Foi um ano de altos e baixos. Até à última esperou-se por Adele e Kanye West (e também Frank Ocean); a primeira bateu recordes mas desiludiu, o segundo e o terceiro não apareceram. Houve Kendrick, sinónimo de 11 nomeações para os Grammys. Bom sinal, porque tivemos um artista que se aproximou do génio de Michael Jackson (menos uma nomeação do que o Rei do Pop); mau sinal, porque não houve concorrência. O próprio álbum de Kendrick não foi tão bom como Good Kid M.A.A.D City, de 2012; só que nesse ano havia Frank Ocean, Mumford and Sons, Fun e o fenomenal Take Care de Drake.
De qualquer forma, houve bons acontecimentos. Adele, ainda que desapontando, é sempre boa notícia. No rap, 2015 bateu 2014 à distância: tivemos Dr. Dre, Drake, Future, Future e Drake, Earl Sweatshirt, Fetty Wap, G-Eazy, Mac Miller, Rae Sremmurd, Ty Dolla $ign, Vince Staples e Young Thug - em 2014 tínhamos Run The Jewels e pouco mais (e, por cá, os 5-30, que muita falta fizeram este ano). De resto, este ano parece ter ficado atrás: não houve Alt-J, nem Beyoncé, nem Jhené Aiko, nem War On Drugs.
De todo o modo, depois de muita coisa ter ouvido e anotado, fica aqui o meu melhor dos álbuns de 2015.
10. Father John Misty, I Love You, Honeybear e Tobias Tesso Jr., Goon


Os álbuns mais díspares no género e, no entanto, os dois muito semelhantes no conteúdo - dois cantores-compositores, duas cartas de amor (no primeiro, o título diz tudo; no segundo, basta olhar para a primeira música, "Can't Stop Thinking About You"), duas almas solitárias. A principal razão para os colocar aqui é bastante mais profana: mereciam simplesmente estar no top 10 - quiçá o primeiro um pouco mais que o segundo, mas ainda assim os dois parecem estar ao mesmo nível.
Tobias Tesso Jr. é fascinante porque faz lembrar, em simultâneo, o melhor de Paul McCartney e de John Lennon - não apenas na própria voz, mas na composição de todo o álbum. Por exemplo, se ouvirmos a última música, "Tell The Truth", com o violino no fundo, imaginamos logo McCartney, e aquela guitarra por detrás será do gosto mais ousado de Lennon; a composição parece uma combinação de ambos. Todo o álbum se assemelha aos dois maiores Beatles; mas Tobias Tesso Jr. não é um pop-star, muito pelo contrário: parece perdido, e isso leva-o a implorar um lugar na indústria musical ("Think I'm gonna try in Hollywood", em "Hollywood"). Não era preciso implorar, bastaram-lhe as melodias e uma composição do melhor que há para que Adele o fosse buscar como compositor para o seu novo álbum.
Father John Misty, pseudónimo para Joshua Tillman, é também todo ele um romântico perdido. Mas enquanto Goon é pródigo em amor inocente, o sentimento de I Love You... é tudo menos inocente: o álbum, que é quase todo uma declaração de amor à mulher, começa logo com um bastante elucidativo "You fuck the world damn straight malaise", entre muitos outros trocadilhos e dirty jokes. Mas, à parte esses trocadilhos e o sarcasmo sempre presente, Tillman é surpreendentemente sério, quer nas críticas que faz à sociedade (as músicas "Bored In The USA" e "True Affection"), quer em pequenas confissões, que ocasionalmente lhe escapam, do sentimento que o liga a Emma, a esposa (no final do álbum, o verso "Seen you around, what's your name?"). É talvez a obra, das 10 (ou 11) que encontram aqui, que mais perplexo me deixou: não pela qualidade da música em si, que é indubitável, mas pela sensação que deixa - a mistura de um ultraje de conservador com uma adoração inqualificável. Numa feliz expressão, I Love You, Honeybear é o amor lado a lado com o cinismo - o amor inocente de Joshua Tillman por uma pessoa, o sarcasmo e o cinismo de Father John Misty para com o mundo.
