quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O melhor de 2015

Tenho o hábito de ouvir a boa música do ano sempre muito tarde, de tal forma que a maior parte só consigo mesmo ouvir já no ano a seguir. Este ano tentei que fosse a exceção, e até que fui bem sucedido - mesmo à custa de muitas horas de estudo, ouvi todos os sérios candidatos a melhor álbum do ano, aos quais juntei algumas peças minhas. No início do mês fiz logo uma shortlist, de modo a não ser influenciado pelas listas de fim do ano prestes a sair; depois, nas férias, ouvi mais uns quantos discos (Earl Sweatshirt, Tobias Jesso Jr., Julia Holter, Jason Isbell, Alabama Shakes, Rick Ross e Sleater Kinney) e fiz os ajustes necessários.

Foi um ano de altos e baixos. Até à última esperou-se por Adele e Kanye West (e também Frank Ocean); a primeira bateu recordes mas desiludiu, o segundo e o terceiro não apareceram. Houve Kendrick, sinónimo de 11 nomeações para os Grammys. Bom sinal, porque tivemos um artista que se aproximou do génio de Michael Jackson (menos uma nomeação do que o Rei do Pop); mau sinal, porque não houve concorrência. O próprio álbum de Kendrick não foi tão bom como Good Kid M.A.A.D City, de 2012; só que nesse ano havia Frank Ocean, Mumford and Sons, Fun e o fenomenal Take Care de Drake.

De qualquer forma, houve bons acontecimentos. Adele, ainda que desapontando, é sempre boa notícia. No rap, 2015 bateu 2014 à distância: tivemos Dr. Dre, Drake, Future, Future e Drake, Earl Sweatshirt, Fetty Wap, G-Eazy, Mac Miller, Rae Sremmurd, Ty Dolla $ign, Vince Staples e Young Thug - em 2014 tínhamos Run The Jewels e pouco mais (e, por cá, os 5-30, que muita falta fizeram este ano). De resto, este ano parece ter ficado atrás: não houve Alt-J, nem Beyoncé, nem Jhené Aiko, nem War On Drugs.

De todo o modo, depois de muita coisa ter ouvido e anotado, fica aqui o meu melhor dos álbuns de 2015.


10. Father John Misty, I Love You, Honeybear e Tobias Tesso Jr., Goon



Os álbuns mais díspares no género e, no entanto, os dois muito semelhantes no conteúdo - dois cantores-compositores, duas cartas de amor (no primeiro, o título diz tudo; no segundo, basta olhar para a primeira música, "Can't Stop Thinking About You"), duas almas solitárias. A principal razão para os colocar aqui é bastante mais profana: mereciam simplesmente estar no top 10 - quiçá o primeiro um pouco mais que o segundo, mas ainda assim os dois parecem estar ao mesmo nível.

Tobias Tesso Jr. é fascinante porque faz lembrar, em simultâneo, o melhor de Paul McCartney e de John Lennon - não apenas na própria voz, mas na composição de todo o álbum. Por exemplo, se ouvirmos a última música, "Tell The Truth", com o violino no fundo, imaginamos logo McCartney, e aquela guitarra por detrás será do gosto mais ousado de Lennon; a composição parece uma combinação de ambos. Todo o álbum se assemelha aos dois maiores Beatles; mas Tobias Tesso Jr. não é um pop-star, muito pelo contrário: parece perdido, e isso leva-o a implorar um lugar na indústria musical ("Think I'm gonna try in Hollywood", em "Hollywood"). Não era preciso implorar, bastaram-lhe as melodias e uma composição do melhor que há para que Adele o fosse buscar como compositor para o seu novo álbum.

Father John Misty, pseudónimo para Joshua Tillman, é também todo ele um romântico perdido. Mas enquanto Goon é pródigo em amor inocente, o sentimento de I Love You... é tudo menos inocente: o álbum, que é quase todo uma declaração de amor à mulher, começa logo com um bastante elucidativo "You fuck the world damn straight malaise", entre muitos outros trocadilhos e dirty jokes. Mas, à parte esses trocadilhos e o sarcasmo sempre presente, Tillman é surpreendentemente sério, quer nas críticas que faz à sociedade (as músicas "Bored In The USA" e "True Affection"), quer em pequenas confissões, que ocasionalmente lhe escapam, do sentimento que o liga a Emma, a esposa (no final do álbum, o verso "Seen you around, what's your name?"). É talvez a obra, das 10 (ou 11) que encontram aqui, que mais perplexo me deixou: não pela qualidade da música em si, que é indubitável, mas pela sensação que deixa - a mistura de um ultraje de conservador com uma adoração inqualificável. Numa feliz expressão, I Love You, Honeybear é o amor lado a lado com o cinismo - o amor inocente de Joshua Tillman por uma pessoa, o sarcasmo e o cinismo de Father John Misty para com o mundo.


9. Big Sean, Dark Sky Paradise


Big Sean é daqueles rappers que, não deixando de cantar sobre os temas próprios da vida na Black America, consegue ultrapassar isso e fazer músicas próprias para um grande público. É um pouco como Kanye, seu produtor e mentor, em versão menor. O álbum tem Sean como rapper puro e duro ("I live the life I deserved, blessed, Fuck a vacay I feel better at work", em "Blessings", onde se junta com Drake) e Sean como rapper comercial ("I Don't Fuck With You", um dos hits deste ano), mas mostra outra faceta do cantor, que o aproxima incrivelmente de Kanye: Sean, o neto emocionado. Tal como Kanye se mostrou um pai babado em "Only One", o seu discípulo provou não ficar atrás com a emocionante melodia "One Man Can Change The World", que gira em torno da recente morte da avó, e para a qual chamou John Legend e, claro está, Kanye West. A música é o pico emocional do álbum. Mas todas as canções são dignas de nota: "Dark Sky (Skyscrapers)" é uma bem conseguida adaptação de "Started From The Bottom", de Drake; "All Your Fault" traz novamente Kanye, o que sempre quer dizer alguma coisa; "Paradise" é a consagração de Big Sean como um artista das palavras; e por aí fora. Num ano em que o rap não foi tão mau quanto isso, Big Sean subiu mais alto e deixou-nos Dark Sky Paradise


8. Dustin Tebbutt, Home EP




Dustin Tebbutt nasceu na Austrália, onde dá uns quantos pequenos concertos, e há coisa de quatro anos decidiu ir para a Noruega escrever música, isolado do mundo. O que dali saiu foi uma espécie de junção de Bon Iver com Ben Howard. Ouvir Tebbutt é refugiarmo-nos na música como ele se refugiou na paisagem escandinava. Aqui não há avant-gardes, ou grandes orquestras, ou qualquer tipo de profundidade intelectual; há uma voz melódica, um coro harmonioso, um acompanhamento instrumental único que formam, no seu conjunto, algumas das melhores melodias deste ano. Em "Silk", com a doce voz de Thelma Plum, um alfaiate serve como metáfora para o difícil caminho a percorrer numa relação de amor ("Tailor don't leave here yet, The silk we're seeking here, Starts as thread"). "Harvest", talvez a obra-prima do álbum, é a música ideal para o desgosto causado pelas atribulações do quotidiano, mostrando que o antídoto para o desespero é sempre a esperança. Num feliz acaso, "Plans" acaba por ser a música perfeita: a letra é toda sobre o silêncio e o efeito devastador das palavras ("Hold when you say those words"), e o melhor da música está no instrumental que se lhe segue - portanto, no silêncio. Dustin Tebbutt é daquelas boas descobertas cuja música nos passa a acompanhar dia e noite, durante todo o ano. Sem ser um músico excecional, é, contudo, aquele músico de quem bem precisamos. 


7. Julia Holter, Have You In My Wilderness




Tenho de confessar: não fazia ideia de quem era Julia Holter e só prestei atenção a este álbum, lançado em Setembro, quando a Piccadilly Records (revista que foge ao normal nestas listas de fim de ano) o elegeu para número 1 de 2015. Duas semanas depois, como verdadeira obra de arte que é, Have You In My Wilderness ainda me deixa perdido nas suas letras, nos pequenos pormenores instrumentais. Ouvi músicas que apaguei de início do meu iPod e que, à segunda vez, me pareciam o melhor do disco - como a macabramente alegre e assustadora Sea Calls Me Home. É um pouco isso que define a obra de Julia Holter, e esta mais que todas: uma permanente antítese, quer seja entre sentimentos conflituantes implícitos na letra (amor ou ódio, ingenuidade ou sarcasmo, vida ou morte), ou entre interpretações opostas que a música deixa transparecer. É como ouvir o romantismo nevrálgico, meio doente e patético, mas sempre comovedor, de uns Smiths misturado com o avant-garde de um Lennon - todo o não original sofrimento de um desgosto amoroso ("Tell me, why do I feel you running away?", em "Have You In My Wilderness") contrastante com um lirismo abstrato digno de Kandinsky ("Look in cloud's mirror, When the sea called me home" em "Sea Calls Me Home") e um surrealismo psicótico de Dali ("Can I feel you? Are you mythological?", em "Feel You"). Tudo isto faz deste álbum uma peça difícil de entender, exigente mas delicioso na sua profunda complexidade. 


6. Sufjan Stevens, Carrie & Lowell




"Frightened by my feelings, I only wanna be a relief". A frase é só por si intrigante; Sufjan quer ser ele um alívio para os outros, ou quer ser aliviado? Este verso, inserido na música "Should Have Known Better", parece um bom resumo da narrativa depressiva, suicidária e melancólica que é todo o álbum. Carrie é a falecida mãe de Sufjan - morte que ele tenta agora ultrapassar. Lowell é o padrasto. Aquilo que é um tributo a ambos acaba por ser uma reflexão sobre a iminência avassaladora da morte. Na música intitulada "Carrie & Lowell", não há descrições louváveis das memórias da mãe; há referências ao thorazine (medicamento que a mãe, esquizofrénica, tomava), a Érebo (deus da escuridão na Grécia antiga) e ao "lamento de Dido" - alusivo a uma ópera de Henry Purcell com o nome When I am laid in earth. Carrie & Lowell começa como um tributo a um casal, desemboca numa dissertação sobre a morte, para acabar como um testemunho existencialista da realidade, bela de uma forma dura, dura de uma forma bela, da vida. Por exemplo, na canção mais autodestrutiva do álbum, "No Shade in the Shadow of the Cross", que contém devaneios aqui e ali de suicídio ("I'll drive that stake through the center of my heart"), Stevens termina procurando a fé em Jesus Cristo ("There's no shade in the shadow of the cross"). Prova de que, mesmo com as experiências mais dolorosas, há sempre volta a dar - nem que seja apenas com uma guitarra acústica numa mão e umas folhas de papel noutra, como Stevens, e com esta brilhante banda-sonora dos dias difíceis da vida.


