo o pensamento.
Decidi partilhar uma parte desse texto que, para mim, vale como perfeita e sumária descrição do que é ser de esquerda, da crise que a esquerda hoje enfrenta, e do capitalismo devorador em que atualmente vivemos. Aquilo que, para muitos, será decerto um choque, é para mim cada vez mais, não uma fonte de orgulho, mas um sentido de dever: sou de esquerda porque sinto que o devo ser. Discussões ideológicas, debates políticos, deixarei para depois - apesar de que, como diziam os estudantes no Maio de 68, "tudo é político". Agora cito Eduardo Lourenço, infinitamente mais sábio e mil vezes mais experiente do que eu.
A esquerda, demasiado presa ao seu passado numa ortodoxia petrificada e pouco atraente, entrou em crise - provam-no os resultados eleitorais na Europa, o falhanço de muitas políticas económicas esquerdistas e o vazio ideológico que hoje caracteriza a esquerda (sobretudo a chamada New Left, teorizada por Giddens, praticada por Blair, que hoje parece ter desaparecido). Do lado da direita aconteceu um fenómeno semelhante - o desaparecimento da democracia-cristã e de um certo nacionalismo moderado -, mas em menor escala.
Aconselho, nem que seja por mero interesse académico, a leitura deste pequeno livro. A ignorância é um defeito; mas falar sem conhecer, fingindo que se conhece, é das coisas mais feias que existem. Conhecer a esquerda é o primeiro ponto essencial para a criticar.
Ora claro está que eu comprei um livro na minha passagem pela Lello. Entre um livro de História - de Kissinger, personalidade controversa que eu muito desejo ler - ou um romance - José Luís Peixoto, muito provavelmente -, decidi ir à secção de filosofia e pegar num livrinho de 160 páginas de um dos mais reputados intelectuais deste nosso pequeno país. Eu não conhecia Eduardo Lourenço, e tinha enorme curiosidade em ler uma das suas obras. O título convenceu-me: A Esquerda na encruzilhada ou fora da História? - Ensaios políticos. Pensei para mim, então o homem é de esquerda? O filósofo parecia-me um caso diretamente saído da elite intelectual do salazarismo, e, afinal, é de esquerda! Bem, chegaram-me duas noites para acabar de ler a pequena obra, de tão cativante ser a escrita e tão profundo o pensamento.
Decidi partilhar uma parte desse texto que, para mim, vale como perfeita e sumária descrição do que é ser de esquerda, da crise que a esquerda hoje enfrenta, e do capitalismo devorador em que atualmente vivemos. Aquilo que, para muitos, será decerto um choque, é para mim cada vez mais, não uma fonte de orgulho, mas um sentido de dever: sou de esquerda porque sinto que o devo ser. Discussões ideológicas, debates políticos, deixarei para depois - apesar de que, como diziam os estudantes no Maio de 68, "tudo é político". Agora cito Eduardo Lourenço, infinitamente mais sábio e mil vezes mais experiente do que eu.
Para ter futuro - não como mera expressão na ordem político-económica - o Socialismo terá como obrigação primeira reinventar um novo discurso cultural, revisitar seriamente o seu imaginário que ainda o protege aparentemente do fascínio do discurso pseudoliberal. Não é tarefa de eleitos, mas de todos que sabem - sem ser de ciência certa - que há na ideia e no projeto socialista uma exigência, uma verdade que nem a mais gritante eficácia do ultracapitalismo planetário consegue ocultar. Debaixo das «pedras da calçada, a praia», diziam os estudantes de 68. Debaixo da fachada rutilante de uma sociedade que exclui e remete para o nada social uma fração inumerável da comunidade humana não descobrimos praia nenhuma, só o espetáculo de uma sociedade dividida entre a euforia dos conquistadores new look e as suas vítimas, mesmo os que recebem desse universo rutilante algumas migalhas de sonho que lhes permitem imaginar que estão ainda dentro do ninho iluminado. Para os que acham meramente ética esta constatação, não tenho resposta a dar. O Socialismo ou é ética social em ato ou não é nada. Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção - e das consequências práticas que dela relevam - ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores.
Eduardo Lourenço, "Socialismo: que futuro?",
in A Esquerda na encruzilhada ou fora da História?, p. 18, 2009, Gradiva.