9. Big Sean, Dark Sky Paradise
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Big Sean é daqueles rappers que, não deixando de cantar sobre os temas próprios da vida na Black America, consegue ultrapassar isso e fazer músicas próprias para um grande público. É um pouco como Kanye, seu produtor e mentor, em versão menor. O álbum tem Sean como rapper puro e duro ("I live the life I deserved, blessed, Fuck a vacay I feel better at work", em "Blessings", onde se junta com Drake) e Sean como rapper comercial ("I Don't Fuck With You", um dos hits deste ano), mas mostra outra faceta do cantor, que o aproxima incrivelmente de Kanye: Sean, o neto emocionado. Tal como Kanye se mostrou um pai babado em "Only One", o seu discípulo provou não ficar atrás com a emocionante melodia "One Man Can Change The World", que gira em torno da recente morte da avó, e para a qual chamou John Legend e, claro está, Kanye West. A música é o pico emocional do álbum. Mas todas as canções são dignas de nota: "Dark Sky (Skyscrapers)" é uma bem conseguida adaptação de "Started From The Bottom", de Drake; "All Your Fault" traz novamente Kanye, o que sempre quer dizer alguma coisa; "Paradise" é a consagração de Big Sean como um artista das palavras; e por aí fora. Num ano em que o rap não foi tão mau quanto isso, Big Sean subiu mais alto e deixou-nos Dark Sky Paradise.
8. Dustin Tebbutt, Home EP

Dustin Tebbutt nasceu na Austrália, onde dá uns quantos pequenos concertos, e há coisa de quatro anos decidiu ir para a Noruega escrever música, isolado do mundo. O que dali saiu foi uma espécie de junção de Bon Iver com Ben Howard. Ouvir Tebbutt é refugiarmo-nos na música como ele se refugiou na paisagem escandinava. Aqui não há avant-gardes, ou grandes orquestras, ou qualquer tipo de profundidade intelectual; há uma voz melódica, um coro harmonioso, um acompanhamento instrumental único que formam, no seu conjunto, algumas das melhores melodias deste ano. Em "Silk", com a doce voz de Thelma Plum, um alfaiate serve como metáfora para o difícil caminho a percorrer numa relação de amor ("Tailor don't leave here yet, The silk we're seeking here, Starts as thread"). "Harvest", talvez a obra-prima do álbum, é a música ideal para o desgosto causado pelas atribulações do quotidiano, mostrando que o antídoto para o desespero é sempre a esperança. Num feliz acaso, "Plans" acaba por ser a música perfeita: a letra é toda sobre o silêncio e o efeito devastador das palavras ("Hold when you say those words"), e o melhor da música está no instrumental que se lhe segue - portanto, no silêncio. Dustin Tebbutt é daquelas boas descobertas cuja música nos passa a acompanhar dia e noite, durante todo o ano. Sem ser um músico excecional, é, contudo, aquele músico de quem bem precisamos.
7. Julia Holter, Have You In My Wilderness

Tenho de confessar: não fazia ideia de quem era Julia Holter e só prestei atenção a este álbum, lançado em Setembro, quando a Piccadilly Records (revista que foge ao normal nestas listas de fim de ano) o elegeu para número 1 de 2015. Duas semanas depois, como verdadeira obra de arte que é, Have You In My Wilderness ainda me deixa perdido nas suas letras, nos pequenos pormenores instrumentais. Ouvi músicas que apaguei de início do meu iPod e que, à segunda vez, me pareciam o melhor do disco - como a macabramente alegre e assustadora Sea Calls Me Home. É um pouco isso que define a obra de Julia Holter, e esta mais que todas: uma permanente antítese, quer seja entre sentimentos conflituantes implícitos na letra (amor ou ódio, ingenuidade ou sarcasmo, vida ou morte), ou entre interpretações opostas que a música deixa transparecer. É como ouvir o romantismo nevrálgico, meio doente e patético, mas sempre comovedor, de uns Smiths misturado com o avant-garde de um Lennon - todo o não original sofrimento de um desgosto amoroso ("Tell me, why do I feel you running away?", em "Have You In My Wilderness") contrastante com um lirismo abstrato digno de Kandinsky ("Look in cloud's mirror, When the sea called me home" em "Sea Calls Me Home") e um surrealismo psicótico de Dali ("Can I feel you? Are you mythological?", em "Feel You"). Tudo isto faz deste álbum uma peça difícil de entender, exigente mas delicioso na sua profunda complexidade.