5. Tame Impala, Currents



Quando ouvi "Yes I'm Changing" pela primeira vez, parecia estar a viver o Lost in Translation de Sofia Coppola. Havia alguma coisa naquela canção, uma qualquer influência japonesa que eu pressentia, mas que era mais a presença de elementos de música techno, à qual acresciam os ruídos da cidade e do trânsito que a banda propositadamente ali colocava, e que me parecia levar para Tóquio, para uma sociedade desconhecida, o indivíduo perdido na imensidão do mundo, "There is a world out there, it's calling my name", e depois o final, "It's calling yours too", como na parte final da película, o sussurro de Bill Murray ao ouvido de Scarlett Johansson.

Todo o álbum é como que tirado de um filme. O psicadélico que tão fortemente caracteriza os Tame Impala de outros tempos - e que tão fortemente me separa deles - parece ter sido posto de lado ou substancialmente suavizado. Aqui temos sobretudo influências de música eletrónica, saídas do cinema de ficção científica. Temos músicas inteiramente techno - como "Past Life" - e outras que são mais rock do que outra coisa - como a repetitiva mas incrivelmente atraente "The Less I Know The Better". É nas partes mortas, nos pequenos skits de um minuto e meio, que se vê o verdadeiro estilo deste álbum. Apercebemo-nos de que o rock psicadélico continua ali, nos intrigantes pormenores, que afastam este álbum do que poderia ser um simples produto techno dos anos 80 (como os Daft Punk tentaram recriar com o seu RAM em 2013), tornando-o verdadeiramente em algo único e especial. "Let It Happen" é a prima dona dos Tame Impala, uma junção muito particular de rock com eletrónica a que os alemães chamaram de "krautrock" e que nos parece levar diretamente e a alta velocidade para um universo paralelo. O psicadélico, afinal, é isso mesmo, seja com rock da pesada ou com baixos e sintetizadores. E os Tame Impala são, continuam a ser, o psicadélico por excelência.


4. Justin Bieber, Purpose




Sim, tal como todas as pessoas que nasceram antes de 1997, sempre detestei o fenómeno Bieber: primeiro, a música Baby e a histeria dos Beliebers; depois, o adolescente rebelde e pomposo que agredia paparazzis, atirava ovos à casa de vizinhos, conduzia embriagado e aparecia em tribunal com uma arrogância tal que chocaria até o mais convicto dos anarquistas. A revolta contra esse fenómeno atingiu um ponto tal que, há cerca de dois anos, dezenas de milhares de pessoas assinaram uma petição exigindo a expulsão de Bieber do território americano. Em 2015, esse Bieber desapareceu e foi substituído por um verdadeiro artista, oscilando entre o Pop e o R&B, sempre com qualidade. Em Purpose, não há histerismo, não há música barata, não há aquele narcisismo tão comum às estrelas pop com vinte e poucos anos. Há um conjunto de baladas trabalhadas de forma inteligente por um conjunto invejável de produtores, onde se destaca, desde logo, Sonny John Moore, conhecido como Skrillex. Os singles "What Do You Mean" e "Where Are U Now" são a conjugação perfeita de pop, eletrónica, R&B e acústico, e o seu sucesso comercial não dinamita, antes realça, a qualidade da canção. Todo o álbum está repleto de canções de amor; mas também não há aqui, com uma ou outra exceção, aquelas palavras tão ocas e vazias que perdem o sentido. "Love Yourself" é o melhor que uma canção de amor tem para oferecer no reino do R&B. E "No Pressure" junta Big Sean e o melhor hip-hop a um álbum já de si rico em diversidade de estilos. O pop é afinal, um género que existe à custa de outros géneros, que junta o melhor do rock, do indie, do hip-hop e do R&B. E Justin Bieber fá-lo, aqui, com mestria, produzindo um resultado que eu próprio diria ser inalcançável para a grande estrela do teen pop neste nosso século. Felizmente, estava errado.


3. Jamie xx, In Colour



Não é todos os anos que sai um álbum eletrónico que se torna um marco de popularidade ouvido até nos círculos mais mainstream e comerciais. Mas também não é todos os anos que o DJ e produtor da banda indie mais popular dos últimos anos lança um disco a solo. Jamie xx, dos The xx, faz da música eletrónica um repositório de sentimentos felizes. Não temos aquela música pesada que tanto marca o estilo techno dos últimos anos - por causa disso restrito, como o metal ou a música experimental, a um círculo diminuto de apreciadores. Em In Colour não há músicas para se ouvir em discotecas nas sextas-feiras à noite - quando muito em bares no Cais do Sodré, mas não mais do que isso. Esta é música eletrónica subtil, a eletrónica do dia, mais do que da noite, a eletrónica que mostra o lado melhor - mais inocente, também - da cidade. Oiço "Obvs" e penso, não no Urban ou no Lux, mas na Ribeira das Naus ou no Terreiro do Paço. Oiço "Just Saying", apenas de minuto e meio, e vêm-me à cabeça aqueles romances alternativos de amor que por vezes aparecem no cinema. Oiço "Stranger in a Room" (com a voz do vocalista dos xx) e recordo-me, pelas suas semelhanças com a música "Together", do filme Great Gatsby de há dois anos. Claro que há aqui uma presença contínua dos xx - presença vocal ou em espírito. E é isso que torna este álbum em algo completamente único: eletrónica com traços de indie, em forma de tributo ao melhor dos dois géneros. O melhor, contudo, é quando Jamie xx chama o rapper Young Thug e cria a maravilhosa "I Know There's Gonna Be Good Times", que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores canções deste ano. Para os que, como eu, nunca conseguiram apreciar musica eletrónica desde a última vez que ouvi Primal Scream, têm aqui o melhor exemplo de como não é preciso voz quando se tem o génio e a capacidade de um verdadeiro músico como é Jamie xx.



2. Drake, If You're Reading This It's Too Late



Longe de chegar ao nível de Take Care ou Nothing Was The Same (este último, quanto a mim, o seu melhor trabalho), Drake deixou-nos este ano com uma mixtape que é de fazer inveja a qualquer rapper e músico. Pouco depois de sair, em Fevereiro, todas as canções foram parar ao Hot R&B/Hip-Hop Songs da Billboard, coisa nunca antes vista.

E percebe-se. Não é só o talento natural de Aubrey "Drake" Graham para fazer rimas e compor verdadeiros hits de hip-hop. É toda uma equipa de luxo que se reúne, sob a sigla OVO, para produzir o álbum daquele que é hoje, incontornavelmente, o artista mais bem sucedido do rap. Na equipa de produtores temos os clássicos Noah "40" Shebib e Boi1da; mas juntam-se-lhe os rookies PartyNextDoor e Travis Scott (aquele da OVO de Drake, este último da GOOD Music de Kanye, Big Sean e John Legend), estrelas em ascensão que deixam a sua devida marca no percurso do mestre.

Numa altura em que o rap é dominado por hooks repetitivos e vazios de sentido, ou letras tão agressivas que chegam a ridículas, ou sons simplesmente não apreciáveis, Drake é sempre uma perfeita válvula de escape, o artista que chega e vence, aparece e salva o rap. Este ano houve Kendrick Lamar para quem gosta; até é o meu caso - mas no caso de Kendrick em 2015, a profundidade intelectual do pensamento não salva a miséria do acompanhamento instrumental, demasiado preso ao soul, e a agressividade impressiva das letras, pouco amigáveis para um indivíduo de etnia branca que, como eu, as deseje ouvir.

De qualquer forma, houve Drake. Começa com uma assinatura de presença ("If I die, all I know is I'm a motherfucking legend", em "Legend"), passa por um ataque aos fakes rico em filosofia ("Know Yourself" parece saído de Sócrates, o grego), leva-nos a uma party song com o discípulo PartyNextDoor ("Still in Miami, most of these girls are too messy", em "Preach"), seguida logo depois por uma série de slow jams, outra vez com PND em "Wednesday Night Interlude", com Travis Scott em "Company", e sozinho em outros grandes sons como "Now & Forever", "You & The 6" e "Jungle". São estas, pelo menos, as músicas que mais me acompanharam ao longo do ano. Mas não são de desprezar as restantes. Num álbum que, como já disse, deixa muito a desejar em relação aos seus dois imediatos predecessores, Drake ainda assim conseguiu trazer-nos o melhor do rap em 2015 - e, em 2015, isso não é pouca coisa.


1. The Weeknd, Beauty Behind the Madness


Descobri The Weeknd com quatro anos de atraso. Em 2011, o agora dito sucessor de Michael Jackson (sobretudo pelo single "Can't Feel My Face") editou três misturas que lhe valeram o título de um dos mais promissores artistas do mundo. Eu só tinha ouvido uma música dele, inserida no Take Care de Drake, intitulada "Crew Love", uma música fantástica, mas cujo autor eu ignorei. Este ano, o filme 50 Shades of Grey teve na banda-sonora aquela música espetacular e inqualificável que é o Earned It, e lá fui eu procurá-lo. Balanço final: descoberta musical do ano, um ano a ouvir The Weeknd, e em Setembro sai novo álbum, quando eu ainda não tinha sequer esgotado as suas músicas antigas. Um ano em cheio.

The Weeknd, de nome Abel Tesfaye, é o pródigo artista que se define, nas palavras do próprio, como "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill" (em "Tell Your Friends"). Mulheres, sexo e drogas. A fama adquirida, primeiro, com "Earned It" e, logo a seguir, com os singles "Can't Feel My Face" e ainda "The Hills", não tornou Tesfaye num cantor pop, como se esperaria de quem pretende ser como o Rei. Pelo contrário, o velho Tesfaye ainda está lá, em músicas como "Tell Your Friends" (sexo e drogas), "Often" (sexo), "Acquainted" (mulheres) e o muito bem sucedido "The Hills" (sexo). Os velhos temas são conjugados com outros mais próprios de uma estrela pop: existe pela primeira vez uma história de amor ("Angel", além do já referido "Earned It"), e pela primeira vez vemos Tesfaye falar dos seus próprios erros, da sua vida pessoal, da sua relação com a mãe, na épica introdução "Real Life". Os ilustres convidados - Lana del Rey em "Prisoner" e Ed Sheeran em "Dark Times" - introduzem pormenores interessantes, mas quase passam despercebidos na globalidade do álbum. Claro está, o destaque continua a pertencer à música que fez de The Weeknd a nova grande estrela do pop - "Can't Feel My Face", sucessora de "Thriller" e de Michael Jackson.

Sucessor de MJ ou não, The Weeknd ocupou, desde o início, um espaço vazio. É hoje, com Frank Ocean, o expoente máximo do chamado "PBR&B": o R&B hipster ou indie que cada vez mais se tem vindo a afirmar como um estilo autónomo na indústria da música. Mas enquanto Frank Ocean é o "irmão bom", com uma forte, ainda que involuntária, intervenção política e cívica (nomeadamente pela sua homossexualidade), The Weeknd é o símbolo de uma geração desencantada com as perspetivas da vida na sociedade, refugiada no consolo efémero do álcool, das drogas, do sexo e da vida noturna, e fechada, não no narcisismo dos rappers, mas no niilismo próprio dos poetas românticos e existencialistas dos séculos XIX e XX. The Weeknd é, no fundo, um poeta à moda destas novas gerações; e assim ainda mais fica provada aquela frase de que a noite é dos poetas - noite das drogas, do álcool, do sexo e das festas de Abel Tesfaye.