A esquerda, demasiado presa ao seu passado numa ortodoxia petrificada e pouco atraente, entrou em crise - provam-no os resultados eleitorais na Europa, o falhanço de muitas políticas económicas esquerdistas e o vazio ideológico que hoje caracteriza a esquerda (sobretudo a chamada New Left, teorizada por Giddens, praticada por Blair, que hoje parece ter desaparecido). Do lado da direita aconteceu um fenómeno semelhante - o desaparecimento da democracia-cristã e de um certo nacionalismo moderado -, mas em menor escala.
Aconselho, nem que seja por mero interesse académico, a leitura deste pequeno livro. A ignorância é um defeito; mas falar sem conhecer, fingindo que se conhece, é das coisas mais feias que existem. Conhecer a esquerda é o primeiro ponto essencial para a criticar.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
A preço de saldo
Artigo publicado pelo Visão de Mercado a 2 de Janeiro de 2015
Muito se tem falado e comentado sobre os monstruosos negócios conseguidos por Benfica, Porto e Sporting. Especulações sobre as valências e os prejuízos de cada um deles, mas sobretudo a comparação entre eles, numa obsessão patética para ver qual é o melhor negócio, e a partir daí proferir a sentença de qual o maior clube em Portugal.
Vamos a números. 400 milhões para o Benfica, 457,5 para o Porto e 446 (ou 515, fazendo a vontade a BdC) para o Sporting. A diferença está na empresa compradora (Nos no caso de Benfica e Sporting, Meo/Altice no caso do Porto), no número de épocas (3 com possibilidade de renegociação para 10 no Benfica, e 10 no Sporting e Porto) e nos direitos concessionados (para os três, direitos televisivos e transmissão e distribuição dos canais dos clubes; no Sporting e no Porto, acresce o patrocínio das camisolas e a publicidade estática). Mais informação pode ser analisada no quadro feito pelo Público e abaixo apresentado.

O propósito deste texto não é decidir qual o negócio mais lucrativo (como adepto de um dos clubes, acabarei sempre por me inclinar para o mais verdinho dos três contratos). Nem tão pouco o de analisar, ponto a ponto, cada um dos negócios, que deixam muito por explicar, propiciando as especulações pouco objetivas, muitas vezes ficciosas, que por aí se fazem ouvir. O propósito deste texto é outro: o de analisar a questão que, na minha opinião, é aqui o foco basilar de todos os problemas. Os contratos foram festejados efusivamente por todos os adeptos dos três grandes clubes - e não é difícil, dado o volume de milhões de euros em cima da mesa, perceber porquê. Mas resta saber: que efeitos, positivos ou negativos, é que este acontecimento tem para o desporto-rei? 1304 milhões não são pouca coisa; tanto dinheiro em jogo dava para criar milhares e milhares de empregos; percebe-se, enfim, a dimensão e a amplitude de consequências que esse valor pode ter. Primeira ideia a reter: a monstruosidade do valor dos negócios.
Diga-se de passagem que a Nos celebrou, pouco depois, contratos com a Académica, o Belenenses, o Nacional, o Marítimo, o Arouca, o Braga e o Setúbal. Os valores não foram revelados; mas basta ver o treinador do Nacional a lamentar a situação e a criticar os negócios realizados para se perceber que a diferença real entre estes contratos tardios e aqueles que os antecederam é, provavelmente, astronómica. Portanto, segunda ideia a reter: a desigualdade entre os três grandes e os restantes clubes (ou a sobrevivência dos grandes à custa do enfraquecimento dos restantes).
Há que perceber a dimensão do nosso país para a discussão que se segue. Comparando com o que vai lá fora, na Inglaterra ficaram conhecidos os negócios celebrados no início de 2015, cujo total ascendeu a 7000 milhões de euros (por três temporadas); na Alemanha, por quatro anos, os contratos valiam 2500 milhões de euros (o dobro do valor recebido pelos três grandes portugueses); em Espanha, Real Madrid e Barcelona recebem 140 milhões por época; e em Itália, o valor médio dos grandes clubes anda à volta dos 80 milhões anuais. De todos, o modelo inglês foi o mais elogiado - não pelos valores em si, que levantaram uma onda de críticas e queixas à UEFA (por irem contra o fair-play financeiro), mas pela igualdade de princípio subjacente aos acordos. O Mais Futebol fez o exercício: em 2014, o Liverpool recebeu 130 milhões, o Cardiff, despromovido, recebeu 80 milhões (apenas 1,6 vezes menos do que os reds). Equilíbrio. Terceira ideia a reter: os modelos mais funcionais são os que não esmagam os pequenos para enaltecimento dos grandes, coisa própria de um ultraliberalismo sem visão nenhuma.