6. Sufjan Stevens, Carrie & Lowell

"Frightened by my feelings, I only wanna be a relief". A frase é só por si intrigante; Sufjan quer ser ele um alívio para os outros, ou quer ser aliviado? Este verso, inserido na música "Should Have Known Better", parece um bom resumo da narrativa depressiva, suicidária e melancólica que é todo o álbum. Carrie é a falecida mãe de Sufjan - morte que ele tenta agora ultrapassar. Lowell é o padrasto. Aquilo que é um tributo a ambos acaba por ser uma reflexão sobre a iminência avassaladora da morte. Na música intitulada "Carrie & Lowell", não há descrições louváveis das memórias da mãe; há referências ao thorazine (medicamento que a mãe, esquizofrénica, tomava), a Érebo (deus da escuridão na Grécia antiga) e ao "lamento de Dido" - alusivo a uma ópera de Henry Purcell com o nome When I am laid in earth. Carrie & Lowell começa como um tributo a um casal, desemboca numa dissertação sobre a morte, para acabar como um testemunho existencialista da realidade, bela de uma forma dura, dura de uma forma bela, da vida. Por exemplo, na canção mais autodestrutiva do álbum, "No Shade in the Shadow of the Cross", que contém devaneios aqui e ali de suicídio ("I'll drive that stake through the center of my heart"), Stevens termina procurando a fé em Jesus Cristo ("There's no shade in the shadow of the cross"). Prova de que, mesmo com as experiências mais dolorosas, há sempre volta a dar - nem que seja apenas com uma guitarra acústica numa mão e umas folhas de papel noutra, como Stevens, e com esta brilhante banda-sonora dos dias difíceis da vida.
5. Tame Impala, Currents

Quando ouvi "Yes I'm Changing" pela primeira vez, parecia estar a viver o Lost in Translation de Sofia Coppola. Havia alguma coisa naquela canção, uma qualquer influência japonesa que eu pressentia, mas que era mais a presença de elementos de música techno, à qual acresciam os ruídos da cidade e do trânsito que a banda propositadamente ali colocava, e que me parecia levar para Tóquio, para uma sociedade desconhecida, o indivíduo perdido na imensidão do mundo, "There is a world out there, it's calling my name", e depois o final, "It's calling yours too", como na parte final da película, o sussurro de Bill Murray ao ouvido de Scarlett Johansson.
Todo o álbum é como que tirado de um filme. O psicadélico que tão fortemente caracteriza os Tame Impala de outros tempos - e que tão fortemente me separa deles - parece ter sido posto de lado ou substancialmente suavizado. Aqui temos sobretudo influências de música eletrónica, saídas do cinema de ficção científica. Temos músicas inteiramente techno - como "Past Life" - e outras que são mais rock do que outra coisa - como a repetitiva mas incrivelmente atraente "The Less I Know The Better". É nas partes mortas, nos pequenos skits de um minuto e meio, que se vê o verdadeiro estilo deste álbum. Apercebemo-nos de que o rock psicadélico continua ali, nos intrigantes pormenores, que afastam este álbum do que poderia ser um simples produto techno dos anos 80 (como os Daft Punk tentaram recriar com o seu RAM em 2013), tornando-o verdadeiramente em algo único e especial. "Let It Happen" é a prima dona dos Tame Impala, uma junção muito particular de rock com eletrónica a que os alemães chamaram de "krautrock" e que nos parece levar diretamente e a alta velocidade para um universo paralelo. O psicadélico, afinal, é isso mesmo, seja com rock da pesada ou com baixos e sintetizadores. E os Tame Impala são, continuam a ser, o psicadélico por excelência.
4. Justin Bieber, Purpose

Sim, tal como todas as pessoas que nasceram antes de 1997, sempre detestei o fenómeno Bieber: primeiro, a música Baby e a histeria dos Beliebers; depois, o adolescente rebelde e pomposo que agredia paparazzis, atirava ovos à casa de vizinhos, conduzia embriagado e aparecia em tribunal com uma arrogância tal que chocaria até o mais convicto dos anarquistas. A revolta contra esse fenómeno atingiu um ponto tal que, há cerca de dois anos, dezenas de milhares de pessoas assinaram uma petição exigindo a expulsão de Bieber do território americano. Em 2015, esse Bieber desapareceu e foi substituído por um verdadeiro artista, oscilando entre o Pop e o R&B, sempre com qualidade. Em Purpose, não há histerismo, não há música barata, não há aquele narcisismo tão comum às estrelas pop com vinte e poucos anos. Há um conjunto de baladas trabalhadas de forma inteligente por um conjunto invejável de produtores, onde se destaca, desde logo, Sonny John Moore, conhecido como Skrillex. Os singles "What Do You Mean" e "Where Are U Now" são a conjugação perfeita de pop, eletrónica, R&B e acústico, e o seu sucesso comercial não dinamita, antes realça, a qualidade da canção. Todo o álbum está repleto de canções de amor; mas também não há aqui, com uma ou outra exceção, aquelas palavras tão ocas e vazias que perdem o sentido. "Love Yourself" é o melhor que uma canção de amor tem para oferecer no reino do R&B. E "No Pressure" junta Big Sean e o melhor hip-hop a um álbum já de si rico em diversidade de estilos. O pop é afinal, um género que existe à custa de outros géneros, que junta o melhor do rock, do indie, do hip-hop e do R&B. E Justin Bieber fá-lo, aqui, com mestria, produzindo um resultado que eu próprio diria ser inalcançável para a grande estrela do teen pop neste nosso século. Felizmente, estava errado.