É no dueto com Lana del Rey que The Weeknd confessa as mudanças recentes operadas na sua vida. Hollywood trouxe-lhe uma nova vida. Mas o que o move ainda é o mesmo: "I'm a prisoner to my addiction" - aqueles vícios que já o controlavam e que o trouxeram à ribalta em 2011. Não sabemos durante quanto tempo - até porque os vícios não são toleráveis para sempre. Por agora, congratulemo-nos com a fantástica música que nos proporciona. Celebremos o facto de ainda não ter cedido à inércia do estrelato. Porque The Weeknd ainda é o mesmo. No fundo, ainda é "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill". Em 2015, no meio das drogas e dos comprimidos, isso bastou para nos deixar com o melhor álbum do ano.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Pequeno contributo em defesa do acordo ortográfico


E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

(Excerto do poema "Quinto Império" na obra Mensagem, de Fernando Pessoa) 


Não costumo comprar jornais - leio-os no seu formato digital, e por isso dispenso o formato papel (ainda que seja muito mais aprazível de ler). Compro só quando estou de viagem. Hoje foi o caso, e não tardei a reparar na coincidência: eis que nas duas últimas vezes em que comprei o Público, num espaço de meses, apareciam curiosamente na secção de opinião artigos criticando o Novo Acordo Ortográfico. Hoje, nomeadamente, um texto de Madalena Homem Cardoso intitulado "De olhos postos no Brasil, esperançadamente". Da última vez que tinha comprado o Público pensara em escrever um artigo sobre o tema. Hoje decidi-me - pela relevância que o assunto tem e por existir, na imprensa em geral, um favorecimento, involuntário mas óbvio, das críticas ao acordo ortográfico nas secções de opinião. Segue-se, em resposta à Dra. Madalena, o meu testemunho enquanto estudante e cidadão português.

Em 1934, apenas um ano antes de morrer, Fernando Pessoa concorria ao Prémio Antero de Quental com o poema Mensagem, ficando em segundo lugar. Nessa poesia épica, à qual só demos a devida homenagem muitos anos depois, o poeta daria aquele que foi o mais bonito testemunho alguma vez feito em defesa da língua portuguesa - e, arrisco-me a dizer, de qualquer idioma.

Pessoa começara a sua vida a escrever em inglês. A Mensagem seria, aliás, a única obra portuguesa em quatro que o autor publicou em vida. Em jovem, vivera em Durban, na África do Sul, e aí criara o seu primeiro pseudónimo, Alexander Search. Queria ser o maior de todos os poetas a escrever em inglês. E, todavia, acabaria por ser (talvez) o maior poeta da história da língua portuguesa.

Qual a razão para deixar cair o inglês e, a partir de dado momento, passar a escrever apenas em português? É que nessa decisão caiu um fator fundamental, que foi o fascínio do poeta pela língua de Camões. A complexidade, a completude, a perfeição do idioma. Regressado a Lisboa depois da infância na África do Sul, nunca mais Pessoa escreveu em inglês, nem nunca mais quis ser Shakespeare, ou Keats, ou Byron, ou Poe. Dedicou-se, pura e inteiramente, a ser o maior poeta a escrever na língua portuguesa.

O resto sabemos como foi. E voltamos ao início do texto. Em 1934, Fernando Pessoa publicava a Mensagem, cujo tema central, dizem os especialistas, é o "Quinto Império". A ideia remontava à História do Futuro, escrita por Padre António Vieira nos últimos anos da sua vida, e publicada depois da sua morte. Naquela obra, o ilustre pregador parte da profecia bíblica do reino messiânico (do Livro de Daniel, 2) e reinventa-a. Dizia ele que, depois dos sucessivos impérios da história (Assírios, Persas, Gregos e Romanos), estava por vir um Quinto Império, unido em torno do Rei de Portugal, de um novo D. Sebastião.

Pessoa viu nessa profecia a base para a sua epopeia, mas também ele lhe imprimiu alterações. Para o poeta, os sucessivos impérios não se tratavam de impérios militares. Nesse caso, o Quinto Império seria, face à decadência de Portugal, a Grã-Bretanha, como a história veio a provar. Tratavam-se, sim, de impérios espirituais ou culturais: nesse caso, seriam o da Grécia, o de Roma, o da Cristandade, o da Europa pós-renascentista e... o de Portugal. Faltava cumprir-se Portugal. Faltava um poeta para fundar este "imperialismo de poetas", unido em torno da língua portuguesa, que, por ser a mais próxima da perfeição, prevaleceria sobre as demais.

O "Quinto Império" de Pessoa era um elogio público e universal à qualidade do nosso idioma. Só muito tarde é que reconheci isso. Mas há uns tempos estava a pensar nisto, das línguas, da filosofia da linguagem, e pus-me a ordenar, numa espécie de ranking, os idiomas que conhecia. No top 5 encontravam-se: o italiano, por ser, sem dúvida, a mais aprazível de se falar e de se ouvir; o francês, por ser, vá, a mais chic, e a língua da poesia; o espanhol, por ser a mais emotiva, a que mais consegue exprimir sentimentos e estados de alma; o inglês, por ser a mais musical, ao mesmo tempo simples e flexível, infinitamente ampla e moderna; e... o português.

O português porquê? Desconfio que pelas mesmas razões de Pessoa (embora não o possa provar). Trata-se de uma língua que, mesmo não sendo bonita de se ouvir, pelo menos em alguns sotaques (como o nosso), é de todas a mais rica em termos vocabulares (só talvez alcançada pelo inglês e pelo alemão) e a mais completa em termos gramaticais (inalcançável por qualquer uma). Seja em semântica, seja em sintaxe, seja em coesão ou em pontuação frásica, não há, acredito, dialeto igual.

O título do texto clarificou o meu objetivo com esta introdução. Isto tudo, afinal, para dizer o quê? As línguas não se criam sozinhas. Existem línguas marcadamente imperfeitas, como é o caso do inglês, que por causa disso é muitíssimo flexível. O português, pelo contrário, busca naturalmente a perfeição linguística. Os erros que possam existir, gramática ou vocabularmente, devem ser bem corrigidos e ultrapassados. Na forma como se ultrapassam esses defeitos é que se devem concentrar as nossas atenções.

Tudo isto para dizer, pois, que é natural, em qualquer língua, mas sobretudo na nossa, a existência de esforços de atualização e aperfeiçoamento do idioma. O "acordo ortográfico", claro está. Desconfio que Pessoa não se oporia a tal eventualidade.

Podemos contar com outras razões: razões pragmáticas, como a existência de um mundo lusófono, de 300 milhões de pessoas ligadas pelo mesmo idioma - sendo essencial a manutenção desse espaço único; ou razões históricas, vulgarmente postas de parte nas nossas acesas e emotivas discussões sobre o acordo ortográfico. Com a independência do Brasil, em 1822, o português tornou-se língua oficial de dois Estados; mas permaneceu um único idioma, sem alterações de uma ou de outra parte. Até que, em 1911, e sob o pretexto do "combate ao analfabetismo", os republicanos decidiram efetuar, de forma unilateral, a primeira reforma ortográfica - foi aí que trocámos o "ph" pelo "f" e o "y" pelo "i", por exemplo.

A língua portuguesa não é simplesmente de Portugal, nem do Brasil, nem de Macau. É de todos. Faz parte de uma cultura única, a de Camões e dos Lusíadas, e assim deve permanecer, acessível ao mundo. Portanto, depois de ter reformado unilateralmente a língua, Portugal tinha a obrigação de chamar o Brasil para uma discussão construtiva de uniformização da escrita. Foi isso que aconteceu em 1990, com a assinatura de um acordo ortográfico entre todos os países com língua oficial portuguesa. Por cá, o acordo entrou em vigor em 2009.

Face a tudo isto, como é que se pode falar de "revogação do acordo ortográfico", como li numa outra crónica neste jornal? É essencial que se mantenha a unidade da língua. Não é "brasileiro", é "português". E devíamos ter orgulho nisso.

domingo, 22 de novembro de 2015

A humanidade e o extremismo



Estava uma noite agradável. Fim-de-semana, a cidade repleta de movimento, festas, bares, concertos, cinemas, tudo aquilo que torna as cidades em algo especial. Eric decidira sair à rua. Adorava música, adorava festas, adorava a noite na cidade. Designer gráfico por conta própria, dirigia, juntamente com um amigo, a agência We Are Ted, fundada em 2007. Gostava de festas. O seu ar de quarentão hipster, de óculos modernaços, barba sempre por fazer, não revelava a profundidade psicológica, emocional de um ser humano extraordinário. Um ar tímido, de quem na verdade não era reservado, mas brincalhão, risonho, carinhoso. Naquele dia decidiu sair à rua, sem a câmara fotográfica que sempre o acompanhava no trabalho, só um bilhete para um concerto de rock pesado.

O barulho, juntamente com as luzes e o ambiente bem-disposto da cidade, são muitas vezes o antídoto ideal - ou, pelo menos, o preferido - para uma semana exaustiva de trabalho. Tudo o que há de mau no "sistema" - o trabalho, a sujidade da cidade, o trânsito, a mesquinhez e superficialidade das pessoas - parece desaparecer momentaneamente. Até para quem vá sozinho; não é preciso levar amigos, porque a própria cidade nos acompanha.

Note-se que a vida lhe corria bem, não estava deprimido nem nada disso. Gostava do que fazia. Ainda por cima trabalhava por conta própria - sem necessidade de prestar contas a ninguém - e tinha apetência natural para a coisa. A fotografia sempre fizera parte dele, desde que era pequeno.

No trabalho estava feliz. E em casa também: casara com a mulher da sua vida - ou a primeira delas, visto que passara a partilhar esse título com a filha. Antes da música e da fotografia, vinham aquelas duas mulheres, as suas grandes paixões, as razões de viver. Ele e a mulher eram um casal de adolescentes, perdidamente apaixonados, apesar de os dois já estarem nos seus quarenta anos. Um amor que crescera ao longo do tempo, que ganhara raízes profundas na vida que partilhavam os dois e que plantara uma semente com o nascimento da primeira filha. Um ano antes, a pequenina tinha entrado para a escola. Tinha 4 anos (4 anos e meio, como ela dizia). E o pai sempre fizera de tudo com ela. Fotografava-a repetidas vezes, como que a querer guardar todos os momentos, todos os instantes daquele início de vida do seu anjo. Em casa tinha tudo aquilo que sonhara, e tudo aquilo que precisava.

Mas, de quando em quando, ir à rua sabia-lhe bem. Ainda mais quando para ver uma das bandas preferidas - o barulho, as luzes, o ambiente bem-disposto, isso tudo. Naquele momento estava com felicidade acrescida, e aproveitara agora para estar sozinho antes de uma nova jornada marcante na sua vida, que estava prestes a acontecer. Na verdade, Eric preparava-se para ter uma nova criança. Outra princesa. E a ansiedade era tanta que já não pensava noutra coisa. Nem lhe vinham à cabeça as noites que teria de permanecer acordado, ou os choros, as fraldas - se bem que era inevitável que tivesse de pensar nisso. Mas agora estava simples e puramente feliz. Encantado com a vida, encantado com a sua família, com o seu trabalho, com a expetativa de ter mais uma filha, com a cidade que o recebia e o acompanhava naquela noite de sexta-feira.