Num país com 10 milhões de habitantes e 14 milhões de benfiquistas (pequena provocação), os valores conseguidos pelos três grandes são, há que admitir, muito benéficos. Mas a situação em que ficam os clubes pequenos é miserável. A imagem que isso dá do nosso campeonato é péssima: os pequenos são os "pobrezinhos", e estes negócios são a consagração da impossibilidade prática de haver um campeão que não seja Porto, Benfica ou Sporting. É a redução do futebol nacional a três cores. Tudo se resume a ver qual dos três vai conseguir o primeiro lugar em cada ano. Os outros, bem podem lutar por um lugar na Europa, agarrando-se às migalhas que a Liga não lhes fornece, mas no fundo, no fundo, são estrangeiros num campeonato que não é para eles, mas para os grandes. Quarta ideia a reter: a miséria dos pequenos.
O modelo que era seguido, antes de 2015, pela nossa Liga era o da centralização dos direitos de TV. A Liga de Clubes, agora dirigida por Pedro Proença, assumir-se-ia como 'pivot' na gestão destes negócios. Os grandes precipitaram o falhanço do plano de Proença, e puseram em destaque a inoperância da Liga, reduzida a um mero papel de espectador nas jogadas que se adivinhavam. Questionado sobre o assunto, Bruno de Carvalho disse que o Presidente da Liga "errou e muito", e acrescentou:
O ponto essencial é este: escondida por detrás dos números redondos e do proveito lucrativo a curto prazo para os três maiores clubes em Portugal, está a triste realidade que é a pobreza do nosso futebol, o caos que é a nossa Liga e a evidente desigualdade que impera neste momento no nosso país.

Que fazer, então? Ao abrigo da autonomia privada e do respeito pela liberdade de cada um, nenhuma entidade, seja o Governo, seja a Liga, sejam os tribunais, pode agora desfazer o mal já feito. Estes negócios são formalmente válidos e vinculam, quer as partes que contrataram, quer os terceiros que têm simplesmente de respeitar os acordos. Agora também não há volta a dar no plano de centralização, porque só sete clubes, creio, é que ainda não celebraram nenhum negócio. Portanto, para ser simples, as coisas estão complicadas.
O que deve ser feito, no espaço reduzido de atuação, passa por uma reforma aprofundada do modo de funcionamento da Liga de Clubes. Em primeiro lugar, o Presidente não pode continuar a ser eleito pelos clubes, modelo que, ficou provado, não funciona - a eleição de Proença, por exemplo, resultou no aparecimento de dois blocos de sinal contrário, um com FC Porto e Sporting, o outro com o Benfica, o que dificulta desde logo a tomada de decisões. Como organização com interesse público que é, o Presidente deveria ser escolhido por uma comissão independente - um conselho de administração, com algumas personalidades escolhidas pelos clubes e outras cooptadas pelos seus pares, é uma boa ideia. Em segundo lugar, a Liga deve, de uma vez por todas, autonomizar-se, reforçar-se, para deixar de ser um simples lacaio dos clubes - nomeadamente dos três grandes. Os direitos televisivos são apenas uma das áreas de intervenção onde o papel da Liga é hoje quase nulo, quando teoricamente seria essa a organização reguladora, assegurando a transparência financeira e o equilíbrio fundamental entre os grandes e os pequenos. Em terceiro lugar, parece-me cada vez mais óbvia a necessidade de regulação mais apertada dos grandes clubes, hoje em dia completamente intocáveis pelo Estado. Regulação que não se limite a exigir declarações à CMVM, mas que promova a igualdade e não a disparidade, o espetáculo e não o negócio, o conjunto e não as partes separadas, a instituição Liga e não os blocos de compadrios, enfim, o futebol como desporto e não como fonte de rendimento. Numa palavra, equilíbrio. À inglesa.