3. Jamie xx, In Colour

Não é todos os anos que sai um álbum eletrónico que se torna um marco de popularidade ouvido até nos círculos mais mainstream e comerciais. Mas também não é todos os anos que o DJ e produtor da banda indie mais popular dos últimos anos lança um disco a solo. Jamie xx, dos The xx, faz da música eletrónica um repositório de sentimentos felizes. Não temos aquela música pesada que tanto marca o estilo techno dos últimos anos - por causa disso restrito, como o metal ou a música experimental, a um círculo diminuto de apreciadores. Em In Colour não há músicas para se ouvir em discotecas nas sextas-feiras à noite - quando muito em bares no Cais do Sodré, mas não mais do que isso. Esta é música eletrónica subtil, a eletrónica do dia, mais do que da noite, a eletrónica que mostra o lado melhor - mais inocente, também - da cidade. Oiço "Obvs" e penso, não no Urban ou no Lux, mas na Ribeira das Naus ou no Terreiro do Paço. Oiço "Just Saying", apenas de minuto e meio, e vêm-me à cabeça aqueles romances alternativos de amor que por vezes aparecem no cinema. Oiço "Stranger in a Room" (com a voz do vocalista dos xx) e recordo-me, pelas suas semelhanças com a música "Together", do filme Great Gatsby de há dois anos. Claro que há aqui uma presença contínua dos xx - presença vocal ou em espírito. E é isso que torna este álbum em algo completamente único: eletrónica com traços de indie, em forma de tributo ao melhor dos dois géneros. O melhor, contudo, é quando Jamie xx chama o rapper Young Thug e cria a maravilhosa "I Know There's Gonna Be Good Times", que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores canções deste ano. Para os que, como eu, nunca conseguiram apreciar musica eletrónica desde a última vez que ouvi Primal Scream, têm aqui o melhor exemplo de como não é preciso voz quando se tem o génio e a capacidade de um verdadeiro músico como é Jamie xx.
2. Drake, If You're Reading This It's Too Late

Longe de chegar ao nível de Take Care ou Nothing Was The Same (este último, quanto a mim, o seu melhor trabalho), Drake deixou-nos este ano com uma mixtape que é de fazer inveja a qualquer rapper e músico. Pouco depois de sair, em Fevereiro, todas as canções foram parar ao Hot R&B/Hip-Hop Songs da Billboard, coisa nunca antes vista.
E percebe-se. Não é só o talento natural de Aubrey "Drake" Graham para fazer rimas e compor verdadeiros hits de hip-hop. É toda uma equipa de luxo que se reúne, sob a sigla OVO, para produzir o álbum daquele que é hoje, incontornavelmente, o artista mais bem sucedido do rap. Na equipa de produtores temos os clássicos Noah "40" Shebib e Boi1da; mas juntam-se-lhe os rookies PartyNextDoor e Travis Scott (aquele da OVO de Drake, este último da GOOD Music de Kanye, Big Sean e John Legend), estrelas em ascensão que deixam a sua devida marca no percurso do mestre.
Numa altura em que o rap é dominado por hooks repetitivos e vazios de sentido, ou letras tão agressivas que chegam a ridículas, ou sons simplesmente não apreciáveis, Drake é sempre uma perfeita válvula de escape, o artista que chega e vence, aparece e salva o rap. Este ano houve Kendrick Lamar para quem gosta; até é o meu caso - mas no caso de Kendrick em 2015, a profundidade intelectual do pensamento não salva a miséria do acompanhamento instrumental, demasiado preso ao soul, e a agressividade impressiva das letras, pouco amigáveis para um indivíduo de etnia branca que, como eu, as deseje ouvir.