Na sua vida, Eric já percorrera muitas partes do mundo. Córsega, Veneza, Nova Iorque, Dubai... Tudo documentado, todos os tesouros captados pela lente da sua máquina. Mas não havia igual a Paris. Paris era a sua outra paixão. Não apenas a beleza, já de si inigualável, dos edifícios e das avenidas; mas, mais do que isso, o movimento, a diversidade das pessoas, a profundidade intelectual de cada uma delas. Quando pensava na sua cidade, imaginava aquela noite de sexta-feira. Imaginava os cafés da Boulevard Voltaire, memórias de uma outra época, a Belle Époque. Imaginava Monmartre, de como Gide, Aron, Camus e Malraux tinham por ali passado, e Sartre e Beauvoir a caminharem de mãos dadas por aqueles recantos escondidos da cidade que é da luz, mas é, antes disso, dos pensadores e dos poetas.

O Bataclan era o lugar escolhido para aquela noite. A razão era simples: a banda de Jesse Hugues e Josh Homme, conhecida como Eagles of Death Metal, vinha dos Estados Unidos para tocar naquele teatro em frente a umas mil e quantas pessoas. O rock da pesada tinha fãs em Paris, fãs do tipo mais diverso possível. Eric era um deles. A esposa não gostava, dizia que era só barulho, e ficara em casa. Eric deitara a filha antes de sair, fazia-o sempre, e despedira-se com um beijo da bela esposa. Sempre a rir-se, perguntou se ela não queria ir, em tom irónico. Ela respondeu "cala-te", também a rir-se. As grávidas não vão a concertos de rock pesado. Então, bom concerto, beijinhos, amo-te, até já. E lá foi ele.



A noite não acabou como esperava. Não acabou em casa, junto à mulher e à filha. O concerto foi giro, sim, mas foi interrompido abrutamente. Aquilo que era uma noite de diversão - uma noite à moda de Eric e à moda de Paris - terminou como uma noite de tristeza e de morte. Às 9:40 da noite, o concerto já ia encaminhado, a atmosfera era boa, uns quantos homens desgraçados decidiram disparar contra todos os que estavam lá presentes.

Eric foi uma das 130 pessoas que morreram naquela noite. E converteu-se, assim, no símbolo de uma humanidade sacrificada em prol da demência e do extremismo. 130 não são uma estatística. 130 são a humanidade reunida em sofrimento, reunida em tristeza, reunida em fraternidade mais do que pânico ou medo.

E com o sacrifício de Eric vimos outra coisa. Nestes momentos, em que a morte e o terror imperam, a união dos homens prevalece sobre a desunião, a esperança sobre o desespero, a razão sobre o instinto. Ironia das ironias ter acontecido em França, a casa dos maiores intelectuais do Ocidente, pátria de Voltaire e da tolerância, de revoluções e de Maios de 68, da cultura, de Eric e da arte.

O que a Europa tem verdadeiramente de especial, com a França na dianteira, é ter criado uma matriz cultural que se sobrepôs à natureza simplesmente animal do homem. A "República" que os franceses tantas vezes exaltam não foi só a divisão de poderes de Montesquieu ou as figuras imponentes de De Gaulle e de Miterrand. A República foi, antes de ser isso, a instilação no coração dos homens de uma virtude assente em duas coisas: por um lado, na moderação, na auto-limitação, na perceção de que, enquanto pessoas, fazemos parte de algo maior, de uma comunidade, de uma Ideia, de um espírito global que nos torna a todos irmãos e irmãs, frères e soeurs numa humanidade fraterna (e, a partir daí, a tão essencial ideia de tolerância, de respeito, de amor ao próximo); por outro lado, na luta por um mundo melhor, que tanto se viu no Maio de 68 e que sempre se vê na forma como a França intervém no palco das relações internacionais, na defesa veemente dos direitos humanos, na cultura política e na participação dos franceses, a nível local, nacional e internacional. A França, nesse sentido, somos todos nós; e muito lhe devemos, não só em matérias de segurança ou de desenvolvimento, mas por ter ajudado a criar esta ideia de pessoa que é mais forte do que a natureza animal, do que o instinto de sobrevivência, do que a apetência pela violência e do que a lei do mais forte. Uma ideia que alguns tentam destruir, mas nem com mil Bataclans conseguirão destruir.

Eric não voltou a casa. Foi levado para o hospital, mas já tinha deixado este mundo. A mulher recebeu um telefonema. E as filhas, a de quatro anos e a que iria nascer uns dias depois, passaram a órfãs. Houve lágrimas, houve gritos naquela casa; e o próprio Eric gritara, e muito, de medo, de susto, de dor. Mas, agora, estava em paz, ele e outros 129. Ele, que decerto estará a olhar por nós, não deve ser esquecido, tal como Elsa, ou a sua mãe Patrícia, ou Fabrice, ou Gregory, e todas as outras vítimas. Na hora da maior tristeza, do maior medo pelo que possa vir a suceder, devemos celebrar o património de uma Europa que é nossa, e que aqueles 130 heróis encarnaram nas suas últimas horas de vida. Devemos preservá-lo, e devemos lutar por ele. Na luta por um mundo melhor, pela República, pelas pessoas que conhecemos, pelo Bem contra o mal.

Esquecer é trair. Relembrar é honrar os defuntos com a nossa preocupação e a nossa memória. É garantir que os criminosos não saem impunes. Garantir que esta Europa, este Ocidente, esta República não morrem. Garantir que lembramos Descartes, Voltaire, Rosseau, Tocqueville e Sartre, Monet, Cézanne, Reinoir e Degas, Proust, Flaubert e Vitor Hugo, Pascal, Laplace e Curie. Garantir que permanecemos fiéis a nós mesmos, e à humanidade que ajudámos a construir.

Lembrar e relembrar. Guardar memórias. E lutar por elas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Entre Nietzsche e o estado do mundo

A filosofia, a ciência, a guerra síria e o Médio Oriente


1. Nietzsche e o consentimento (ou ubi consesus, ibi societas)


Numa das suas obras menos conhecidas, Nietzsche escrevia que o maior perigo que podia pairar sobre o mundo era a loucura. O mundo como manicómio. Em A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft), de 1882, o distinto mestre escreveu o seguinte:

O maior perigo que sempre pairou e ainda paira sobre a humanidade é o surto da demência - que é o surto da arbitrariedade em sentir, ver e ouvir; o gosto pela indisciplina da mente; a alegria na não-razão humana. O oposto do mundo do demente não é a verdade nem a certeza, mas o universalismo e a vinculação universal à fé; numa palavra, a não-arbitrariedade nos juízos humanos. (s. 76)

A sobrevivência da humanidade, segundo o autor, residiria na nossa capacidade de formular uma "lei de consentimento" sobre todo o género de coisas, quer elas fossem verdadeiras ou falsas. As pessoas, reunidas nesta grande comunhão (cega) pela fé, viveriam em harmonia, em torno de crenças religiosas, políticas, morais e culturais. Um pouco como a visão de Lenine sobre a Igreja (o "ópio do povo"), ou a de Marx sobre a sociedade capitalista em geral (destinada a preservar o domínio da burguesia através da submissão das Ideias ao sistema económico dominante).

Partiremos do pressuposto de que a lei de que o autor fala existe, até porque, de uma maneira ou de outra, todos os maiores nomes da filosofia política, da antropologia e da sociologia acreditam que um certo consentimento é em todo o caso necessário para a formação e a manutenção da sociedade. Em como é que esse consentimento se forma é que as opiniões poderão divergir, de Hobbes no Leviatã até Rosseau no Contrato Social, passando por Locke com o seu Segundo Tratado. Em todos estes casos, é o "contrato", tácito, entre a população, que forma a sociedade. Com a subsequente institucionalização da sociedade, vem o consentimento de Nietzsche: a própria instituição do Estado disciplina a mente humana de modo a harmonizá-la com as demais.

Dizia ele que a exceção à regra seriam os filósofos, os cientistas, os intelectuais, visto que são aqueles que procuram a verdade e que, nesse sentido, teriam mais cedo ou mais tarde dúvidas sobre essa "lei do consentimento". No tempo de Nietzsche era assim, mas na segunda metade do século XX as coisas mudaram substancialmente, com a generalização do ensino superior e o advento da era digital (ao ponto de muitos historiadores defenderem que estamos na presença não já de uma Idade Contemporânea, mas sim de uma Idade Digital).

É interessante notar que esses progressos não subverteram a "lei do consentimento". Se repararmos, a lei manteve a sua eficácia, a previsão manteve-se e os pressupostos também. Sem determinado consentimento, a sociedade redundaria, mais cedo ou mais tarde, em caos. No que toca à lei, apenas se alterou o escopo dos seus destinatários. Quando Nietzsche escrevia, os intelectuais (e, de um modo geral, os alfabetizados) eram uma escassa minoria. De tal modo que, sendo tão poucos, a sua busca pela verdade poderia deparar-se com a forte oposição da esmagadora maioria da população, num esforço permanente das instituições em manterem o status quo. Foi assim, por exemplo, nos tempos da Inquisição (vejam-se os casos de Galileu ou Espinosa, entre tantos outros).

Nas últimas décadas do século XX já não era assim. A minoria passou a maioria. Para Nietzsche, o que decorria da lei do consentimento era aquilo a que chamava uma "estupidez virtuosa": a ignorância como regra geral, o conhecimento como uma pequena exceção. Nos países ocidentais, a regra passou a ser oposta: o conhecimento geral (embora não necessariamente virtuoso, no contexto do individualismo capitalista). Inverteu-se a situação social. O ópio do povo desapareceu, o mundo deu um passo em frente.

Nos países mais atrasados, o "conhecimento geral" passou a confundir-se com uma espécie de volonté générale dos tempos modernos. Essa vontade geral concretizou-se, entre nós, em dois aspetos fundamentais: no Estado Novo, na hostilidade à esquerda, e, no pós-25 de Abril, na hostilidade à direita. No nosso país, a estrutura social do Estado Novo ainda era um pouco a do tempo de Nietzsche: país rural, uma minoria instruída, afeta (grande parte dela) ao regime, contribuindo para a manutenção da superestrutura (utilizando terminologia marxista). Com a revolução, a estrutura social manteve-se, mas a superestrutura alterou-se por completo, provocando um desfasamento entre uma e outra, o que levou a que o Estado impusesse, pela força, o novo modelo político e social. Novamente, as instituições passaram a "disciplinar" a mente da sociedade, impondo uma Constituição (na altura) pouco neutra, um Conselho da Revolução muito virado à esquerda e Governos provisórios próximos do comunismo. A esquerda passou a ser a "moda", utilizando termos atuais; a direita, outrora regra geral, passou a ser a exceção perseguida. Era um exemplo da "vontade geral": quando o Estado era de direita, atacava-se a esquerda; quando o Estado passou a ser de esquerda, passou a atacar-se a direita (na gíria portuguesa, aquilo a que se chamaria a "Maria vai com as outras").