Os três negócios marcam uma importante mudança no futebol nacional, quase à altura do surgimento das sociedades anónimas desportivas, no final dos anos 90. Mas, ao contrário daquela, cujos efeitos positivos e negativos se anulam, esta nova mudança só irá trazer efeitos nefastos. É tempo de equilibrar o futebol. Não se podem ceder todos os valores basilares em prol da busca incessante do lucro. Uma tão grande desigualdade, além de eticamente reprovável, é também negativa, a longo prazo, para o espetáculo, emocionante e imprevisível, que é, ou que devia ser, o futebol.

Fontes:
http://www.ligaportugal.pt/menu-principal/a-liga/a-liga-hoje/
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/sporting_e_benfica_apontam_o_dedo_a_pedro_proenca_pele_morte_da_centralizacao_de_direitos_de_tv.html
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/os_contratos_dos_clubes_com_as_operadoras_estao_assinados_e_agora.html
http://www.maisfutebol.iol.pt/direitos-tv/internacional/o-bolo-da-premier-bate-recordes-e-assusta-a-concorrencia
Muito se tem falado e comentado sobre os monstruosos negócios conseguidos por Benfica, Porto e Sporting. Especulações sobre as valências e os prejuízos de cada um deles, mas sobretudo a comparação entre eles, numa obsessão patética para ver qual é o melhor negócio, e a partir daí proferir a sentença de qual o maior clube em Portugal.
Vamos a números. 400 milhões para o Benfica, 457,5 para o Porto e 446 (ou 515, fazendo a vontade a BdC) para o Sporting. A diferença está na empresa compradora (Nos no caso de Benfica e Sporting, Meo/Altice no caso do Porto), no número de épocas (3 com possibilidade de renegociação para 10 no Benfica, e 10 no Sporting e Porto) e nos direitos concessionados (para os três, direitos televisivos e transmissão e distribuição dos canais dos clubes; no Sporting e no Porto, acresce o patrocínio das camisolas e a publicidade estática). Mais informação pode ser analisada no quadro feito pelo Público e abaixo apresentado.

O propósito deste texto não é decidir qual o negócio mais lucrativo (como adepto de um dos clubes, acabarei sempre por me inclinar para o mais verdinho dos três contratos). Nem tão pouco o de analisar, ponto a ponto, cada um dos negócios, que deixam muito por explicar, propiciando as especulações pouco objetivas, muitas vezes ficciosas, que por aí se fazem ouvir. O propósito deste texto é outro: o de analisar a questão que, na minha opinião, é aqui o foco basilar de todos os problemas. Os contratos foram festejados efusivamente por todos os adeptos dos três grandes clubes - e não é difícil, dado o volume de milhões de euros em cima da mesa, perceber porquê. Mas resta saber: que efeitos, positivos ou negativos, é que este acontecimento tem para o desporto-rei? 1304 milhões não são pouca coisa; tanto dinheiro em jogo dava para criar milhares e milhares de empregos; percebe-se, enfim, a dimensão e a amplitude de consequências que esse valor pode ter. Primeira ideia a reter: a monstruosidade do valor dos negócios.
Diga-se de passagem que a Nos celebrou, pouco depois, contratos com a Académica, o Belenenses, o Nacional, o Marítimo, o Arouca, o Braga e o Setúbal. Os valores não foram revelados; mas basta ver o treinador do Nacional a lamentar a situação e a criticar os negócios realizados para se perceber que a diferença real entre estes contratos tardios e aqueles que os antecederam é, provavelmente, astronómica. Portanto, segunda ideia a reter: a desigualdade entre os três grandes e os restantes clubes (ou a sobrevivência dos grandes à custa do enfraquecimento dos restantes).
Há que perceber a dimensão do nosso país para a discussão que se segue. Comparando com o que vai lá fora, na Inglaterra ficaram conhecidos os negócios celebrados no início de 2015, cujo total ascendeu a 7000 milhões de euros (por três temporadas); na Alemanha, por quatro anos, os contratos valiam 2500 milhões de euros (o dobro do valor recebido pelos três grandes portugueses); em Espanha, Real Madrid e Barcelona recebem 140 milhões por época; e em Itália, o valor médio dos grandes clubes anda à volta dos 80 milhões anuais. De todos, o modelo inglês foi o mais elogiado - não pelos valores em si, que levantaram uma onda de críticas e queixas à UEFA (por irem contra o fair-play financeiro), mas pela igualdade de princípio subjacente aos acordos. O Mais Futebol fez o exercício: em 2014, o Liverpool recebeu 130 milhões, o Cardiff, despromovido, recebeu 80 milhões (apenas 1,6 vezes menos do que os reds). Equilíbrio. Terceira ideia a reter: os modelos mais funcionais são os que não esmagam os pequenos para enaltecimento dos grandes, coisa própria de um ultraliberalismo sem visão nenhuma.