De qualquer forma, houve Drake. Começa com uma assinatura de presença ("If I die, all I know is I'm a motherfucking legend", em "Legend"), passa por um ataque aos fakes rico em filosofia ("Know Yourself" parece saído de Sócrates, o grego), leva-nos a uma party song com o discípulo PartyNextDoor ("Still in Miami, most of these girls are too messy", em "Preach"), seguida logo depois por uma série de slow jams, outra vez com PND em "Wednesday Night Interlude", com Travis Scott em "Company", e sozinho em outros grandes sons como "Now & Forever", "You & The 6" e "Jungle". São estas, pelo menos, as músicas que mais me acompanharam ao longo do ano. Mas não são de desprezar as restantes. Num álbum que, como já disse, deixa muito a desejar em relação aos seus dois imediatos predecessores, Drake ainda assim conseguiu trazer-nos o melhor do rap em 2015 - e, em 2015, isso não é pouca coisa.
1. The Weeknd, Beauty Behind the Madness
Descobri The Weeknd com quatro anos de atraso. Em 2011, o agora dito sucessor de Michael Jackson (sobretudo pelo single "Can't Feel My Face") editou três misturas que lhe valeram o título de um dos mais promissores artistas do mundo. Eu só tinha ouvido uma música dele, inserida no Take Care de Drake, intitulada "Crew Love", uma música fantástica, mas cujo autor eu ignorei. Este ano, o filme 50 Shades of Grey teve na banda-sonora aquela música espetacular e inqualificável que é o Earned It, e lá fui eu procurá-lo. Balanço final: descoberta musical do ano, um ano a ouvir The Weeknd, e em Setembro sai novo álbum, quando eu ainda não tinha sequer esgotado as suas músicas antigas. Um ano em cheio.
The Weeknd, de nome Abel Tesfaye, é o pródigo artista que se define, nas palavras do próprio, como "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill" (em "Tell Your Friends"). Mulheres, sexo e drogas. A fama adquirida, primeiro, com "Earned It" e, logo a seguir, com os singles "Can't Feel My Face" e ainda "The Hills", não tornou Tesfaye num cantor pop, como se esperaria de quem pretende ser como o Rei. Pelo contrário, o velho Tesfaye ainda está lá, em músicas como "Tell Your Friends" (sexo e drogas), "Often" (sexo), "Acquainted" (mulheres) e o muito bem sucedido "The Hills" (sexo). Os velhos temas são conjugados com outros mais próprios de uma estrela pop: existe pela primeira vez uma história de amor ("Angel", além do já referido "Earned It"), e pela primeira vez vemos Tesfaye falar dos seus próprios erros, da sua vida pessoal, da sua relação com a mãe, na épica introdução "Real Life". Os ilustres convidados - Lana del Rey em "Prisoner" e Ed Sheeran em "Dark Times" - introduzem pormenores interessantes, mas quase passam despercebidos na globalidade do álbum. Claro está, o destaque continua a pertencer à música que fez de The Weeknd a nova grande estrela do pop - "Can't Feel My Face", sucessora de "Thriller" e de Michael Jackson.
Sucessor de MJ ou não, The Weeknd ocupou, desde o início, um espaço vazio. É hoje, com Frank Ocean, o expoente máximo do chamado "PBR&B": o R&B hipster ou indie que cada vez mais se tem vindo a afirmar como um estilo autónomo na indústria da música. Mas enquanto Frank Ocean é o "irmão bom", com uma forte, ainda que involuntária, intervenção política e cívica (nomeadamente pela sua homossexualidade), The Weeknd é o símbolo de uma geração desencantada com as perspetivas da vida na sociedade, refugiada no consolo efémero do álcool, das drogas, do sexo e da vida noturna, e fechada, não no narcisismo dos rappers, mas no niilismo próprio dos poetas românticos e existencialistas dos séculos XIX e XX. The Weeknd é, no fundo, um poeta à moda destas novas gerações; e assim ainda mais fica provada aquela frase de que a noite é dos poetas - noite das drogas, do álcool, do sexo e das festas de Abel Tesfaye.
É no dueto com Lana del Rey que The Weeknd confessa as mudanças recentes operadas na sua vida. Hollywood trouxe-lhe uma nova vida. Mas o que o move ainda é o mesmo: "I'm a prisoner to my addiction" - aqueles vícios que já o controlavam e que o trouxeram à ribalta em 2011. Não sabemos durante quanto tempo - até porque os vícios não são toleráveis para sempre. Por agora, congratulemo-nos com a fantástica música que nos proporciona. Celebremos o facto de ainda não ter cedido à inércia do estrelato. Porque The Weeknd ainda é o mesmo. No fundo, ainda é "that nigga with the hair / singin' bout poppin' pills, fuckin' bitches, livin' life so trill". Em 2015, no meio das drogas e dos comprimidos, isso bastou para nos deixar com o melhor álbum do ano.