Depois disso deu-se o 25 de Novembro de 1975 e a revisão constitucional de 1982, e a situação estabilizou. A educação, a ingressão na futura União Europeia, e a plena realização de um modelo político pluralista e democrático permitiram a rápida transformação da nossa estrutura social, tendendo para a convergência entre a nossa sociedade e a nova superestrutura estadual. Enquanto em outros locais a educação provocou sobretudo um desenvolvimento económico (como nos Estados Unidos, onde surgiam as startups e a grande escalada de conhecimento tecnológico), noutros países, onde a democracia era mais recente, como por cá, a situação ia no sentido de uma maior intervenção política dos cidadãos, uma maior awareness relativamente aos problemas do país e do mundo.



2. Popper e Sartre (ou Ciência, Cultura e Sociedade)


De qualquer maneira, com a educação alargada e o aprofundamento das democracias, o "conhecimento geral", pressuposto da lei do consentimento, deixou cair a sua marca de vontade geral na terminologia de Rosseau para passar a ser caracterizada por um necessário respeito pelas minorias, naquilo a que eu chamarei de "conhecimento virtuoso" ou "tolerante".

Esta ocorrência parece ter uma explicação, antes de mais, civilizacional, uma vez que os meados do século passado trouxeram para as sociedades americana e europeia mudanças radicais, a nível científico, cultural e social. Afinal, os positivismos científico, cultural e sociológico dominantes na 1ª metade do séc. XX tinham falhado redondamente.

O positivismo era, em suma, a crença absoluta nas possibilidades do homem. Foi dominante na ciência, na literatura, na filosofia e, em geral, na sociedade do século XIX e dos inícios do século passado. Mas, como atrás referimos, um certo número de fatores contribuiu para a falência do positivismo, nas suas vertentes científica, cultural e sociológica: no primeiro caso, devido ao relativismo de Einstein e ao advento da física quântica com Max Planck; no segundo, devido às vanguardas artísticas; no terceiro, porque a crença na perfetibilidade da sociedade e da raça humana fora, em certa medida, a principal razão para a eclosão do fascismo, do nazismo e, bem assim, do comunismo a partir dos anos 20 e 30.

Na ciência, em substituição deste modelo falhado do positivismo, surgiu Karl Popper, com a sua teoria epistemológica da refutabilidade das teorias científicas, segundo a qual uma teoria só seria válida (ou, melhor dito, verosímil) na medida em que não sobreviessem dados empíricos a refutá-la. Popper foi o fundador da filosofia da ciência verdadeiramente moderna.

Na filosofia propriamente dita, por seu lado, o idealismo, património de Hegel, fora criticado, já no séc. XIX, pelas correntes materialistas, com relevo para Feuerbach e, efetivamente, para Marx. Mas só mais tarde é que essa teoria foi verdadeiramente ultrapassada, por aquele que talvez tenha sido o filósofo mais influente do século da democracia e dos totalitarismos: falo de Sartre e do existencialismo que ele transpôs para o mundo da cultura. Portanto, se o positivismo científico foi derrubado por Popper, o fim do positivismo cultural deveu-se a Sartre. A ideia era simples, e, se me é possível resumi-la em três pontos, era algo assim: 1) A existência precede a essência; o homem, através das suas ações e experiências, molda o seu caráter e dá-se a conhecer aos outros, formando-se assim uma Ideia; 2) Deus não existe, porque não passa de uma ilusão; 3) O homem, porque Deus não existe, está desamparado, só está dependente de si, é livre, devendo agir bem para aproveitar ao máximo esta vida, que é a única. Este pensamento teve reflexos importantes no mundo da literatura, do cinema, e da política propriamente dita, embora não faça parte deste estudo a análise crítica do existencialismo, que deixaremos para outra altura.

Quanto ao "positivismo sociológico", este foi ultrapassado por aqueles fatores a que já fizemos referência: o desenvolvimento tecnológico, a Era Digital, e, acrescente-se, a globalização, visto que, com o derrube das antigas fronteiras e a criação das primeiras organizações internacionais, o mundo deixou de estar confinado a uma série de Estados para passar a ser uma verdadeira aldeia global, de limites fluídos e contornáveis. Deu-se, com isso, o multiculturalismo, que em grande parte levou ao fim dos antigos preconceitos e à harmonização das relações entre pessoas de diferentes religiões, etnias, nacionalidades e orientações pessoais e políticas.

Esta breve explicação serve, no fundo, para dizer que a "vontade geral", que estava em sintonia com um certo positivismo, na medida em que só admitia uma possível verdade, foi substituída por uma civilização completamente nova, levando à radical transformação daquela "lei do consentimento", agora constituída por um necessário respeito por opiniões diversas e, assim sendo, das minorias. Sou levado a crer que aquilo que foi o aprofundamento da democracia, não apenas a nível institucional, mas a nível de participação ativa dos cidadãos, também se deveu a estas alterações sociais e culturais.



3. Mujahideen (ou a educação como pressuposto da paz)


Tudo isto levou a um novo passo na história do mundo. Já aludimos à globalização e à criação das primeiras verdadeiras organizações internacionais. E isso leva-nos ao derradeiro propósito deste texto, que começou em Nietzsche como simples pretexto para aqui chegarmos. O mundo, como nós o conhecemos hoje, foi produto da "lei do consentimento". Essa lei começou como uma "estupidez virtuosa" generalizada, transformou-se, como vimos atrás, num "conhecimento geral", e este conhecimento geral adquiriu duas facetas: uma, de "vontade geral", baseada ainda numa ciência que se pretendera substituir à religião e que, na sua cegueira positivista, conduzira verdadeiramente à mesma ignorância que antes se verificara; e uma segunda, própria dos países desenvolvidos e democráticos, baseada no respeito pelas minorias, na educação e na cultura como alicerces de uma sociedade harmonizada e avançada.

Hoje, ainda assistimos a resquícios da velha "vontade geral" que Rosseau ingenuamente nos deixou (e que foi aproveitada pelas democracias populares e pela União Soviética). Falo, por exemplo, do Estado Islâmico. A situação que se verifica atualmente no Médio Oriente não é nova. Existe um filme muito bom relativamente ao caso afegão mas que podemos estender a muitos outros países daquela conturbada região. O filme, com Tom Hanks, chama-se Charlie Wilson's War e é, no fundo, uma descrição do percurso militar americano no Afeganistão desde 1979, altura em que a URSS invadiu aquele país e os americanos decidiram apoiar os mujahideen, as tribos rurais afegãs (hoje conhecidos como talibãs). E o filme partia desse confronto para um ponto essencial comum na política externa norte-americana: depois de conseguir que os soviéticos se retirassem (1989), Charlie Wilson, congressista que havia impulsionado o apoio aos mujahideen, bem pediu que os Estados Unidos financiassem a criação de escolas e hospitais no longínquo Afeganistão, mas rapidamente os esforços de Wilson se desvaneceram. Apenas ficaram os interesses económicos (gasodutos). Rapidamente o interesse político e, vá, humanitário se desvanecia; alguns anos depois, os talibãs, antigos apoiantes dos americanos, insurgiam-se contra a ocupação (económica) do seu país.

E o mesmo sucedeu no Iraque, depois da deposição de Saddam, e agora na Síria com a oposição a Assad. Curiosamente, é nestes dois países que o Estado Islâmico hoje adquire a sua maior força. Tudo isto para dizer o quê? A educação faz a diferença. O consentimento cria e mantém sociedades; mas é a educação que permite harmonizá-las e fazê-las avançar. A educação transforma a "estupidez virtuosa" na "vontade geral" e eventualmente num "conhecimento virtuoso", numa "vontade virtuosa", se assim lhe podemos chamar. Conduz, enfim, à "não-arbitrariedade dos juízos humanos" que Nietzsche referia.

Portanto, essencialmente, o problema no Médio Oriente é cultural. O que não é razão para dizermos que "sempre foi assim, portanto sempre será", o que além de ser uma falácia só pela lógica, também o é porque os dados empíricos que temos contrariam essa conclusão. O Médio Oriente foi desde os mais remotos tempos a região mais avançada do mundo, desde os sumérios aos otomanos, passando por babilónios, persas, judeus, selêucidas (gregos), romanos, árabes e seljúcidas (turcos). As coisas começaram a mudar para pior com os otomanos, mas só se tornaram verdadeiramente atrozes quando os europeus impuseram a típica "paz dos vencidos" que destruiu o Império Otomano e dividiu o Médio Oriente em múltiplos protetorados, logo após o fim da Grande Guerra em 1918. A partir daí as coisas foram sempre mal feitas: primeiro, por ingleses e franceses que não respeitaram as tradições milenares e a diversidade étnica e religiosa da região, cortando fronteiras como fatias, sem qualquer atenção às nacionalidades diversas. Mais tarde, por americanos, que decidiriam criar um Estado judeu, em 1948, num sítio onde a esmagadora maioria da população era árabe, sem sequer terem a ideia de que uma solução de dois Estados talvez fosse a melhor. Novamente por americanos no Irão, no Iraque (até há bem pouco tempo um não-Estado), no Kuwait, no Afeganistão, no Paquistão e, recentemente, no Egito, na Líbia (hoje um não-Estado) e na Síria (provavelmente a mesma coisa).

Obviamente não se está aqui a defender Assad ou a fazer uma apologia do regime sírio, ou de Khaddafi na Líbia, muito pelo contrário. Foi o modus operandi dos americanos que deixou muito a desejar: na Líbia, porque apoiou uma caça ao homem sem se preocupar com as consequências políticas de tal evento; na Síria, porque decidiu apoiar uma oposição política, moderada, apenas por mediatismo e conveniência, mas sem lhe fornecer apoio concreto. Foi Clara Ferreira Alves que apontou no Eixo do Mal de há umas semanas, e muito bem: em plena guerra civil síria, a Alemanha continuava a exportar armas para o Governo sírio. Os Estados Unidos só começaram a enviar armas para a oposição mal e tardiamente. E, nessa altura, já tínhamos uma al-Nusra e um Daesh (EI) a reunir apoiantes e a expandir-se rapidamente em território sírio e iraquiano.

E, lentamente, o Estado Islâmico vai-se tornando, é verdade, um Estado. Há uns tempos saíam notícias da construção de hospitais e de escolas nos territórios controlados pelos terroristas. E, a pouco e pouco, se nada entretanto for feito, terão certamente um Estado, dotado de propaganda própria e de uma cultura específica, e farão, pelos meios adequados, o trabalho que lhes compete, o de "educar" para, novamente recorrendo a Marx, criar e manter uma superestrutura oficial. Em pleno século XXI, custa que algo assim possa acontecer. Mas acontece.