Num país com 10 milhões de habitantes e 14 milhões de benfiquistas (pequena provocação), os valores conseguidos pelos três grandes são, há que admitir, muito benéficos. Mas a situação em que ficam os clubes pequenos é miserável. A imagem que isso dá do nosso campeonato é péssima: os pequenos são os "pobrezinhos", e estes negócios são a consagração da impossibilidade prática de haver um campeão que não seja Porto, Benfica ou Sporting. É a redução do futebol nacional a três cores. Tudo se resume a ver qual dos três vai conseguir o primeiro lugar em cada ano. Os outros, bem podem lutar por um lugar na Europa, agarrando-se às migalhas que a Liga não lhes fornece, mas no fundo, no fundo, são estrangeiros num campeonato que não é para eles, mas para os grandes. Quarta ideia a reter: a miséria dos pequenos.
O modelo que era seguido, antes de 2015, pela nossa Liga era o da centralização dos direitos de TV. A Liga de Clubes, agora dirigida por Pedro Proença, assumir-se-ia como 'pivot' na gestão destes negócios. Os grandes precipitaram o falhanço do plano de Proença, e puseram em destaque a inoperância da Liga, reduzida a um mero papel de espectador nas jogadas que se adivinhavam. Questionado sobre o assunto, Bruno de Carvalho disse que o Presidente da Liga "errou e muito", e acrescentou:
O Sporting era a favor da centralização, ponto. Mas a partir do momento em que um dos clubes [Benfica], que faz parte da presidência da Liga e que assina um 'business plan' em que estava escrita a centralização, depois avança para o outro lado e fura o acordo... o Sporting tinha de ir para o mercado.Luís Filipe Vieira, por seu lado, disse que Proença devia era demitir-se. Neste jogo de culpas e contraculpas, de puxar o tapete a um e elogiar o outro, percebeu-se que havia tudo menos uma visão estratégica e um sentido de negócio na Liga e na relação entre os nossos clubes. Proença errou, ponto final. Mas os clubes também não ajudaram. Quinta ideia: a incompetência de Proença, a nulidade que é a Liga e o egoísmo comprometedor das entidades desportivas nacionais.
O ponto essencial é este: escondida por detrás dos números redondos e do proveito lucrativo a curto prazo para os três maiores clubes em Portugal, está a triste realidade que é a pobreza do nosso futebol, o caos que é a nossa Liga e a evidente desigualdade que impera neste momento no nosso país.

Que fazer, então? Ao abrigo da autonomia privada e do respeito pela liberdade de cada um, nenhuma entidade, seja o Governo, seja a Liga, sejam os tribunais, pode agora desfazer o mal já feito. Estes negócios são formalmente válidos e vinculam, quer as partes que contrataram, quer os terceiros que têm simplesmente de respeitar os acordos. Agora também não há volta a dar no plano de centralização, porque só sete clubes, creio, é que ainda não celebraram nenhum negócio. Portanto, para ser simples, as coisas estão complicadas.
O que deve ser feito, no espaço reduzido de atuação, passa por uma reforma aprofundada do modo de funcionamento da Liga de Clubes. Em primeiro lugar, o Presidente não pode continuar a ser eleito pelos clubes, modelo que, ficou provado, não funciona - a eleição de Proença, por exemplo, resultou no aparecimento de dois blocos de sinal contrário, um com FC Porto e Sporting, o outro com o Benfica, o que dificulta desde logo a tomada de decisões. Como organização com interesse público que é, o Presidente deveria ser escolhido por uma comissão independente - um conselho de administração, com algumas personalidades escolhidas pelos clubes e outras cooptadas pelos seus pares, é uma boa ideia. Em segundo lugar, a Liga deve, de uma vez por todas, autonomizar-se, reforçar-se, para deixar de ser um simples lacaio dos clubes - nomeadamente dos três grandes. Os direitos televisivos são apenas uma das áreas de intervenção onde o papel da Liga é hoje quase nulo, quando teoricamente seria essa a organização reguladora, assegurando a transparência financeira e o equilíbrio fundamental entre os grandes e os pequenos. Em terceiro lugar, parece-me cada vez mais óbvia a necessidade de regulação mais apertada dos grandes clubes, hoje em dia completamente intocáveis pelo Estado. Regulação que não se limite a exigir declarações à CMVM, mas que promova a igualdade e não a disparidade, o espetáculo e não o negócio, o conjunto e não as partes separadas, a instituição Liga e não os blocos de compadrios, enfim, o futebol como desporto e não como fonte de rendimento. Numa palavra, equilíbrio. À inglesa.
Os três negócios marcam uma importante mudança no futebol nacional, quase à altura do surgimento das sociedades anónimas desportivas, no final dos anos 90. Mas, ao contrário daquela, cujos efeitos positivos e negativos se anulam, esta nova mudança só irá trazer efeitos nefastos. É tempo de equilibrar o futebol. Não se podem ceder todos os valores basilares em prol da busca incessante do lucro. Uma tão grande desigualdade, além de eticamente reprovável, é também negativa, a longo prazo, para o espetáculo, emocionante e imprevisível, que é, ou que devia ser, o futebol.

Fontes:
http://www.ligaportugal.pt/menu-principal/a-liga/a-liga-hoje/
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/sporting_e_benfica_apontam_o_dedo_a_pedro_proenca_pele_morte_da_centralizacao_de_direitos_de_tv.html
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/os_contratos_dos_clubes_com_as_operadoras_estao_assinados_e_agora.html
http://www.maisfutebol.iol.pt/direitos-tv/internacional/o-bolo-da-premier-bate-recordes-e-assusta-a-concorrencia
良いお年を (ou Feliz Ano Novo)
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.
A paz sem vencedor e sem vencidos.
Sophia de Mello Breyner Andersen
Sempre tive um certo fascínio pelo Natal - em grande parte devido à tendência festeira da minha numerosa família. Esse encantamento nunca se estendeu ao dia 31 de Dezembro - para mim, um dia igual a todos os outros. Em Portugal, gostamos de festejar efusivamente tudo; mas a falta de raízes históricas na celebração do Ano Novo diminui a importância deste evento. Para mim, basta passar com amigos, agradecer pela boa vida que levamos, recordar as pessoas importantes na minha vida, e brindar à amizade e a tempos melhores.
Noutros países não é assim - e, se repararmos bem, são aqueles países cuja história foge ao cristianismo e, por conseguinte, ao Natal. Pus-me a ver, na Wikipedia, como se celebra o novo ano em partes remotas do mundo, e desde logo fiquei preso a uma: a Ōmisoka, festa do ano novo no Japão. Em terras de budismo, a coisa tem uma carga simbólica tal que é impossível não captar o nosso interesse.
No Japão não há passas nem champanhe. Nas cidades, os hábitos não divergem muito dos que aqui se vivem. Mas no campo é totalmente diferente - e muito se deve à ainda forte (e muito positiva) influência exercida pelo budismo. Num mundo em que os templos parecem já só existir nos filmes, ali as pessoas visitam o santuário, rezam a milhares de divindades do credo de Buda, e em vez das passas, encontram no silêncio milagroso dos deuses a cura para as agonias e sofrimentos do dia-a-dia.
À meia-noite, são muitos os que ainda estão no templo. Os monges preparam uma bebida feita a partir do arroz, o amazake, cujo processo de feitura é realmente muito interessante (contém bolor - koji - que, misturado com o arroz, transforma os hidrocarbonetos em enzimas que dão um trato mais doce a uma substância que de doce não tem nada). Preparam chávenas, e todos juntos bebem, numa comunhão invulgar, entre os austeros monges e os fiéis seus seguidores.
Faz parte da véspera do ano novo manter a casa limpa, de modo a receber de forma digna Toshigomi, o deus do novo ano. Partem para o templo, e todos os mosteiros sinalizam a passagem do ano com 108 badaladas: uma por cada bonno, que são no fundo todas as emoções destrutivas que escurecem a mente do homem. Ou seja, sem haver fogo de artifício, os japoneses celebram a festa lembrando, com humildade e simplicidade, o pior que acontece na nossa vida, os episódios em que nos mostramos egoístas para com os outros, ou ignorantes por preguiça, ou simplesmente indiferentes no que ao mundo toca.