Também nos países desenvolvidos existe extremismo. E há que combater esse extremismo. Uma democracia que respeita as minorias é uma democracia de risco, porque nessas minorias pode, a dada altura, surgir um lunático que, aproveitando a liberdade de expressão, expanda ideias menos democráticas ou tolerantes no seio do meio social. Mas, como a história pode comprovar, é sempre melhor correr os riscos da liberdade do que viver sem ela. Os riscos da liberdade devem, sim, ser combatidos pela educação. Não pela unanimização de ideias, que nos levaria de novo ao positivismo, mas sim através de uma educação cívica, alicerçada em valores universais como a dignidade do homem, a igualdade de géneros, a tolerância e a liberdade.

Faltou educação. Faltou esforço. Deixámos que a situação se desenrolasse a este ponto, depois de os nossos antepassados ultrapassarem duas guerras mundiais. Não aprendemos a lição, e o mundo está como está. Mas há sempre remédio. Há sempre algo a fazer. E esse trabalho deve começar agora. Desta vez, com a lição bem estudada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ajuste de contas

Antes de mais, uma pequena epígrafe relativamente ao título escolhido: era ainda meio-dia e já tinha em mente um "ajuste de contas", qualquer que fosse o resultado das eleições, vitória do PS ou vitória da coligação. Ainda que pese alguma tristeza, na hora em que António Costa sai derrotado, este texto já estava pensado para qualquer eventual desfecho eleitoral. Dito isto, e independentemente dos resultados já confirmados, gostaria de deixar uma breve nota sobre alguns aspetos que não podem ser esquecidos, e acerca dos quais se devem tomar efetivas medidas nos dias difíceis que se avizinham.

1. Campanha do PS

Um primeiro ponto diz respeito à campanha do Partido Socialista. Existe um dado incontornável que ninguém deixa de referir neste momento: como é que, após quatro anos da governação mais impopular da história da democracia, o PS não alcança, no mínimo, uma maioria relativa no Parlamento? Será que o povo, como escreveu Henrique Monteiro no Expresso, "enmalucou"? Não diria tanto, mas a resposta não deixa de ser simples. A campanha de António Costa foi, sem qualquer tipo de dúvida, um desastre. Nem tanto pelas contradições do próprio líder, embora elas tenham sem dúvida pesado, mas pelo rumo que a direção de campanha decidiu tomar. Penso que foi Nuno Garoupa que o disse, e Marcelo repetiu-o no comentário de há oito dias: as eleições não se ganham à esquerda, não se ganham tentando tirar 80 ou 100 mil eleitores ao BE e ao PCP (eleitorado que tradicionalmente oscila entre um e outro, mantendo-se fixo, ainda por cima); ganham-se, sim, cativando os 600 mil indecisos que existem ao centro. O centro é um vazio ideológico; mas não é um "gambozino" político, como hoje dizia Helena Roseta. O centro tem efetivamente 600 mil eleitores que preferem estabilidade à instabilidade, mas que não abdicam de mudar de partido quando vejam propostas que, além de cativantes, sejam legítimas, construtivas e coerentes. O PS fez um programa moderado, conciliador. Abriu uma nova etapa de transparência, ao redigir um cenário macroeconómico, coisa nunca antes feita. António Costa é ele próprio um moderado. Como é que se explica que a campanha seja dirigida à esquerda, e não ao centro, como devia ter sido?

Esta medida, além de imprudente (porque o PS se esqueceu de 600 mil indecisos), trouxe outro efeito nefasto para os socialistas. Ao recorrer ao voto útil, não dos indecisos no centro, mas do eleitorado mais à esquerda, o PS conseguiu concentrar as atenções do BE e da CDU no ataque não à direita, mas ao centro-esquerda. Não deixou de ser um golpe baixo do BE e da CDU, e penso que isso também merecia explicações de uns e outros. Mas o que isso trouxe foi ataques ao PS vindos de todos os lados, da esquerda, da direita, do centro (para não falar dos que já existiam dentro do próprio PS, mas isso é outra história).

Um outro aspeto, que também foi penoso de assistir nesta triste campanha, foi este: como é que, não tendo a coligação um programa de governo, o programa do PS passa a ser escrutinado por tudo e por nada, como se António Costa tivesse sido primeiro-ministro nos últimos quatro anos, e Mário Centeno o seu impiedoso ministro das finanças? Como é que o PS se deixa levar por estes marketing, tentando responder a tudo e todos, mal e tardiamente?

Outra coisa. A campanha propriamente dita. Os cartazes, enfim, foram um erro, mas António Costa assumiu as culpas e a coisa correu bem. Agora, não se percebe como é que a coligação faz uma campanha brilhante nas ruas e o PS e a JS não saem à rua. Desculpar-me-ão, mas é pura incompetência. A JSD, a JP, o próprio Bloco de Esquerda fizeram ações de rua, no cara-a-cara, profundamente competentes. Mobilizaram. O PS não mobilizou.

Muitos outros pontos ficam por dizer. Mas o ponto-chave era este: António Costa não é homem de fazer campanha. É homem de mostrar o que vale com o seu trabalho. Em 2013, não é por acaso que tenha conquistado mais de 50% dos votos nas eleições para a Câmara. As pessoas reconheciam o trabalho feito. Reconheciam a competência. Como é que a direção de campanha não aposta nisso? Não aposta no facto de termos tido, nestas eleições, o candidato mais competente a primeiro-ministro destes 40 anos de democracia? Porque, afinal de contas, tínhamos perante nós alguém que foi líder da bancada parlamentar, Ministro da Justiça, Ministro da Administração Interna e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, funções que desempenhou, na globalidade, com reconhecido mérito e excelência.

Portanto, o que fica por fazer? A responsabilidade será de António Costa? Deverá ele demitir-se? À primeira pergunta, claro que não ficará ilidido de culpas no meio disto tudo. Pecou por omitir-se, pecou por incoerências, e pecou sobretudo, na minha perspetiva, por ingenuidade (acredito piamente que Costa é um homem ingénuo, e que, no meio de todas as sondagens, de toda a propaganda da comunicação social, tenha ficado emocionalmente de rastos a meio desta campanha). Mas a campanha propriamente dita não compete a Costa. Ela deve ser gerida por profissionais, por gente que saiba de 'marketing', que perceba as dinâmicas da campanha, que crie uma imagem cativante do candidato, e que, mais que tudo, entenda aquilo que as pessoas querem. Não é Costa que tem a maior responsabilidade no meio disto tudo. É Duarte Cordeiro e é o conjunto de 'marketeers' que conseguiram fazer de um processo que parecia fácil uma campanha penosa e miserável.

E à segunda questão: deverá Costa demitir-se? Aí as opiniões poderão divergir. A minha resposta é um contundente não. Primeiro, porque, como já foi dito, não há um candidato com tanta experiência e tanta capacidade política. Segundo, porque não há ninguém que lhe possa suceder no PS. Não irei fazer um escrutínio cuidadoso de todos os hipotéticos candidatos, mas posso olhar para qualquer militante do Partido Socialista (ou, se quiserem, de toda a esquerda) e dizer que não existe, hoje, de maneira objetiva, um candidato melhor do que António Costa. O que o PS tem de fazer não é mudar de líder. É, sim, fazer aquilo que não fez durante toda esta campanha: dar provas de união em torno do secretário-geral. Porque o pessimismo que reinou no PS não foi só pelos ataques de forças externas. O pessimismo reinou porque, entre soaristas, seguristas e socráticos, de costistas sobravam poucos. Faz lembrar o tempo de António Guterres. E isso sentiu-se hoje, nas declarações profundamente atrozes de Eurico Brilhante Dias, de Álvaro Beleza e de Ana Gomes, que, em boa verdade, nunca estiveram ao lado de Costa, e que agora vão entrar em cena nos bastidores, nos meses que aí vêm. Portanto, um apelo à união no PS, e ao reconhecimento de que Costa, apesar da péssima campanha, é todavia o melhor líder que o partido poderia ter neste momento.

2. A opção da coligação

Nestes próximos dias teremos à nossa frente três possíveis desfechos para o impasse parlamentar que as eleições nos deixaram: 1) governo minoritário da coligação; 2) governo maioritário de esquerda; e 3) eleições antecipadas.

Destes três cenários, o segundo é de todos o mais improvável, uma vez que é muito mais o que separa o PS do BE e do PCP do que aquilo que o separa da coligação. E ainda que esse pudesse ser, em teoria, um cenário histórico e uma mudança positiva na democracia portuguesa, esse não deverá ser o caso, porque temos dois partidos que assumem uma feição radical, com a obsessão absurda da saída do euro. Portanto, na forma como esses partidos estão concebidos na atualidade, essa solução parece-me (à partida) impensável.

A primeira exige duas coisas essenciais: cedência da parte do PS, e cedência da parte da coligação. O PS não pode abdicar do seu programa, e tem de o defender, mas também tem de respeitar a vontade popular. Agora, a promessa de Costa chumbar um orçamento da coligação não foi assim tão radical como quiseram fazer parecer; na verdade, se a coligação apresentar um Orçamento de Estado semelhante aos de 2012, 2013, 2014 e 2015, então é natural que o PS a ele se oponha. O que isso significa, portanto, é que a coligação também não pode deixar de fazer cedências, num esforço conciliatório com os socialistas no Parlamento. Feito isto, um governo minoritário até poderá ser a melhor solução: um Parlamento à esquerda e um Governo à direita, ainda que seja uma solução mais instável do que uma maioria absoluta, pode ser aquilo que o país bem precisa neste momento.

Mas a história diz-nos que isso é coisa improvável. E isso leva-nos ao terceiro eventual cenário. E aproximamo-nos do exemplo dado pelo Governo minoritário de Cavaco Silva, de 1985 a 1987, ano em que o então primeiro-ministro conseguiu forçar eleições antecipadas e ganhar a maioria absoluta. Neste caso, teríamos então um Governo minoritário PSD/CDS que, não fazendo as tão necessárias cedências, no que toca ao Orçamento de Estado, forçaria eleições antecipadas, culpando o PS, e tentando adquirir maioria absoluta. Porque, sejamos sinceros, este Governo só conseguirá cumprir rigorosamente o seu projeto governativo com uma maioria absoluta na Assembleia da República. Esperemos, enfim, que tal não aconteça.

3. As outras esquerdas

Já foi aqui referida a posição injustificável do BE e da CDU relativamente ao PS nesta campanha. Até vários eleitores do PCP, ao cruzarem-se com Jerónimo de Sousa, fizeram questão de pedir ao líder comunista que poupasse António Costa e dirigisse os seus ataques à direita. O PS teve demérito na campanha. Mas a CDU e o BE juntaram-se à direita numa cruzada contra Costa e contribuíram deste modo para a vitória da coligação nestas eleições.

O que falta, então, a estas outras esquerdas? O Livre, que não conseguiu eleger nenhum deputado, falava na campanha da necessária convergência da esquerda. Porque, afinal de contas, a esquerda venceu estas eleições, e a direita perdeu-as. Deixar o Governo à direita não será quebrar a legitimidade eleitoral? O que terá a esquerda a dizer quanto a isto?