O budismo tem destas coisas - a mim deu-me ensinamentos valiosos, há coisa de uns três anos, ainda que nunca tenha meditado à boa moda budista, com yoga e tudo isso. E é curioso, a título de paradoxo: o Japão, que cria e tem tudo aquilo que o homem possa sonhar, permanece ligado ao budismo que, no seu núcleo, tem a humildade de reconhecer o sofrimento como parte integral e essencial à vida humana. Nós, que temos pouco e nos arrogamos de senhores do mundo, deixamos muitas vezes que o egoísmo tome conta de nós, sob a forma de uma alegria ébria e consumista que nada de bom traz. Falta humildade, e falta sofrimento - sofrimento na forma de não ser indiferente, de prestar atenção ao outro, de preocupação pelos problemas que subsistem no mundo e à nossa volta.
O ano novo não tem, como disse, muita relevância para alguém que, como eu, não presta grande importância à simbologia dos dias, antes seguindo Alberto Caeiro e olhando para o tempo como o inevitável e contínuo percurso que é - e não como as fatias que nós artificialmente criamos, dando nome a tudo, regendo-nos pelas horas e pelos minutos e pelos segundos e microssegundos numa infantil e tempestuosa correria pela vida cujos benefícios de solidez e segurança muitas vezes não chegam para os prejuízos de cansaço e confusão. "E porque só existe a realidade, o tempo é a ausência de tempo". O novo ano é mais um dia, e vale a pena não nos esquecermos disso.
Recentemente, contudo, tem vindo a aumentar a minha atenção por este marco, e por uma razão simples: converteu-se, com Paulo VI, no Dia Mundial da Paz. E aí ganhou uma conotação simbólica muito mais importante. Adquiriu até, na minha opinião, uma certa semelhança com a Ōmisoka nipónica. Todos os anos, os supremos líderes do catolicismo publicam uma mensagem, dirigida à busca da paz.
Hoje fui à missa - e vale a pena ir, pelo menos neste dia, seja-se crente ou não, apenas para lembrar os mais desfavorecidos, as vítimas de um Assad, Baghdadi, Maduro, Putin ou outro qualquer. O Papa, este ano, deu-nos uma missão que lembra as 108 badaladas no Japão. A mensagem (que pode ser lida aqui) tem um conteúdo genérico tão bonito quanto complexo: "Vence a indiferença e conquista a paz". Os japoneses diziam que a indiferença, além da ignorância e do egoísmo, é a origem de todos os males que nos atormentam a mente. Atente-se a semelhança!
Quando li coisas do budismo, parece que há tanto tempo foi, memorizei aquele que é, como disse, o núcleo duro da religião, especificamente a parte que diz respeito ao sofrimento. Os budistas têm como credo principal as "Quatro Nobres Verdades": são quatro "leis" muito simples, parecem até patéticas, mas que fazem justiça ao título, de tanta nobreza se revestirem os ensinamentos. A primeira verdade é que existe sofrimento; a segunda é que há uma origem para o sofrimento, a terceira refere o fim para o sofrimento, e a quarta diz-nos o modo de conseguir esse fim. Nós, com as nossas passas e os nossos desejos e o nosso (e)spumante, muitas vezes esquecemos, no meio do fogo de artifício e dos efeitos do álcool, que a realidade não é o conto de fadas de que a nossa vida é feita; a realidade é dura, dura para os que sofrem. Ter a humildade de, como os budistas fazem e como Francisco nos exorta a fazer, reconhecer que há sofrimento e lembrar aqueles que neste mundo sofrem, é dar, aí sim, uma importância ética e prática ao Ano Novo que até agora esta festa parece não ter.
Não são precisas 108 badaladas. Nem é precisa a missa, embora ela ajude. Basta a nossa atenção. Vencer a indiferença. Lembrar os pobres e os marginalizados. Concretizar essa lembrança com gestos na nossa vida diária. Vencer a indiferença. Começar esta difícil, quase teórica, mas possível jornada que é a verdadeira, mais nobre de todas as cruzadas: a conquista da paz.
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