Neste século XXI, é incrível ver como é que dois partidos que se dizem de esquerda - e, por isso, progressivos - insistem em velhos brocados como uma "política patriótica de esquerda" que pede nacionalizações a torto e a direito, a saída do euro e um modelo marxista-leninista de organização do Estado? Como é que o trotskismo e o maoísmo ainda assombram as ideias do Bloco? Mas, mais que tudo, como é que estes partidos conseguem dar ao desbarato o poder à direita, e não conseguem formar uma alternativa coerente, eventualmente uma solução governativa? Como é que, agora que a direita perde as eleições, afinal de contas vai continuar no poder?


São apenas alguns apontamentos sobre as medidas difíceis, e todavia necessárias, que nos esperam nos próximos dias. 

Já passa da meia-noite. Dia 5 de Outubro. Dia da República. Thomas Jefferson dizia, a respeito de um governo republicano, que este apenas se manteria verdadeiramente representativo e legitimamente democrático na medida em que se orientasse pela razão, pela justiça, e pelo bem comum. Devem ser esses os valores presentes na ação política nestes próximos dias. Como dizia Sartre, sempre com cautela, mas sempre com audácia. O futuro do país, e o futuro das nossas vidas, depende disso.

sábado, 19 de setembro de 2015

Números

Em 2012, o Instituto de Ciências Sociais da UL organizou um colóquio cujo tema era "O estado das direitas na democracia portuguesa". Na intervenção que fez nesse evento, António Araújo (não, não sou eu) dissertou sobre aquilo que refere como "A cultura de direita em Portugal", uma história extensa mas pormenorizada de um fenómeno que se iniciou nos anos 80 e que hoje parece ter atingido o seu auge. Uma verdadeira cultura de direita. A propósito, esse texto, cuja leitura recomendo vivamente, pode ser encontrado aqui.


Acontece que temos assistido, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo, a um movimento que tem vindo a dominar não só as consciências de um grande segmento das populações (com particular destaque para os mais jovens, falando por experiência própria), mas também a comunicação social, a cultura, o ensino e os governos. Em que consiste esse movimento? Na unanimização de ideias, na monopolização do dicionário do debate político, com a consequente hostilidade e desprezo por qualquer alternativa que não consista no que é pretendido. Ideias que começaram, nos anos 70, com a social-democracia dos países ocidentais e foram-se desviando progressivamente para a direita do espetro político: nos anos 80, liberalismo, nos anos 90, ultraliberalismo, nos anos 2000, ultraliberalismo "selvagem", e, hoje, aquilo que eu vejo como uma nova construção política, completamente original e distinta das demais.

Este movimento é essa tal cultura de direita. Nos anos 80, tanto o Semanário como O Independente, criados por Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas, respetivamente, começaram a influir diretamente e de forma decisiva na opinião pública. Portas conseguiu especificamente contribuir para a queda do cavaquismo. Era um novo tipo de jornalismo que praticava, assumidamente de direita, um jornalismo de investigação tendencioso, do género Correio da Manhã, mas inteligente do tipo Expresso, e que formava uma combinação apelativa e única. Não se tratava de uma direita passiva e reservada, como era típico ver no PSD e no CDS, mas de uma direita de protesto, ativa e pomposa, que atacava tudo e todos, substituindo-se à esquerda radical como grande força de indignação. Na comunicação social, tínhamos Portas, o "anarquista de direita". Na política, tínhamos elementos de uma juventude frequentadora de cafés, muito ligada à cultura e presença assídua no debate jornalístico, desprendida do típico discurso politicamente correto, ideologicamente situada no liberalismo (economicamente liberal, socialmente conservadora) e que tinha elementos como Marcelo, Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, entre tantos outros, uma amálgama de anticavaquistas que vinham procurar deixar o seu lugar na história.


Portugal era um país que, apesar de já dominado pelo centro-direita (Cavaco Silva fora eleito sucessivamente em três eleições legislativas), não tinha uma direita culturalesca, muito liberal e muito conservadora ao mesmo tempo, hostil à esquerda, com pouco espaço para consensos políticos ou aproximações ideológicas. A partir daí, esse movimento foi crescendo, conseguindo chegar a mais pessoas ao longo do tempo, sempre com a mesma base central de apoio - jovens, escritores, artistas e parte significativa da comunicação social. Ao mesmo tempo, o CDS tornava-se PP, canalizando muitos votos dos que antigamente iriam ou para o PSD, ou para o PPM, ou seriam votos brancos ou nem sequer seriam votos. O PSD contou com uma mudança deste género mais tarde, com Marcelo, sem grande sucesso. Tanto Durão, como Santana, como Manuela Ferreira Leite não se aproximavam deste modelo, fazendo parte da linha tradicional do partido, e houve uma altura em que, tendo Portas saído do PP em 2005, não havia representação partidária para o movimento. Nestas alturas, perdia visibilidade e folgo. Em 2006, O Independente fechou, e no mesmo ano Cavaco era eleito para a Presidência da República. Mas, um pouco mais tarde, o movimento iria reerguer-se e reconfigurar-se, alterando a sua estrutura e sobretudo a sua substância ideológica.

Entretanto, do outro lado da barricada, o PS conseguira um importante rejuvenescimento, começando com Guterres (1995-2002), que juntara a seu lado jovens promissores como José Sócrates, António Costa, António José Seguro, Francisco Assis, entre muitos outros. Era, do lado da esquerda, o equivalente à cultura de direita, sem conseguir contudo o monopólio do espaço político ou o domínio da comunicação social. Mas estava muito ligada à cultura, e era ideologicamente progressista da mesma maneira que o movimento dos anos 80 era liberal e conservador. Uma esquerda "burguesa", surgindo por volta da mesma altura em que a direita "burguesa" desaparecia, e que contaria com um apoio entusiástico de grande parte da população, então entediada com os governos de Durão (2002-04) e sobretudo de Santana (2004-05). Seria determinante, este último, para a vitória de José Sócrates nas eleições legislativas de 2005, com maioria absoluta. Triunfava então essa esquerda também ela culturalesca, embora discreta, não contando com o estilo aceso e exorbitante de Portas e companhia.

A governação de José Sócrates, sobretudo no seu segundo mandato (2009-11), contribuiu decisivamente para o desaparecimento deste entusiasmo pelo "novo" PS (agora até certo ponto renascido, nas mãos de António Costa, ele próprio muito ligado à cultura, frequentador de salões, de cafés e de salas de cinema). Em 2011, a cultura de direita reapareceu em força, atingindo o seu apogeu a partir de 2014. O Independente fechara, é certo, mas surgira um jornal tão ou mais relevante, muito mais discreto na sua abordagem, conseguindo chegar a um público muito mais extenso, com uma influência determinante na opinião pública. Falamos, claro, do Observador, que teve períodos particularmente decisivos como foi com as reportagens sobre a Grécia, sobre Sócrates e, agora, sobre as legislativas. Com comentadores importantes, mas assumidamente anti-esquerda (mais do que de direita), como José Manuel Fernandes, o Observador foi uma notícia agradável para a direita e péssima para a esquerda, que não tinha uma presença na comunicação social desta dimensão e calibre, e só o PCP contava com uma estrutura verdadeiramente equivalente, quer na Festa do Avante!, quer nos media propriamente ditos.

Além do Observador, surgiram, um pouco por todo o lado, figuras importantes desta nova cultura: João Miguel Tavares na TVI/TSF e no Público, Henrique Monteiro e Henrique Raposo no Expresso, Mário Crespo e sobretudo José Gomes Ferreira na SIC, José Rodrigues dos Santos na RTP, Manuela Moura Guedes na TVI, entre muitos outros. A TVI tivera uma viragem à direita com José Eduardo Moniz, tornando-se porta-voz da oposição a Sócrates na sua governação, e o Público tivera o mesmo durante a direção de José Manuel Fernandes. Mas mais importante revelou ser o Correio da Manhã, dirigido por Octávio Ribeiro, com manchetes tendenciosas e um jornalismo pouco convencional, à moda do Sun no Reino Unido e da Fox News nos EUA, e que ganhou um relevo político incontornável. Um pouco por todo o lado, a direita voltara para ficar.

A cultura de direita regressara, mas com profundas alterações. Continuava a direita ligada aos jovens, com forte implantação nas universidades e nos colégios privados, e à cultura. Mas não se resumia à direita liberal a cujo início assistíramos nos anos 80. Aquele movimento marcara a tendência, hoje dominante na direita, do "economicamente liberal, socialmente conservador", mas depois de 2012 este último aspeto acentuou-se. O novo movimento não contava só com os assumidamente liberais ou libertarians. Tinha agora, sobretudo entre os mais jovens, o forte apoio dos mais ligados à Igreja, antigos cristãos-democratas ou sociais-democratas. Além disso, por oposição ao anacronismo da direita liberal de Portas e dos anos 80, a direita encontrava agora um enquadramento moral, incutido pela comunicação social e encorajado pelo Governo PSD/PP, que tomara posse em 2011, depois do falhanço político da governação socialista. O discurso, por eles favorecido, era o da "década perdida": com os socialistas no poder, as políticas expansionistas, de cariz keynesiano, tinham levado a Europa ao desastre. Ao mesmo tempo que Passos Coelho e, sobretudo, Paulo Portas, agora de novo no governo, proclamavam abertamente o falhanço brutal da esquerda, pela Europa fora acontecia o mesmo: no Reino Unido, Tony Blair e, depois, Gordon Brown eram julgados pela crise económica depois de 13 anos de governação à esquerda e David Cameron, dos Tories, era eleito primeiro-ministro (sendo reeleito, em 2015, com o mesmo discurso, contra Ed Milliband); na Grécia, o PASOK era acusado de um buraco avassalador nas contas públicas, e a Nova Democracia, de direita, subia ao poder, em 2012; na Espanha, o mesmo acontecia com Zapatero, tendo Rajoy, do Partido Popular, subido ao governo em 2011.




À frente destas mudanças, e encorajando-as com todo o entusiasmo, estava a Alemanha. E seria a atitude da Alemanha que marcaria esse traço distinto da nova direita, um enquadramento moral, muito rigoroso e bem delineado. A teoria da "década perdida" surge precisamente com a Alemanha, cerca de 2010, quando se descobre o buraco nas contas públicas gregas, marcando o início da crise das dívidas soberanas, que alastra à Irlanda, a Portugal, à Espanha e à Itália. Em 2009, a Comissão Barroso decidira apostar por uma política expansionista, de investimento público, para responder à crise. Face ao suposto falhanço desta política, Angela Merkel exige uma mudança de política. Na ótica da rigorosa moral alemã, onde a palavra "dívida" (teilen) quer dizer "culpa", os países do Sul da Europa andavam a viver acima das suas possibilidades e, estando em dívida, tinham de pagar por isso. O sofrimento que lhes seria exigido com os programas de resgate era, por isso, proporcional aos benefícios que tinham recebido sem por eles trabalharem. Esta perspetiva moral, derivada de Kant, contribuíra para a prosperidade económica da Alemanha, e deveria ser tomada como exemplo por parte dos outros países.

Foi assim reconhecido, aliás, por várias figuras importantes, alemães incluídos. Em Abril de 2014, a prestigiada revista The Economist publicava uma análise do que dizia ser a lei da economia europeia, dizendo: "German legalism is hampering rational crisis-management", quer dizer, medidas importantes de combate à crise, como o investimento na economia e a indispensável reestruturação da dívida, eram atropeladas pela teimosia de Merkel, do seu Ministro das Finanças Wolfgang Schauble, e dos prussianos de velha guarda do Bundesbank, o banco central alemão. Acrescentava-se, nesta revista: "Some say economics in Germany is treated as a branch of moral philosophy". Assim se explicariam não apenas a atitude perante a Grécia, no início deste ano, como também a feroz oposição movida contra Mario Draghi no seu programa de Quantitative Easing, começando em 2012.

A pouco e pouco, este discurso foi chegando a outras partes da Europa. Onde esta cultura não existia, como em Portugal, a filosofia da teilen foi apoiada por outra, a que eu costumo chamar de lógica dos números. Talvez o maior legado da direita no século XXI, esta lógica substituiu a "visão política da política" por uma visão economicista da política, deixando de se ter as pessoas como prioridade, para se olhar apenas para os números. Défice, dívida, exportações, desemprego, tudo passaria a ser tratado como estatística, e não como a realidade viva, volátil, humana que verdadeiramente é. Esta lógica dos números foi a que contribuiu para Passos Coelho subir ao poder e para estar, depois de quatro anos de austeridade, empatado nas sondagens com António Costa. A nova cultura de direita tinha, com efeito, um enquadramento de tal forma convincente que qualquer alternativa parecia não existir. Desta forma, aqueles que se diziam cristãos-democratas, situados tradicionalmente no centro-direita, teriam de votar na única possibilidade que lhes era apresentada, a direita dos números, porque a outra, além de ser de esquerda, era completamente surreal, radical e irrealista. E quem fizesse o contrário arriscava-se a ser criticado, humilhado, insultado, como aconteceu, entre nós, com Freitas do Amaral, histórico líder do CDS, que dizia, em entrevista à Visão, "hoje, só com o PS", pegando numa conhecida frase de Churchill: "às vezes, é necessário mudar de voto ou de partido, para não ter de mudar de princípios".


Aquilo a que assistimos hoje é um fenómeno estranho, e muitas vezes contraditório. A contradição surge porque os apoiantes desta nova cultura, dizendo-se de direita, misturam direita do século XX com direita deste século, não vendo diferenças entre uma e outra, quando na verdade elas são muitas e têm muita relevância. Quem se lembra de Kennedy? Esse ídolo político, talvez o mais unânime de todos, seguido ao mesmo tempo por esquerdas e direitas. Quem se lembra de um debate contra Nixon, em 1960, em que o futuro Presidente Kennedy dizia, abertamente, que não queria saber da dívida pública? Quem se lembra de Adenauer, da CDU alemã (sim, a de Merkel), das nacionalizações, do investimento público, do Plano Marshall? E Thatcher? Não aumentou ela a despesa pública, como escrevi noutro artigo? A contradição é notória. Hoje, quase não existe democracia cristã, e ela certamente não se insere no quadro em que Passos Coelho se move (muito menos no do PP). Se existem cristãos-democratas, é o Papa, em primeiro lugar, e, no espaço da política, Jean-Claude Juncker, eleito Presidente da Comissão Europeia, que em vão tentou alterar o estado de coisas na Europa. Quanto à social-democracia, o PSD deixou de ser social-democrata desde os tempos da AD, e já ninguém se lembra do PSD de centro-esquerda de Sá Carneiro, que via no exemplo nórdico um modelo político e um motivo de inspiração (a propósito, vale a pena ler um artigo de Francisco Assis, exatamente sobre a social-democracia e a democracia cristã nos dias de hoje).


A cultura de direita apagou estas alternativas do espetro político. Elas sobraram para o lado do PS, que se foi, lentamente, convertendo um pouco para a direita, exatamente num esforço conciliatório face às alterações verificadas na sociedade, fruto da globalização, da modernização. O PS, que em tempos se aproximara do marxismo, tornou-se num saco onde cabiam não só os sociais-democratas ou "socialistas democráticos", mas também os cristãos-democratas, os "centristas", os católicos progressistas e até alguns liberais e nacionalistas. Face às mudanças ocorridas na direita, e se não fosse o brainwashing da comunicação social, seria difícil criticar Freitas pela decisão de votar PS - mas também outros históricos como Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, entre muitos outros.

Apesar de todo o monopólio exercido sobre a comunicação social, apesar da lógica dos números, ainda assim a nova direita não conseguiu erradicar as alternativas do mapa político, por muito que Passos e Portas tentassem por cá, e a Alemanha na Europa. O descontentamento com a situação, com o austeritarismo de Berlim e de Bruxelas, com a pobreza, a fome e a humilhação, levou a uma renovação da esquerda em muitos países (e, noutros casos, do extremismo neonazi). Um pouco por todo o lado surgiram novos partidos, novos movimentos de cidadãos que tinham, em comum, o objetivo de pôr termo à austeridade e, de um modo mais amplo, reformar a política. Em Portugal, em muito devido à comunicação social, esta mudança não se verificou à dimensão com que ocorreu em outros países, mas ainda assim surgiram partidos como o Livre, na esquerda, e o Nós, Cidadãos, no centro. Em Espanha, depois de surgir o Podemos e o Nos, Ciudadanos, as eleições para as regiões autónomas em 2015 terminaram com vitórias de coligações de esquerda e de independentes um pouco por toda a parte. Na Grécia, caso mais mediático, o SYRIZA venceu as eleições em 2014, constituindo governo em 2015, com Alexis Tsipras como primeiro-ministro. Mais recentemente, no Reino Unido, depois da derrota de Ed Milliband, Jeremy Corbyn foi eleito líder do Labour, revelando uma viragem radical à esquerda do histórico partido trabalhista.

A estas mudanças, a direita reagiu com ferozes ataques, quando não com desprezo. Passos Coelho chamou ao programa do SYRIZA um "conto de fadas". E, desde o primeiro dia, a União Europeia reagiu à vitória daquele partido como uma afronta, opondo-se a qualquer proposta dos gregos. Na televisão e nos jornais, o SYRIZA aparecia como um partido radical: no Observador, José Manuel Fernandes escrevia: "Há um equívoco na crise grega: a ideia de que o Syriza só quer acabar com a austeridade. Antes fosse assim. O seu radicalismo e 'linhas vermelhas' têm muito mais a ver com o mito da 'luta de classes' ". Noutra notícia, o título dizia, com toda a imparcialidade do mundo: "50 dias de Syriza. Das promessas ao mundo real". José Gomes Ferreira enchia o seu comentário na SIC e na SIC Notícias de desprezo pela vitória, de previsões de que era inevitável o falhanço do programa de governo de um partido radical. Os radicais do SYRIZA. As "crianças", como viria a dizer Christine Lagarde, do FMI. Este SYRIZA radical tinha, como propostas (ver aqui), a resposta à crise humanitária (radicalismo), a recuperação económica e a promoção de justiça fiscal, um plano para a recuperação do emprego e a reforma do sistema político. E a restruturação da dívida, sim. Sem ela, a dívida continuaria a ser insustentável.


Mas o SYRIZA chocou com o modelo político, económico, ético-moral da Alemanha e, por intermédio da Alemanha, de toda uma Europa subserviente, alinhada com Berlim em todas as questões. Quando o Podemos venceu as eleições, a comunicação social foi buscar detalhes obscuros do passado de cada um dos seus dirigentes, e mal encontrassem um, publicavam-no, como foi com um vice-presidente que se referira aos pormenores "nazis" escondidos nas mensagens dos filmes da Disney. Cá, não tendo surgido novos partidos, as atenções viraram-se para António Costa. Ataques pessoais, insultos, comparações a Sócrates, etc. Em Inglaterra, foi mais do mesmo com Corbyn: ainda hoje, o The Independent destacava uma declaração do Mayor de Londres dizendo "This is turning into a national joke", quando foi noticiado que Corbyn não fora ao Campeonato Mundial de Rugby.

O que justificaria esta reação por parte da direita? Em primeiro lugar, o medo. O medo de perder o poder, também o medo genuíno das propostas desta nova esquerda. Em segundo lugar, o ódio. O ódio à esquerda, incutido nas suas consciências pela cultura de direita a que nos habituámos. Mas, olhando para as propostas do SYRIZA, e também de Corbyn, o que é que teriam verdadeiramente de radical? Em outros tempos, seriam apenas típicos programas sociais-democratas. Talvez Corbyn fosse o PS antes de meter o marxismo na gaveta, mas ainda assim não seria, pelos padrões daquela época, um verdadeiro radical. Hoje não há dúvida de que a política teve uma viragem significativa à direita, mas isso não quer dizer que as alternativas à esquerda deixem de fazer sentido.

Para os que têm como ídolos políticos figuras como Churchill, Kennedy, Adenauer ou Sá Carneiro, radical deveria ser, não o programa de Corbyn, ou de Tsipras, mas sim o modelo - esse, sim, radical - dessa direita, esse austeritarismo de contornos ético-morais que ameaçam destruir tudo aquilo que foi construído pela humanidade no século XX. O Estado Social, a União Europeia, a solidariedade e a justiça social. O Estado requer uma reforma, sem dúvida nenhuma. Necessita de se adaptar aos novos tempos. Mas reforma do Estado não significa aquilo a que estamos a assistir hoje. E a cultura de direita está a levar-nos para um lugar muito perigoso, muito mais perigoso do que Corbyn ou o SYRIZA nos poderiam levar.


É caso para perguntar, o que é que Churchill acharia de tudo isto? Ele que se bateu por uma Europa solidária e unida. Ele que deu desenvolvimento ao Estado Social, lançado pelo Labour no Reino Unido, em 1945. Ele que viu os perigos da crise económica, do extremismo a que ela levou, o fascismo, o nazismo, hoje, a Frente Nacional francesa, a Aurora Dourada grega. As manchetes de jornais não têm fotografias de Le Pén, ou de ataques da extrema-direita, mas dos partidos "radicais" que vão canalizando votos de protesto e que contam com soluções, boas ou más, mas legítimas e coerentes.

O que estes partidos de esquerda representam não é o radicalismo extremista, mas a oposição corajosa, quiçá temerária, à lógica dos números, ao domínio alemão, à situação drástica que hoje se vive, que não se vê nos jornais, mas que até as estatísticas não conseguem esconder, a pobreza, o desemprego, o endividamento, tudo isso. O personalismo ético, princípio basilar da democracia cristã, da social-democracia, do liberalismo clássico, do Estado de Direito, foi completamente posto de lado, substituído por um capitalismo que já não é "selvagem", mas pensado, estruturado em torno de uma ideia, de um modelo, com células espalhadas pelos setores-chave da sociedade. Com todas as consequências negativas que hoje sentimos.

As eleições em Portugal servirão para virarmos a página a este momento triste que hoje vivemos. Talvez um dia esta cultura de direita desapareça, e as pessoas possam novamente reparar naquilo que se passa, naquilo a que este liberalismo nos levou nos últimos dez anos, naquilo em que nós nos tornámos, enquanto Europa, enquanto Estados, enquanto pessoas.

Um dia, talvez...

"I never worry about action, but only inaction"
Winston Churchill